sábado, 9 de agosto de 2014


10 de agosto de 2014 | N° 17886
MARTHA MEDEIROS

Filhos do pai

Dia desses, eu ouvi que sou um homem moderno porque cuido dos meus filhos. E minha ex disse que é uma mulher moderna e, por isso, não pode gastar seu tempo cuidando das crianças, ela tem sonhos a alcançar. É tão estranho. Uns são modernos porque fazem e outros porque deixam de fazer a mesma coisa. Como explicar isso para os meninos?”

É um dos depoimentos que compõem o livro Filhos do Pai, de Valeria Santoro e Ana Paula Junqueira. Eu poderia ter selecionado qualquer outro, mas esse me pareceu bem representativo do que anda acontecendo: um contrafluxo. Mulheres saindo para caçar seu sustento e homens retornando para o interior das cavernas. Uma troca salutar de papéis, desde que a inversão não se polarize, agora de forma oposta. Perfeito seria que homens e mulheres negociassem a distribuição do seu tempo a fim de não prejudicar a criação dos filhos, ainda mais durante a primeira infância. Como tudo na vida, o parâmetro é o bom senso.

O livro da Valéria e da Ana Paula mostra uma revolução visível, ainda que silenciosa: os homens estão cobrindo nossas ausências. Cozinham mais, se envolvem mais com os afazeres domésticos, começam a expor mais seus sentimentos e, para o bom equilíbrio emocional da família, abandonaram a posição de pais distantes e agora tomam conta da gurizada com o afeto e o cuidado que antes era exclusividade feminina da casa. Ganham todos, de todos os lados.

Os depoimentos mostrados em Filhos do Pai privilegiam histórias de abandono de lar por parte da mãe, viuvez e outras situações em que não resta alternativa a não ser o homem assumir integralmente o cuidado com o filho. No entanto, essa súbita mudança que parece aterrorizante no início se transforma numa experiência de entrega e amor que ele próprio não se julgava capaz. É nessa condição que o livro se torna emocionante: homens amplificam o significado de suas vidas quando deixam de amar à distância para mergulhar num convívio de absoluto envolvimento e responsabilidade (que, não custa lembrar, também aterroriza mães de primeira viagem, porém a elas nunca coube escolha).

A boa notícia é que as mulheres não estão precisando sumir do mapa ou morrer para que os homens assumam o compromisso de criar seus filhos: a sociedade atual vem introduzindo naturalmente a divisão proporcional de papéis. E a notícia melhor ainda: os homens estão gostando.

Sempre se valorizou mais o Dia das Mães do que o Dia dos Pais, não pela intensidade do amor de um e de outro, mas pela intensidade do comprometimento. Pois que a data de hoje passe a ser tão celebrada quanto a de maio, e que os filhos dos novos pais mantenham essa mesma dedicação quando chegar a vez deles.

Que essa modernidade dure séculos - ou ao menos até a próxima revolução de costumes.


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