
FERNANDO RODRIGUES
"Posso olhar aí, tio?"
BRASÍLIA - O Brasil, fui informado, virou um país de classe média. Percebi um pouco a mudança na segunda-feira ao renovar uma credencial de imprensa no Congresso.
Entrei na repartição e três funcionários públicos conversavam felizes sobre suas vidas privadas em uma rodinha. Ignoraram-me por alguns instantes.
Dois outros "concursados" tagarelavam ao telefone, inclusive o responsável pelo atendimento -este descrevendo a argamassa e o azulejo comprados para reformar "o lavabo". Todos parecem estar com mais dinheiro no bolso. Mas a eficiência continua a de sempre.
Volto a este espaço depois de um ano fora do país. Percebo uma efervescência na economia. Na Starbucks da alameda Santos, em São Paulo, serviram-me um pedaço de bolo em prato de louça e com um garfo de metal.
Nos EUA, seria num saquinho de papel descartável e se comeria com as mãos. Esse deve ser mais um item do custo Brasil.
Nem FHC nem Lula decifraram um enigma crucial: a fórmula para combinar crescimento econômico com aperfeiçoamento dos valores e costumes gerais do brasileiro.
Na padaria do bairro, aqui em Brasília, o mesmo guardador de carro de 12 meses atrás continua a recepcionar a todos de maneira idêntica, com a pergunta/ameaça "posso olhar aí, tio?".
Ele já é parte da paisagem. Ninguém se incomoda. O Brasil está em geral mais rico. A classe média foi às compras. Carros são vendidos em 46 prestações. Ótimo. Mas a ineficiência nos serviços públicos está intacta.
Médicos são formados sem saber como tratar um paciente com resfriado. As calçadas das principais capitais são imundas.
Entra-se num táxi em São Paulo para ir até a avenida Paulista e o chofer despreparado pergunta: "Qual o melhor caminho?".
O Brasil é um país de classe média. Vá lá. Mas tem um caminho longo para vir a ser uma nação desenvolvida.
frodriguesbsb@uol.com.br
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