
Bolsonaro, agora, se vitimiza
O pronunciamento de Jair Bolsonaro após a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) aceitar, ontem, por unanimidade, a denúncia da Procuradoria- Geral da República (PGR), tornando-o réu junto a outros sete membros do outrora alto escalão de governo, seguiu uma linha: ele, o ex-comandante-em-chefe da nação, seria o grande injustiçado.
"A Justiça conspira contra o ex-presidente." "Há perseguição." "Ele não sabia de nada." "O sistema está falido." "O 8 de Janeiro foi uma grande farsa bolada pela esquerda para culpabilizar o ex-líder." Essas são algumas das frases de apoiadores em redes sociais sobre o desfecho do primeiro ato no Supremo.
No discurso, Bolsonaro disse que pouco sabia das reuniões em torno da ação golpista ou das movimentações dos demais réus - ironicamente, em geral, seus homens de confiança. É quase um salve-se quem puder...
Logo no início da fala, o ex-presidente já disse que o julgamento estava recheado de "acusações graves e infundadas".
Ao citar a ação dos caminhoneiros que fecharam rodovias após o resultado das urnas, que elegeu Lula em 2022, Bolsonaro disse que pediu, em uma live, que os manifestantes liberassem as vias, o que acataram prontamente. Em sua mente e na cabeça dos apoiadores, estava ali um herói injustiçado.
Bolsonaro também disse que, em dois anos de investigações sobre os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, não fora apontado o grande líder das manifestações.
Perseguição nas eleições
Em sua defesa, afirmou ainda que teria havido interferência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nas eleições de 2022 - e que o órgão "jogou pesado" contra ele e a favor de Lula:
- Não pude mostrar imagens do Lula defendendo aborto, falando do pobre coitado que rouba o celular para comprar uma cervejinha, do 7 de setembro, do enterro da rainha Elizabeth, do meu discurso da ONU, fotos de Lula com ditadores e do Lula com o gorro da CPX.
Ainda sobre o TSE, disse que houve diferença de cerca de 2 milhões de votos nas eleições de 2022 e que o TSE fez uma campanha massiva para que jovens entre 16 e 17 anos tirassem o título de eleitor e que "75% dos jovens votam na esquerda".
Ainda sobre os atos de 8 de Janeiro, declarou que não estava no Brasil naquele dia - de fato, Bolsonaro viajara para os EUA em 30 de dezembro para não passar a faixa a Lula em 1º de janeiro.
Por fim, mudou o foco, fez um balanço de sua gestão e reembalou os ataques aos demais poderes. Reencarnou o Bolsonaro "presidente".
- Me pintam nesse inquérito como o maior criminoso da democracia - disse.
Obviamente, não houve momentos para perguntas de jornalistas. Obviamente, Bolsonaro só falou sobre si - como se os demais sete réus não respondessem a seu comando em uma versão pós-moderna do eu em primeiro lugar. Afinal, como dizia Bezerra da Silva: "Farinha pouca, meu pirão primeiro". _
Complexa situação do dique da Zona Norte
Há um dique no bairro Sarandi, zona norte de Porto Alegre, que precisa ter seu nível de proteção elevado de 4 metros a 5,8 metros, sob pena de, se houver outra chuva, o Rio Gravataí subir de novo e inundar milhares de casas. Cerca de 1,1 quilômetro de obras já foram concluídas.
A prefeitura estressou o diálogo com moradores que viviam, de forma irregular, sobre a estrutura. Essa obra precisa ser feita - são 300 metros só de dique para sua conclusão. É justamente onde estão as 24 famílias que não aceitam deixar o local.
Na terça-feira, a Justiça negou pedido para retirada dessas famílias que moram junto à estrutura. Esse é o outro lado da história: são pessoas que entendem que os programas sociais disponibilizados por prefeitura e governo federal não são suficientes para lhes dar segurança. Sabe-se da burocracia. Sabe-se que não é fácil encontrar outro lugar.
É dever do Estado garantir que essas pessoas terão segurança para encontrar, com tempo, um lugar melhor para viver. Às famílias resistentes, cabe o direito de negociação transparente. A saída será um acordo, ainda que na Justiça. Diálogo, diálogo, diálogo. _
Por que o cessar-fogo no Mar Negro
Os governos de Rússia e Ucrânia concordaram, na terça-feira, em iniciar um cessar-fogo nos conflitos no Mar Negro. As negociações, mediadas pelos Estados Unidos, ocorreram separadamente com cada uma das partes, mas focaram em uma única área: o Mar Negro.
A coluna questiona a razão de a guerra ser suspensa momentaneamente apenas nessa região do conflito.
O Mar Negro tem grande importância histórica, pois banha a Crimeia - república autônoma da Ucrânia anexada pela Rússia em 2014 - e foi palco dos primeiros ataques russos no sul do país europeu no início do conflito, em fevereiro de 2022.
Questão estratégica
No entanto, o principal motivo para a trégua localizada é a questão estratégica e econômica da região para ambos os países: a navegabilidade mercante.
- Se olharmos no mapa, o Mar Negro dá acesso ao resto do continente europeu. É uma rota crucial também para a Ásia Central e o Oriente Médio, além de ser essencial para o escoamento da produção ucraniana de insumos e fertilizantes. Já a Rússia tem interesse em exportar gás natural, petróleo e outras commodities - explica Roberto Uebel, professor de Relações Internacionais da ESPM-SP. _
Para ilustrar a importância do Mar Negro, Roberto Uebel faz uma analogia com a Lagoa Mirim, no sul do Estado, na fronteira com o Uruguai: "É basicamente a mesma dinâmica: navegação, escoamento de produção e controle do que entra e sai nos territórios".
Possíveis novos acordos
O professor Roberto Uebel também acredita que esse acordo pode abrir precedentes para tréguas mais amplas no futuro.
- Na semana passada, quando os dois lados estavam dispostos a negociar um cessar-fogo, falei que um cessar- fogo poderia abrir precedentes para outras declarações, e foi o que ocorreu. Imagino que possamos ter, a médio prazo, novos acordos para outros temas. E, quem sabe, até mesmo a construção de uma agenda para a pacificação - salientou. _
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