quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008


CARLOS HEITOR CONY

A carne assassina

RIO DE JANEIRO - Não, não me refiro àquele inimigo da alma: a Carne, que, junto com o Diabo e o Mundo, renunciamos no momento em que somos batizados.

O padre pergunta ao recém-nascido se ele renuncia ao Diabo, ao Mundo e à Carne. Como o batizando ainda não fala, fala o padrinho, que renuncia ao Diabo, ao Mundo e à Carne em nome da criança. O padrinho funciona como uma espécie de laranja.

A carne a que me refiro é a carne mesmo, de boi, porco, cabrito, cordeiro ou de qualquer outro animal que tenha carne vermelha, como a nossa. Descobriram que a carne faz mal, é uma carne assassina.

Tal como o fumo, que tira 15 minutos de vida a cada cigarro que se fuma. Dentro desse cálculo, eu já deveria ter morrido há uns 40 anos, nem sei como continuo vivo. Mais para lá do que para cá, mas vivo.

Quando ministro da Saúde, o Zé Serra impôs aquelas figurinhas nos maços de cigarro para desestimular os fumantes. Homens cadavéricos morrendo em CTIs, em cadeiras de roda após enfartes violentos e até mesmo impotentes sexuais.

Valeu tudo, todas as mazelas físicas e espirituais para mostrar os malefícios do fumo.

Mais dia, menos dia, com a carne vermelha acontecerá o mesmo. Ela não será proibida, porque haverá lobby de produtores, frigoríficos, açougues, churrascarias, restaurantes etc.

Mas, a cada bife que recebermos em nossa mesa, virá alguma forma de advertência, uma imagem espetada em cima da carne, estampando um caixão de defunto, um cemitério, uma caveira com os ossos cruzados, como na bandeira dos piratas.

Confesso que ficarei deveras impressionado. (Nunca usei o "deveras", mas usado está.) Nem por isso deixarei de apreciar um bife suntuoso, uma picanha na brasa. Sem prazer, a vida não vale a pena, mesmo que a alma não seja pequena.

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