segunda-feira, 10 de março de 2025


10 de Março de 2025
OPINIÃO RBS

Feira da mobilização

O volume crescente de negócios, com recordes sucessivos de comercialização de máquinas e equipamentos, se tornou uma espécie de marca das principais feiras do agronegócio no país nos últimos anos, como da própria Expodireto Cotrijal, cuja 25ª edição se inicia hoje em Não-Me-Toque, no norte do Estado. Os números finais de vendas concluídas ou encaminhadas acabaram por ser percebidos como um termômetro do sucesso dos eventos do gênero. É o reflexo da constante incorporação de tecnologia pelos produtores, o que ajudou a agricultura a se firmar como atividade econômica mais competitiva do Brasil.

Mas a importância e o êxito de uma feira não devem ser medidos apenas pelas cifras movimentadas. Há instantes em que a mobilização em torno de temas que galvanizam a atenção dos produtores rurais se revestem de maior relevância diante de uma conjuntura desafiadora. É o que ocorre neste momento, frente a uma sequência trágica de reveses climáticos.

Das últimas seis safras de verão no Rio Grande do Sul, incluindo a atual, quatro foram marcadas por estiagens fortes. No ano passado, foi a enchente que espalhou prejuízos. As sucessivas frustrações nas lavouras, com compromissos que não puderam ser honrados e foram renegociados pela falta de renda, se somaram a outros fatores como o recuo do preço da soja para formar um quadro dramático de altíssimo endividamento. O acúmulo de débitos, pela proporção que atingiu, não será solucionado com mais uma repactuação usual.

Feiras de agronegócio, além do aspecto comercial e da exposição das mais modernas tecnologias, costumam contar com uma série de eventos paralelos - palestras, debates e fóruns - em que são discutidos cenários macroeconômicos, particularidades de culturas, tendências de mercado, questões legislativas e inquietações do setor. São eventos, afinal, que além de produtores reúnem especialistas nos mais variados temas ligados ao campo, lideranças de entidades, parlamentares e representantes dos diferentes níveis do Poder Executivo. É a oportunidade para o campo apresentar reivindicações às autoridades e debater saídas.

Uma das principais pautas a permear os cinco dias da 25ª Expodireto será, sem dúvida, a da securitização das dívidas dos produtores rurais. Para a sexta-feira, no último dia da feira, está programada uma audiência pública do Senado para tratar do tema. Em linhas gerais, a intenção é alongar as dívidas das últimas safras e criar condições adequadas para que as pendências possam ser pagas e os produtores consigam permanecer na atividade, produzindo alimentos e garantido ao Brasil superávits robustos da balança comercial.

A proposta é semelhante à adotada em meados da década de 1990, em outra crise histórica do setor. Dois projetos de lei com este objetivo tramitam no Congresso - um no Senado e outro na Câmara dos Deputados. O alerta é de que uma crise econômica e social de consideráveis proporções está à espreita no meio rural, sem distinguir pequenos e grandes produtores. Uma solução deve ser viabilizada e os encontros na Expodireto, por certo, servirão para o melhor caminho ser encontrado. Assim, nas próximas edições será possível voltar a celebrar a retomada da confiança do setor. 

Nenhum comentário: