sábado, 29 de março de 2025


29 de Março de 2025
informe especial - Rodrigo Lopes

O Brasil ficou "maior"

Não é exagero dizer que o Brasil ficou maior. Depois de sete anos, a Comissão de Limites da Plataforma Continental (CLPC), das Nações Unidas, aprovou o pedido brasileiro para ter ampliada sua plataforma continental - a área de mar sobre a qual o Brasil dispõe de soberania nacional.

A ampliação vai além das 200 milhas náuticas (370 quilômetros) da Zona Econômica Exclusiva (ZEE), faixa de mar sobre a qual o país já tem direito de explorar. Trata-se de uma faixa de mar entre a foz do Rio Oiapoque (no Pará) e o litoral norte do Rio Grande do Norte.

Com a decisão da ONU, o Brasil passa, agora, a ter soberania sobre a Margem Equatorial, uma porção de água de 360 quilômetros quadrados, equivalente ao território da Alemanha.

A nova área não é a mesma que é alvo da insistência da Petrobras para conseguir licença para buscar petróleo. Apesar de também se tratar da Margem Equatorial, a região de interesse da petroleira está dentro do limite da ZEE brasileira.

Essa é, sem dúvidas, uma vitória da Marinha brasileira e do Itamaraty, que desde 2017 reivindicavam esse reconhecimento junto à ONU. É também uma conquista geopolítica e estratégica para o país. No entanto, como se sabe, com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Que o Brasil saiba que, assim como outros bens globais, como a Floresta Amazônica, não é detentor do mar ou de seu subsolo. É guardião, zelador. 

Em meio a tensão, vice dos EUA chega na Groenlândia

Em meio à tensão entre os Estados Unidos e a Groenlândia - marcada pela ameaça de anexação ou compra da ilha pelo presidente americano Donald Trump -, o vice J.D. Vance desembarcou no território na sexta-feira.

O plano original da viagem incluía acompanhar uma corrida de trenós puxados por cães e realizar reuniões com o governo groenlandês. No entanto, após retaliações das autoridades locais, a agenda foi reduzida, limitando-se a uma visita à base militar dos EUA em Pituffik, no norte do Ártico.

O novo primeiro-ministro da Dinamarca - país responsável pela política externa e segurança da Groenlândia - classificou a visita como um ato de "falta de respeito" e pediu unidade diante da pressão externa.

A comitiva americana também incluiu a esposa de Vance, Usha, o conselheiro de segurança nacional, Mike Waltz, e o secretário de Energia, Chris Wright. 

Entrevista Salus Loch - Jornalista, escritor e coordenador da Casa da Memória Unimed Federação/RS

"O silêncio permitiu que Auschwitz acontecesse"

Poucos brasileiros conhecem tão bem a história dos campos de concentração nazistas quanto o jornalista e escritor Salus Loch, coordenador da Casa da Memória Unimed Federação/RS. No próximo dia 9, ele fará palestra e lançará o e-book Liberação: Holocausto, 80 anos, obra que aborda os 80 anos da liberação de vários campos de concentração.

Como nasceu o interesse por estudar o Holocausto?

Visitei pela primeira vez Auschwitz em 2015, quando, pela revista Superinteressante, tinha a atribuição de fazer uma matéria e encontrar uma sobrevivente. A partir dali, não larguei mais. Fui pesquisando, estudando e me interessando cada vez mais. Em 2015, a neta de uma sobrevivente que mora aqui no Brasil leu a reportagem na Super e me procurou, sugerindo entrevista com sua avó, sobrevivente de Auschwitz. Nasceu o livro A Tenda Branca. Criei uma identidade muito grande com Guitta Wein, que, infelizmente, faleceu há dois anos. 

Não sou judeu, mas entendi que precisava contar essa história. Fui três vezes a Auschwitz, a segunda em 2020, quando fui o único jornalista brasileiro credenciado para cobrir o evento de 75 anos da liberação. E voltei agora, em 2025, também como o único jornalista brasileiro credenciado para cobrir os 80 anos. Nesse meio tempo, já conversei com mais de 20 sobreviventes do local apenas para ouvir suas histórias.

E a ideia dessa nova obra?

Estão sendo completados 80 anos da liberação da maioria dos campos. Aproveitando a data, em parceria com o Museu do Holocausto e a Casa da Memória, e a ISPO Pesquisa e Comunicação, nasceu o projeto Liberação, narrando como foi a libertação dos campos, de Auschwitz-Birkenau, Plaszow, Mauthausen, Terezin e Dachau. Ia lá, gravava, filmava, tudo. E o Museu do Holocausto editava dois minutinhos de vídeo e rodava nas redes sociais. Passava a mensagem, para que não se repita. Esse é o escopo do projeto. Nasceu das reportagens geradas a partir das visitas.

Depois de tantas visitas a campos de concentração, o que ainda te marca?

O primeiro ponto, que une todos, é a perspectiva da supremacia racial. A ideia dos nazistas de que eles eram poderosos, e aqueles que não eram alemães puros seriam considerados sub-humanos, e, por isso, não mereceriam sequer viver. Os campos de extermínio foram feitos para matar gente, campos de concentração eram para segregar aqueles que eram oposição, seja política ou racial. 

Essa lembrança do Holocausto é mais do que uma homenagem às vítimas. É um aviso sobre os horrores que nascem do ódio, da intolerância, da discriminação em um contexto no qual, hoje, se vê um mundo polarizado e alguns governantes entendendo que o país é só para os seus, tentando extirpar outros que não coadunam com suas ideias. Vemos o antissemitismo crescendo, especialmente a partir do ataque do Hamas e da resposta de Israel. Então, temos um contexto global para o qual esse passado tem muito a ensinar. Mas temo que não estejamos entendendo o que aconteceu, porque, daqui a pouco, pode acontecer de novo.

Estamos perdendo essa memória?

Alguns grupos fazem questão de deletá-la, inclusive. É um negacionismo pensado. Mas, quanto mais distante do fato, mais difícil de que ele esteja presente, porque os sobreviventes, daqui a 10 anos, não estarão mais vivos. Então, essa tarefa compete a nós, inclusive jornalistas, educadores, de que manter a memória viva.

Como foi a recordação dos 80 anos de libertação de Auschwitz?

Estava o Emmanuel Macron (presidente da França), o Volodimir Zelensky (da Ucrânia). Mas só falaram sobreviventes, o presidente do Congresso Judaico Mundial e o diretor do museu. Todos eles concordam com uma linha: o silêncio permitiu que Auschwitz acontecesse. Vamos continuar quietos diante do que está acontecendo hoje? É isso que move que a gente a continuar: alertar, observar, tentar educar. _

INFORME ESPECIAL

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