quarta-feira, 19 de novembro de 2008



19 de novembro de 2008
N° 15794 - DAVID COIMBRA


O sangue dos fuzilados

Cá entre nós já circulam os mexicanos. Erico Veríssimo escreveu um belo livro de viagem sobre o México. Recomendo. A folhas tantas, ele ingressa no Estado de Chihuahua, a bordo de um trem.

Erico tenta ler uma novela de Simenon durante o trajeto. Não consegue. A paisagem desértica e paupérrima puxa-lhe o olhar janela afora. Erico está impressionado com o que vê:

“Passamos agora por um velho muro onde escurejam manchas. Sangue dos fuzilados de antigas revoluções – penso. De vez em quando o vento ergue uma onda de poeira e eu como que sinto nos lábios e nos dentes a aspereza daquela areia. (...)

Algo começa a inquietar-me. Não vi ainda nesta paisagem nenhum rio, lagoa, cascata ou mesmo córrego. Duas coisas parecem estar ausentes deste mundo inóspito: água e sorrisos.

Faço esta observação a um homem taciturno com quem puxo conversa na plataforma do carro, numa das paradas, e ele me arrasa com estas palavras: ‘O senhor acredita que esses pobres índios têm algum motivo para sorrir?’”

Uau! “México”, intitula-se o livro de Erico. Nos melhores sebos da praça. Procure o Guilherme, ali na Beco dos Livros, ele haverá de encontrar algum exemplar seminovo.

Emiliano Zapata, como os índios de Erico, não sorria. Tenho alguns livros sobre Zapata em casa. É dos meus personagens preferidos da História da Humanidade. Um dos livros, publicado pelo Fondo de Cultura Econômica do México, é a sua iconografia. Ou seja: fotos e ilustrações de Zapata.

Em nenhuma ele aparece sorrindo. Vê-se sempre um homem de expressão grave, invariavelmente postado debaixo do enorme sombrero, atrás de frondosos bigodes estilo Rivellino, o peito cruzado pela cartucheira cheia, mirando a lente com olhos tão tristes quanto bondosos.

Olhos de sampaku – aqueles olhos em que o branco da esclerótica aparece sob as pupilas. Os japoneses acreditam que quem tem olhos de sampaku sofrerá morte violenta. De fato, Zapata morreu assassinado numa emboscada em 1919, em meio à consolidação da revolução mexicana.

Aliás, essa foi talvez a única revolução realmente popular da História. Não contou com lideranças intelectuais, como os Lenins e Trotskis da Revolução Russa ou os Marats e Dantons da Francesa. Foi promovida, toda ela, pelos camponeses mexicanos. Zapata marchava do Sul com os camponeses em andrajos gritando:

– Tierra! Tierra!

Pancho Villa vinha do Norte. Encontraram-se na Cidade do México e tomaram o poder. As fotos desse encontro são magníficas.

O grupo de revolucionários no palácio do governo, Villa sentado na cadeira presidencial, sorrindo, Zapata ao seu lado, fitando o observador com gravidade, o sombrero descansando no joelho. Um contraste, os dois líderes. Villa, um pândego; Zapata, um circunspecto. Na verdade, um fatalista. Afirmava:

– Para que triunfe nuestra revolución será necesario que yo perezca antes.

Ao perecer, tornou-se lenda. Ainda hoje há um verso popular mexicano que diz:

“Abril de mil novecientos
Diecinueve, en la memoria
Quedarás del campesino
Como una mancha en la historia
Campanas de Villa Ayala,
Por qué tocan tan dolientes?
– Es que ya murió Zapata
Y era Zapata um valiente”.

Emiliano Zapata, cara! Zapata derrubou o ditador Porfírio Diaz, um canalha, mas bom frasista. Cunhou uma das sentenças mais inteligentes sobre seu país:

– Pobre México. Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos.

Os mexicanos têm espírito. E, ao contrário de Erico, só tenho visto mexicanos sorridentes. Num jogo contra o Brasil, na Copa América de 97, a pequena torcida que eles levaram para a Bolívia enfeitiçou o estádio.

Os mariachis cantavam e tocavam seus instrumentos, brincavam com os brasileiros e incentivavam seus jogadores sempre com bom humor. Quando o goleiro deles fazia uma defesa, ecoava o coro da arquibancada:

– Portero! Portero! Portero! Imagine o Victor fazendo uma grande defesa e a torcida do Grêmio:

– Goleiro! Goleiro! Goleiro!

Mas o que me encantou mesmo acerca dos mexicanos é o hábito que as emissoras de TV de lá têm de enviar belas repórteres para coberturas esportivas. Lembram da loira Inés Sainz, que cobriu a Copa da Alemanha? Essa Inés é uma celebridade no México. Tipo a Xuxa. Não a Xuxa de agora, a Xuxa em horário nobre.

Inés era o comentário da cobertura. Jogadores, jornalistas e torcedores só falavam nela.

Que Ronaldos, que nada: Inés! Vi alemães prostrados à passagem da mexicana pelas ruas. Imagino o que Erico Verissimo escreveria sobre ela. Estará por aí, cobrindo o Chivas, a espera do enfrentamento com o Inter? Se estiver, vai se decepcionar.

Concordo com o Guerrinha, meu colega de Bate Bola, na TVCOM: nem o espírito de Zapata, nem a presença radiante de Inés Sainz, nem tudo que há de imponderável no futebol tira a classificação do Inter nesta noite porto-alegrense.

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