quarta-feira, 19 de março de 2025


19 de Março de 2025
RODRIGO LOPES

Desconfiança levou à quebra da trégua

Infelizmente, não surpreende que o acordo de cessar-fogo entre Israel e o grupo terrorista Hamas tenha colapsado. Desde o início, a segunda fase era a mais desafiadora e sobre a qual recaíam infinitas dúvidas. Quando o acerto entrou em vigor, em 19 de janeiro, havia algo concreto apenas em relação à primeira etapa, que consistia na troca de 33 reféns israelenses por algumas centenas de prisioneiros palestinos. Ao final, foram libertados 25 cativos vivos e oito corpos pelo Hamas, e 2 mil palestinos por Israel.

A segunda fase era a mais delicada sobretudo porque impera a desconfiança - esse sentimento sempre presente nas complexidades do Oriente Médio. Nessa etapa, que deveria ter começado em 3 de fevereiro, haveria um cessar-fogo permanente e a troca adicional de prisioneiros e reféns, entre eles homens civis e soldados (até agora, apenas crianças, mulheres e doentes foram soltos). Ainda estava prevista a retirada total das Forças de Defesa de Israel do território de Gaza.

Sobre a terceira e última fase não havia qualquer perspectiva de caminho a seguir: entrega de restos mortais, reconstrução de Gaza, suspensão do bloqueio do território palestino e o Hamas se comprometendo a não reconstituir capacidade militar - pontos quase inimagináveis tamanhas discordâncias e interesses envolvidos dos dois lados.

Bombardeios

Não se falava nem em paz duradoura. Muito menos havia perspectiva de futuro para Gaza (a palavra reconstrução é muito vaga), não fosse o mirabolante plano de Donald Trump de transformar aquele naco de terra devastado em um resort mediterrâneo.

Não se sabe exatamente as razões do que estava na mesa para levar Israel a romper o cessar-fogo de forma unilateral. Sabemos que o governo Benjamin Netanyahu havia exigido libertação da metade do total de reféns que ainda está em poder do Hamas (59 pessoas, 24 vivas e 35 mortas). A organização extremista não teria aceito. Israel diz que o Hamas rejeitou todas as ofertas - não se sabe quais.

A ação militar israelense em Gaza é limitada, por enquanto, a bombardeios. Não houve invasão terrestre em larga escala, o que sugere que o gabinete de governo, com o apoio de Trump, está testando até onde irá pressionando o Hamas. As demonstrações de força pelos terroristas, a cada libertação de reféns, davam mostras de que seu poder de fogo, embora diminuído, não fora neutralizado totalmente nesse um ano e meio de conflito.

Ainda assim, os ataques ocorrem em toda a extensão de Gaza - da Cidade de Gaza, no Norte, passando por Deir al-Balah (Centro), e chegando ao Sul, Khan Yunis e Rafah. Pelo menos 413 pessoas morreram e há mais de 150 feridos, segundo o Ministério da Saúde palestino, sob controle do Hamas. _

Entrevista - Rafael Rozenszajn

Major há 16 anos nas Forças de Defesa de Israel (FDI)

"O Hamas não tem a intenção de libertar todos os reféns"

A coluna conversou com major Rafael Rozenszajn, brasileiro e advogado em Israel, que atua há 16 anos nas Forças de Defesa de Israel (FDI). Ele explicou que os bombardeios das últimas horas contra a Faixa de Gaza foram deflagrados depois que Israel se deu conta de que a organização extremista não pretendia libertar os reféns que ainda estão no território.

O Hamas se recusa a libertar os 59 reféns que estão sendo mantidos em Gaza desde o 7 de Outubro. São reféns que foram tirados de suas camas, tirados de uma festa. Estão sendo mantidos de forma desumana em túneis subterrâneos. Temos relatos de reféns que estão sendo acorrentados, que não estão sendo alimentados, que não estão recebendo água. O governo deu uma chance ao Hamas de mostrar a seriedade, de mostrar que tem a intenção de libertar os reféns. 

Chegamos à conclusão de que o Hamas não só não tem a intenção de libertar todos os reféns, mas que também está se reorganizando, está se rearmando e planejando realizar ataques terroristas contra os cidadãos israelenses, contra as Forças de Defesa de Israel, planejando ataques como fez em 7 de outubro (de 2023). Nenhum país soberano agiria de uma forma diferente de como está agindo o exército israelense nesse momento: com mão forte para alcançar os objetivos dessa guerra, para desmantelar a capacidade militar terrorista do Hamas e libertar todos os nossos reféns.

Infelizmente, o grupo tem como lema apagar Israel do mapa. E o Hamas diz claramente que vai continuar fazendo tudo o que puder para colocar em prática esse objetivo. O Hamas diz que não se arrepende do 7 de Outubro e que já está se preparando para o próximo. Então, o Estado de Israel não pode permitir uma situação na qual terroristas continuem atuando para cometer ataques terroristas como foi no 7 de Outubro. Sabendo que o Hamas odeia Israel muito mais do que ama a seu próprio povo, está disposto a sacrificar seu povo para alcançar o objetivo de apagar Israel do mapa. Não podemos permitir que continue se reorganizando e se rearmando. O Hamas foi muito enfraquecido, mas ainda não foi desmantelado.

Para esclarecer a todos, existem dois tipos claros de alvos militares que são atingidos pelo exército de Israel: infraestruturas militares e a liderança terrorista. Quando o exército de Israel atinge infraestruturas, realmente dá um aviso breve para que civis não sejam atingidos. 

Mas quando os alvos são os próprios terroristas, não se pode esperar para avisá-los de que vamos atacar. O exército israelense, sempre que pode avisar aos civis para evacuar as zonas de combate, age dessa forma. Porque o exército de Israel atua de acordo com todas as normas internacionais. Já fizemos mais de 150 mil ligações para os civis da Faixa de Gaza evacuarem as zonas de combate. 

Lançamos mais de 15 milhões de panfletos explicando as zonas que serão atacadas. Inclusive nesta terça-feira (ontem), o porta-voz em árabe já avisou aos civis em diversas áreas na Faixa de Gaza para evacuarem. Agora, o que acontece: os terroristas do Hamas utilizam os civis como escudos humanos. Vimos, nos últimos meses, enquanto estavam devolvendo nossos reféns, como os terroristas se demonstram valentes com os uniformes militares e os armamentos. Mas isso é uma fantasia. Porque, na verdade, quando estão atuando, não estão usando uniformes, estão de chinelo, de calçado, de camisetas. 

E quando eles são atingidos, eles entram nas estatísticas como se fossem civis. É um grupo terrorista, que não tem nenhum compromisso com o direito internacional. Cruel, bárbaro, totalmente contrário à civilização. Todas as pessoas que apoiam os valores do mundo ocidental precisam rejeitar o Hamas. E precisam apoiar Israel, que está lutando essa guerra tão necessária contra um grupo que é um mal, não somente para Israel, mas também para o próprio povo palestino. E sabe mais? Para a humanidade. 

RODRIGO LOPES

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