
15 de agosto de 2008
N° 15696 - JOSÉ PEDRO GOULART
Made in China
Tenho para mim que longe de significar uma conquista dos terráqueos, a festa de abertura dos Jogos Olímpicos foi um espetáculo anti-humano, uma ode à banalização do indivíduo, tornado o que não é (ou o que não deveria ser), isto é, parte de uma engrenagem, uma porca ou parafuso de uma máquina gigantesca onde cada cabeça é só um ponto a ser aditado ao todo: um pixel de uma tela em movimento.
Sete anos de ensaio, disseram. Imagino as enormes listas de recrutamento: precisamos de corpos, corpos. Corpos robotizados, desmiolados. Cuidado com o cabelo: não cortem demais, não aparem de menos. Não engordem, não emagreçam. Apenas se ponham em ordem. Cada coluna de gente com seu líder. Cada líder com um apito.
E, é claro, há os que voam por cima das milhares de cabeças genéricas. Tem o sujeito que criou o cenário; outro, a coreografia. Sim, aqui ou ali, alguém tem nome. O sujeito ordinário precisa do sujeito extraordinário (e vice e versa).
De modo que a massa humana está ali interpretando o papel escrito para ela desde sempre: o de massa humana. E sobre ela, os solistas. Aqueles que vão voar, cantar, brilhar. Os que recusam o plano geral e exigem um close da televisão.
Sete anos (ou 3 mil) do massacre da repetição sem fim, do gesto continuado, da desesperada busca de simetria que precisava diminuir o “ser”, anular, repetir e repetir até obter o “não ser”. Nunca haverá algo assim – só a China com o tamanho que tem ainda põe fé no trabalho escravo.
Não há no planeta nada parecido. Milhões de seres produzindo canetas, jeans, sapatos e bugigangas, sem direitos, chance ou liberdade. Diante disso, repetir os gestos num estádio a exaustão não é mistério. Ao contrário, deve ter sido uma honra.
Mesmo assim, apesar do massacre da submissão coletiva, a produção inequívoca do belo. Sim, havia beleza naquela união de almas, na sua ode moderna, (ou primitiva, sei lá). Isso porque sabemos do belo, sabemos da cor, da luz, do fogo, da música.
Sabemos do espetáculo da vida e do efeito que isso nos causa. O que não sabemos é tornar essa riqueza de conhecimento e técnica em algo viável, desejável e possível, para todos os indivíduos.
Mas o maior paradoxo está na própria razão dos Jogos, onde atletas se esfalfam em busca da vitória, de um recorde. Os atletas buscam algo que os destaquem, que os tirem da massa. Qualquer coisa, menos essa espécie de clonagem made in China que cada vez mais multiplica corpos e elimina corações.
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