terça-feira, 12 de agosto de 2008



12 de agosto de 2008
N° 15692 - MOACYR SCLIAR


A Olimpíada em debate

O jornal Folha de S. Paulo publica aos sábados a seção Tendências/Debates. Dois articulistas são convidados para expor posições opostas, respondendo a uma pergunta formulada pelos editores.

No último sábado a pergunta era: “Você vai assistir à Olimpíada de Pequim?”. Respondia “não” Rubem Alves, psicanalista, escritor, professor emérito da Unicamp, colunista da Folha, e prestigiado autor de vários livros, entre eles Por uma Educação Romântica. O “sim” ficou por conta deste que vos fala.

Os argumentos de Rubem Alves foram respeitáveis mas, lendo-os, não fiquei convencido. Ele cita um colega da Unicamp, para quem o atletismo “faz mal à saúde”, encurtando a expectativa de vida.

O exemplo seria a corredora Florence G. Joyner, que morreu de infarto. E isto me lembra aquele velho axioma segundo o qual “por exemplo” não é argumento; médico de saúde pública, eu precisaria ver um estudo epidemiológico calçado em números para me convencer. Continua Rubem Alves: “Os animais não competem. Não têm interesse em saber qual o melhor”.

Não competem em Olimpíada, bem entendido. Porque competição por alimento, por fêmeas, por território, é a regra entre animais e é a base da “sobrevivência do mais apto” darwiniano, que o ser humano, através da cultura (e o esporte é parte da cultura) conseguiu transformar.

É um sinal de progresso do ser humano que ele tenha, ao menos em parte, trocado guerras por uma competição esportiva e civilizada como é a Olimpíada. Porém, diz Rubem Alves, “nenhum atleta executa sua atividade pelo prazer de executá-la”.

Acho que o Rubem nunca jogou basquete e nunca sentiu o prazer, a imensa alegria, que é fazer uma cesta, mesmo que seja uma cesta por ano (a cesta de Natal) como era meu caso, até que uma hérnia de disco, aquele castigo dos intelectuais, me tirou das quadras – para desgosto do nosso time olímpico, que esperava ansiosamente minha participação.

A competição, diz Rubem Alves, é o oposto do brinquedo. De novo, não concordo. Acho que a competição é apenas uma forma diferente de brincar. Envolve estresse, sem dúvida, mas será que as brincadeiras de criança também não envolvem algum grau de estresse, como no esconde-esconde?

E quem disse que estresse é sempre ruim? Há um estresse benéfico, aquele que resulta do desafio. É benéfico porque é vital, porque vida envolve desafio.

A vida é uma Olimpíada que começa na infância, com os jogos entre as crianças, continua com várias corridas de obstáculos, terminar o colégio, passar no vestibular, concluir uma faculdade, fazer uma pós-graduação; ou, o que ainda é a regra para a maioria, simplesmente conseguir um emprego, um meio de sobrevivência, casar, constituir famílias, ter filhos, lutar por ideais.

Há duas maneiras de fazer isso: com sofrimento e amargura, ou com a alegria que vimos no espetáculo de abertura da Olimpíada. É só escolher.

Por fim: enquanto Rússia e Geórgia se enfrentavam na Ossétia do Sul, num sangrento conflito, a russa Natalia Paderina e a georgiana Nina Salukvadze, vencedoras do torneio olímpico de tiro (de tiro!), deixaram de lado as diferenças e se abraçaram no pódio.

Cena simbólica, definitiva, uma celebração do espírito olímpico. Junto com a vitória de Ketleyn mostra que, definitivamente, a Olimpíada vale a pena.

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