quarta-feira, 19 de março de 2025


19 de Março de 2025
CARPINEJAR

Carnificina nas estradas

Não me recordo de um meio de semana tão trágico na estrada. Foram 11 mortes no trânsito gaúcho em um intervalo de 12 horas, entre a noite de quarta-feira (12) e a manhã de quinta-feira (13): nove em rodovias estaduais, uma em rodovia federal e uma no trânsito de Porto Alegre. Entre as vítimas, o fotógrafo e artista visual Victor Hugo Cecatto, de 63 anos, num acidente na BR-158, em Cruz Alta.

Não dá para assistir à carnificina passivamente. Há vários motivos para a avalanche de perdas: a situação precária das nossas estradas, a falta de acessos depois do maior desastre climático da nossa história, de maio do ano passado, que atingiu mais de 90% do Estado.

Ao percorrer o Rio Grande do Sul para palestras, venho levando uma hora a mais em cada trajeto devido a condições adversas e paralisação de trechos. Exige-se uma tensão descomunal, própria de motorista profissional de rali. Você não consegue despregar o olho do horizonte, não consegue relaxar. Não há quem não deixe o carro com dores nas costas, aliviado de ter sobrevivido.

Eu sei que a letalidade costuma estar associada à velocidade, ao consumo de álcool, à direção perigosa e àqueles segundos de desatenção com o celular - de modo nenhum desmereço as campanhas de prevenção, extremamente necessárias -, mas o aumento desenfreado e abusivo de casos não pode ser somente creditado aos erros humanos. Há um tanto de cavernosa insalubridade nas autopistas.

Pagamos cada vez mais pedágios, e não existe tranquilidade e segurança de contrapartida.

Já estávamos numa crescente. De acordo com o Departamento Estadual de Trânsito (Detran), em 2024 aconteceram 1.507 acidentes com mortes, contra 1.432 em 2023 (acréscimo de 5,2%). O número de mortes no trânsito gaúcho foi de 1.652 em 2024, ante 1.576 em 2023, numa alta de 4,8%. Tudo sinaliza que desembocaremos num recorde macabro e precoce em 2025.

Não tem como incentivar o turismo ou ampliar a nossa distribuição de produtos desse jeito. A enchente não terminou. Há muito para ser reparado. Tanto que a iniciativa privada tem colaborado para mitigar a crise viária. O projeto Reconstrói RS - da Federasul, do Instituto Ling e do Instituto Cultural Floresta, além da contribuição de outras empresas como RandonCorp, Gerdau, Metasa, Grupo Simon e Usiminas - idealizou e construiu 10 pontes para possibilitar o deslocamento de cargas e a mobilidade de moradores, envolvendo as comunidades de Anta Gorda, Arroio do Meio, Coqueiro Baixo, Doutor Ricardo, Encantado, Ilópolis, Pouso Novo, Putinga, Relvado e Travesseiro.

Percebo que o governador Eduardo Leite não está parado, mas deve se sensibilizar ainda mais com a lista recente de óbitos e jamais cansar de procurar soluções, parcerias e cobrar recursos para a reconstrução imediata de nossas principais vias. Que seja uma prioridade absoluta de seu fim de mandato.

Recomendo, inclusive, sem nenhuma ironia, que ande menos de helicóptero e mais de carro oficial para acompanhar os danos e obstáculos. Iria mencionar as piores rotas, mas não caberiam neste espaço. Talvez precisasse selecionar as raras exceções de trafegabilidade.

Conforme pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT), do segundo semestre de 2023, 72,2% das rodovias do Estado se encontravam nas categorias de regular, ruim e péssima. Sobravam menos de 30% ilesas e, desse contingente, 5% exemplares. Dos 8.798 quilômetros analisados do fluxo gaúcho, apenas 436 quilômetros estavam excelentes. Cerca de 70,1% das nossas estradas apresentavam sinalização regular, ruim ou péssima.

Isso antes da catástrofe. Imagine agora. _

CARPINEJAR

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