
EM FOCO
Políticas públicas afirmativas desenvolvidas nos últimos 20 anos ampliaram a diversidade entre estudantes de universidades federais. Porém, dificuldades financeiras e falta de pertencimento afastam muitos beneficiados da sala de aula
Um caminho tortuoso para conquistar o diploma - Isabella Sander
A cara das universidades federais mudou nos últimos 20 anos. Com a criação de políticas públicas que ampliaram a presença de pessoas de baixa renda, de pretos, pardos e indígenas e de moradores de outros Estados e países, as instituições ganharam diversidade, mas, com ela, também novos desafios. Estudantes relatam dificuldades financeiras, como pagar moradia e transporte, e emocionais, como saudade de casa e falta de pertencimento àquele espaço.
No início de 2024, Gabriel Cledson da Silva estava empolgado: depois de seis anos estudando, havia conseguido uma vaga em Medicina, e na prestigiada Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Potiguar, o jovem não titubeou e fez uma vaquinha para custear as viagens que precisaria fazer entre a capital do Rio Grande do Norte, Natal, e a do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. Os empecilhos ao aterrissar em solo gaúcho, porém, foram maiores do que imaginava. Após um semestre, acabou voltando para casa.
O que me fez desistir não foi a faculdade, que é maravilhosa e me recebeu muito bem, mas é muito diferente morar em Porto Alegre, chegar em casa depois de um dia intenso de aulas e não ter o apoio familiar. Eu e muitos colegas tínhamos que chegar, fazer comida, lavar roupa - reconhece o jovem de 28 anos.
Exigências
Além do choque de realidade de ter de lidar com contas e atividades domésticas, a exigência do curso de Medicina dificultou a adaptação de Gabriel. Ele conta que havia dias em que tinha aula das 7h30min às 18h30min e, à noite, ainda precisava estudar em casa, para acompanhar o ritmo cobrado por alguns professores.
No último mês em Porto Alegre, ele conseguiu vaga na Casa do Estudante da UFRGS, o que facilitou muito a vida dele, que pagava o aluguel de um apartamento com outras três pessoas e ainda precisava pagar pelas refeições nos finais de semana. Mesmo assim, a saudade de casa e a falta de perspectiva de ter dinheiro para visitar a família com frequência o desestimularam.
Decisão difícil
Quando voltou para Natal em janeiro, de férias, Gabriel descobriu que uma faculdade privada havia disponibilizado matrículas em Medicina por meio do Programa Universidade para Todos (Prouni). Resolveu tentar, meio de supetão, e passou. Assim, abandonou o curso na UFRGS e voltou para o Rio Grande do Norte.
- Foi muito difícil de tomar essa decisão, mas não estava conseguindo viver aquele momento: sentia que estava na UFRGS de corpo, mas de alma e espírito, não. Isso se refletia nas minhas notas, que não eram tão boas quanto gostaria. Aqui em Natal, voltei a sentir vontade de estudar em casa - comenta Gabriel.
Apesar de ter feito as pazes com a sua decisão, o potiguar sente que não foi por acaso que passou na UFRGS, e pretende voltar para Porto Alegre depois de formado, para fazer residência no Hospital de Clínicas. _
Desafios para a única indígena da turma
A existência de uma Casa do Estudante Indígena que recebesse a ela e a seu filho foi o que viabilizou o ingresso da caingangue Luciane Inácio, 29 anos, no curso de Educação Especial da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). A jovem foi aprovada em 2023 em processo seletivo para indígenas e quilombolas, depois de abandonar outra graduação que fez, em 2017, quando sua filha faleceu.
- Eu sou natural da terra indígena do Guarita, da cidade de Redentora. Vendo a necessidade que as crianças especiais da minha aldeia têm de um profissional formado nessa área, resolvi voltar a estudar - conta Luciane, que está no quinto semestre.
Dos 45 alunos de sua turma, é a única indígena. Ela já sentiu olhares, ouviu piadinhas e percebe que, até hoje, algumas pessoas evitam se aproximar. Mesmo assim, conseguiu fazer algumas amizades. A presença do filho, Lucas, em todas as aulas também é bem recebida. Crianças filhas de alunos são aceitas em todas as Casas do Estudante da UFSM. Luciane recebe um auxílio parental que usa para pagar o transporte de Lucas até a escola.
- Como mãe, acho que a gente deveria ter acesso a um auxílio até o aluno sair, pelo menos, do Ensino Fundamental. E, em questão de saúde mental, a gente passa por muitas coisas por aqui. Só não desisti porque tive acesso à CAEd (Coordenadoria de Ações Educacionais), que tem auxílio psicológico, e isso me ajuda a me acalmar - analisa.
Grávida novamente, o sonho de Luciane é dar uma vida melhor para todos os pequenos da terra indígena do Guarita. _
Rotina intensa
A estudante de Publicidade e Propaganda da UFRGS Mayra Ávila, 20 anos, trabalhava desde os 15, entre estágio e atividades autônomas, e precisou ajustar a vida para comportar as aulas em turno integral. A rotina é corrida - tem dias em que sai às 6h de Viamão, onde mora, e chega em casa às 23h. Aos finais de semana, faz freelances para bancar suas despesas.
- Minha maior preocupação sempre foi como eu iria me manter aqui dentro (da universidade) sem ter dinheiro, porque mais da metade do valor da bolsa, que eu agora consegui eu gasto com passagem. Com mais os tíquetes do RU, sobram R$ 200 para mim - diz a jovem, que está no segundo semestre.
Uma melhor organização dos horários das disciplinas, segundo Mayra, ajudaria os estudantes que trabalham a não atrasar cadeiras. Um auxílio-transporte mais alto também daria uma folga. _
Formatura atrasada
O estudante de Letras Wellington Porto, 26 anos, está desde 2018 na UFRGS. As aulas em turno integral do curso que frequenta versus a necessidade de, ao menos, atuar em bolsas de iniciação científica, para dar conta das despesas, lhe obrigaram a atrasar a formatura. O valor da bolsa é de R$ 700. Mais os auxílios passagem (R$ 240) e internet (R$ 100), ele soma em torno R$ 1 mil.
Wellington também é coordenador-geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE), que vem cobrando a instituição de que realize uma reforma curricular que adeque a universidade ao novo perfil de alunos surgido após as políticas afirmativas:
- Não dá mais para a UFRGS dizer que temos que nos adequar à universidade. A política de cotas apresentou uma outra perspectiva à qual a UFRGS tem que se adaptar.
A gestão atual do DCE defende que o orçamento da UFRGS seja discutido também com os estudantes, a fim de definir quais são as prioridades a serem atendidas. _
O que está sendo feito
No ano passado, uma lei instituiu a Política Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes), que prevê recursos federais para garantir a assistência em diferentes áreas: moradia, alimentação, transporte, atenção à saúde, inclusão digital, esporte, atendimento pré-escolar a dependentes, apoio pedagógico e atendimento especializado a estudantes com necessidades especiais.
UFRGS
Entre os benefícios para alunos com renda familiar de até um salário-mínimo, estão o auxílio para pagar a internet, acesso gratuito ao RU, subsídio que permite um custo por refeição nesses restaurantes de R$ 1,30, auxílio-transporte, auxílio-material didático, auxílio-parental para responsáveis legais por crianças de até cinco anos e 11 meses, o atendimento a alunos com necessidades especiais e um programa de saúde que oferece atendimento odontológico, atividades esportivas e apoio à saúde mental.
Há quatro residências estudantis para 300 alunos. Outros 100 estudantes recebem auxílio financeiro para pagar o aluguel.
Há serviço de acolhimento psicológico e ajuda financeira de R$ 250 para 214 estudantes fazerem terapia.
O valor investido em assistência estudantil ficou em R$ 38 milhões em 2024 - somando verba do Pnaes e da própria UFRGS.
Pietra Méndez, pró-reitora de Assuntos Estudantis da UFRGS, afirma que é preciso ampliar o orçamento federal para assistência estudantil. E a própria universidade precisa repensar suas políticas e currículos, diz ela.
UFPel
Na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), para estudantes de baixa renda também há acesso gratuito ao restaurante universitário (RU) e benefícios como auxílio-transporte, auxílio-deslocamento aos alunos que residem em cidade próximas, auxílio para alunos com filhos em idade pré-escolar, auxílio inclusão digital e auxílio moradia.
Uma iniciativa pioneira foi o Vou Mas Eu Volto, auxílio para alunos que vieram de outros Estados visitarem suas famílias. - O esforço desse auxílio foi completamente relacionado à questão da permanência, para entender que os estudantes que passam, às vezes, três anos sem ver suas famílias - relata Angélica Leitzke, coordenadora de Permanência da UFPel.
Dentro da Coordenação de Permanência, vinculada à Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Prae) da UFPel, foi criada uma equipe multidisciplinar, para pensar em formas de reter os alunos.
UFSM
Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Gisele Guimarães, pró-reitora de Assuntos Estudantis, destaca o compromisso da universidade com a permanência estudantil diante da crescente diversidade e vulnerabilidade socioeconômica de seu corpo discente.
Entre as iniciativas está o RU subsidiado e a moradia estudantil - a maior da América Latina, com 2,2 mil vagas. A instituição foi pioneira em moradia indígena e aceita crianças nas residências.
Há auxílios financeiros para transporte, formação e para pais de crianças, além de bolsas de apoio.
Na área de saúde mental, há serviços psicossociais e o Comitê de Saúde Mental (Cosame).
O Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi) e a Casa Verônica oferecem acolhimentos para grupos específicos. Segundo a pró-reitora, a universidade busca fomentar a cultura de acolhimento e pertencimento.
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