
14 de agosto de 2008
N° 15695 - DAVID COIMBRA
Mao e o Cubo d’Água
O gabinete de despachos de Mao Tsé-tung ficava num salão onde havia uma grande piscina. Ele adorava nadar, nadava todos os dias. Com freqüência, atendia autoridades e ministros vestindo apenas o calção de banho por baixo do roupão. Foi assim que recebeu ninguém menos do que Nikita Krushev, então líder da União Soviética.Mao detestava-o porque, em 1956, Krushev denunciou as atrocidades cometidas por Stalin na URSS. A lógica do presidente chinês era coerente: criticando-se um ditador, critica-se todos. Como tinha sido informado de que Krushev não sabia nadar, o Grande Timoneiro preparou uma vingança sutil, bem ao estilo oriental. Instou-o a entrar na piscina para que pudessem conversar.
Para não se afogar, Krushev teve de enfiar-se numa bóia de criança. Ridículo, mas foi desta forma que o encontro prosseguiu, com os mandatários de calção, dentro d’água. Mao, todo cortesia, divertia-se em silêncio.
Imagino que, se Mao ainda vivesse, faria questão de dar umas braçadas no Cubo d’Água. É o mais belo de todos os locais de competição desta Olimpíada, mais até do que o seu vizinho Ninho de Pássaro. Transformou-se em ponto turístico de Pequim. Os chineses vão ao Cubo com a família, tiram fotos, filmam, admiram-se.
O investimento feito no ginásio compensa. Lá dentro reluz o maior atleta dos jogos, Michael Phelps. Não existem provas mais concorridas do que as de natação. Os tíquetes de entrada são disputados pelos jornalistas como se fossem furos de reportagem e, em volta do Cubo, circulam chineses e estrangeiros com cartazes escritos em inglês e mandarim implorando para comprar ingressos.
O apreço de Mao pela natação tornou-se conhecido pelo mundo inteiro quando, em 1966, aos 73 anos de idade, ele espantou o Ocidente nadando durante duas horas no grande Rio Yangtzé. Ninguém acreditou nas fotos que foram distribuídas para as agências de notícias internacionais mostrando Mao a flutuar calmamente no rio. Mas era verdade. Mao nadava de costas. Mais boiava do que nadava, de fato. No caso do nado no Yangtzé, ele apenas deixou que a correnteza o levasse, sem fazer esforço.
Certa feita, depois de descer no Aeroporto Nuvem Branca, no Cantão, Mao foi informado de que os dirigentes locais haviam ordenado a construção de uma piscina só para agradá-lo.
Ficou todo contente e ansioso para cair n’água. Só que, como os líderes cantoneses não sabiam lhufas de natação, fizeram uma piscina com o comprimento de duas banheiras, com água pelos joelhos. Mao ficou furioso. Depois do incidente, por coincidência, os dirigentes cantoneses tiveram um futuro não muito próspero dentro do PCC.
Os voluntários e o jeitinho
Os voluntários dos Jogos Olímpicos de Pequim bem mereciam ganhar medalha de ouro. Em primeiro lugar, pela ubiqüidade. Eles estão em toda parte. Pudera: foram selecionados nada menos do que cem mil voluntários.
Só na cerimônia de abertura havia 19 mil deles deslizando sem pressa pelo Ninho de Pássaro, que chinês parece não ter pressa. Dezenove mil para um público de 91 mil pessoas.
Há voluntários parados nas esquinas, indicando com suas mãos calçadas com luvas brancas a direção que se deve seguir. Os chineses poderiam colocar uma placa ali; preferiram um voluntário. Os voluntários andam sempre em grupos, como os ursos panda, cada um com uma pequena função.
Um só aponta para a porta de saída, outro só aponta para a porta de entrada, um terceiro só aponta para os voluntários que só apontam para as portas.
No Pan do Rio, ano passado, também encontrava-se voluntários à mancheia, mas eles eram diferentes dos daqui. No Rio, a maioria dos voluntários não sabia dar informação e, quando sabia, dava a informação errada. Também testemunhei pelo menos uma dúzia de altercações entre jornalistas e voluntários.
Com os voluntários chineses isso não acontece, de jeito nenhum. Os voluntários chineses são bem treinados, sempre sabem o que fazer. São sorridentes, silenciosos, prestativos e muito, muitíssimo pacientes. Se você pergunta algo e o voluntário não sabe a resposta, é certo que explodirá uma pequena comoção entre eles.
Os voluntários todos se reúnem e discutem em mandarim, e um deles sempre toma do celular e sai falando, enquanto outro consulta os manuais, e um terceiro fala no walkie-talkie, até que chegam a alguma conclusão.
Outra: achei que, como os japoneses, os chineses eram avessos ao improviso. Nem tanto. Por três vezes aconteceu comigo de o ônibus que eu esperava estar atrasado. Reclamei e os voluntários se juntaram, debateram brevemente o caso e designaram outro ônibus para fazer a linha que eu pretendia tomar. Quer dizer: existe jeitinho chinês. Ponto para os chineses.
Cruzada oriental
Isso dos voluntários me faz pensar que na China há de ocorrer algo semelhante ao que ocorreu no Ocidente na época das Cruzadas. Porque os voluntários são, na imensa maioria, estudantes curiosos de conhecer estrangeiros e aprender com eles.
São os jovens. Em alguns anos, esses chineses receptivos à influência ocidental estarão no comando do país. Ou reivindicando postos de comando no país. E a China, que já mudou tanto por fora, fisicamente, mudará também por dentro, no fundo da alma.
Ensinamentos de Confúcio:
“Estude como se jamais fosse aprender, como se tivesse medo de perder o que deseja aprender”
“Não suspeite de fraude e tapeação e, ao mesmo tempo, nunca deixe de estar atento contra elas”
“Algumas pessoas podem ser persuadidas a fazer coisas que não são capazes de compreender”
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