sábado, 18 de julho de 2020



18 DE JULHO DE 2020
FLÁVIO TAVARES

NÓS, OS MACACOS...

A grande habilidade dos macacos é imitar o que veem. No horror do contágio da covid-19, estamos aprendendo a ser decadentes símios ao imitar o desnecessário e piorá-lo até.

O presidente do Brasil imita o presidente dos EUA, trata a peste com desdém e as mortes crescem. E, se não bastasse a pandemia em si, para tratar dela, abandonamos o idioma português e adotamos o inglês.

Colonizar a linguagem é sinal de servilismo, num exibicionismo que nos faz meros macaquinhos incapazes de criar, apenas repetindo o que ouvimos.

Em vez de "bloqueio total" ou "fecha tudo", dizemos "lockdown", como se a língua nacional não soubesse se expressar por si própria. Ou "drive-thru" para as provas médicas feitas "na direção do carro". Já antes, em vez de "telentrega", alguns diziam "delivery". Agora, não há "trabalho no lar" ou "em casa", mas "home office", como se esse tal de "ofício de homem" fosse coisa de macaco imitando humano.

Será que substituir o português pelo inglês nos salva da pandemia?

Os meios de comunicação, em especial a TV e o rádio, são responsáveis diretos por essa progressiva dissolução do idioma. Esquecem que o poeta Fernando Pessoa (mesmo alfabetizado em inglês na África do Sul) dizia com orgulho: "Minha pátria é a língua portuguesa".

Nós, porém, desprezamos a língua materna e nos tornamos servos de um colonialismo tão opressivo quanto no tempo do Brasil Colônia, pois espolia e rouba nossas raízes culturais. E nos faz simples bonecos de ventríloquo, sem raciocínio ou iniciativa, repetindo sons sem saber o significado.

Por que preocupar-se com isso, porém, se há males piores?

A covid-19 coroa o horror, mas outros absurdos evitáveis ampliam o desastre. Na Amazônia, o governo federal vai dar "títulos de propriedade" a grileiros que invadiram uma área equivalente à soma dos Estados do Rio de Janeiro e de Sergipe e nela devastaram florestas.

Os ex-ministros da Fazenda e presidentes do Banco Central a partir do governo Sarney alertaram o presidente da República sobre a urgência de implantar "desmatamento zero" na Amazônia, e, assim, evitar um boicote mundial ao nosso comércio. Duas dezenas de grandes investidores internacionais advertiram o presidente Bolsonaro de que abandonariam o país devido ao descaso na preservação do meio ambiente.

As mudanças climáticas nos ameaçam mais do que a covid-19, mas fingimos não saber. E passamos a infestar o que nos rodeia, como, aqui, na pretendida mina de carvão a céu aberto, à beira do Rio Jacuí, a 12 quilômetros de Porto Alegre, que poluirá o ar e fará do Guaíba um lago podre, deixando a Capital sem água. E daí??

Bonecos ou macacos, nos diferenciamos deles, porém, por ver o crime.

FLÁVIO TAVARES

Nenhum comentário: