quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011



23 de fevereiro de 2011 | N° 16620
JOSÉ PEDRO GOULART


As pedras do caminho

Há milhões de anos a Terra foi bombardeada por meteoritos. Os impactos estilhaçaram a planície rochosa, monolítica – criada a partir de uma espessa lava vulcânica. Os pedaços formaram novas cadeias de acomodação. Alguns desses pedaços continuaram imensos, outros, relativamente pequenos. Depende se você é um dinossauro, um ser humano ou uma formiga.

As pedras estabeleceram formas comuns. Às vezes, o desenho ficou excêntrico, verdadeiras esculturas, provocando conceitos místicos sobre aquilo.

A lei da gravidade reteve imóveis as rochas maiores, apenas impulsos violentos (um terremoto, por exemplo) mexem naquela eternidade complacente; enquanto as pedras pequenas e as bem pequenas foram liberadas para rolar, serem chutadas ou se esfarelarem com o vento, formando novos rascunhos no horizonte.

O que não é comum é que uma delas, de meia tonelada, possa ser alavancada por uma passo em falso durante o percurso de um montanhista; e isso é tão improvável quanto o fato dela cair numa fenda sobre esse mesmo montanhista sem que ele morra, mas tendo o braço esmagado e preso sob o peso de mais uma acomodação.

O encontro dela e do corpo levará a vítima inevitavelmente a uma reflexão fatalista: a pedra esteve ali, naquele lugar desde sempre, com o propósito daquele instante dramático.

É o que imagina o protagonista do filme 127 Horas. Ele crê que tudo começou com a viagem daquele meteorito num tempo remoto, conclui que o destino fez com que um pedaço de rocha repousasse ali, esperando pelo infortúnio dele, esperando para lhe tirar a vida numa morte prematura.

Ele pensa nisso enquanto está preso, um momento claustrofóbico para o espectador, sendo essa o tipo de claustrofobia que se define pela contradição entre a imobilidade do corpo versus a fluidez do oxigênio.

Porém há uma outra claustrofobia que é paradoxal à ideia determinista. E essa não tem nada a ver com os aspectos físicos. É a seguinte: há algo mais claustrofóbico que um destino de pedras marcadas?

O sufoco de imaginar que possa haver uma agenda para cada um de nós, algo inexorável que nos torne marionetes de um interesse desconhecido, independente da nossa vontade e decisão?

Se há alguma ordem no universo, acima das leis da física, ninguém provou. A fé depende de ficção e até aqui, desde o fim da Era Glacial, as pedras estão presas ou soltas como sempre estiveram, e o desejo que temos de sobrepô-las mesmo à custa de muita dor como no filme é a única coisa que pode nos libertar.

P.S.: Os dinossauros dominaram a Terra por 160 milhões de anos. O homem existe há 3 milhões. Precisamos de mais 157 milhões para igualar o feito. Será? Já as formigas entraram na primeira chamada e não sairão antes do fim da festa.

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