
13 de agosto de 2008
N° 15694 - SERGIO FARACO
Nomes (ou aquilo ali)
O vocabulário do brasileiro, afetado pela deficiência de leitura e pelos estrangeirismos, torna-se cada vez mais murcho, e hoje em dia são raras as criaturas com cacife para ler, por exemplo, um belíssimo livro como A Relíquia, em que o velho e sábio Eça esbanja sua pletora lexical.
Pouco a pouco, o brasileiro vai sepultando seu idioma, e alguns vocábulos já desapareceram do português falado e até mesmo de nosso português literário. Eles designavam objetos que agora foram batizados de “aquilo ali”.
Suponhamos que você venha à minha casa.
Da rua, vê que ela tem um telhado de duas águas, isto é, com duas vertentes. A fachada lateral, por isso, é um triângulo, cujo vértice expõe a extremidade da cumeeira. Essa parede tem um nome, empena. Se preferir, diga oitão ou hasteal. Serve.
Você vê também as duas portas-janelas da sala. Elas são coroadas por arcos de cantaria, dos quais se projetam três pedras, a do centro e as duas das extremidades. As pedras que finalizam o arco chamam-se saimel, a do meio é o fecho, mas se você disser chave ela responde.
Agora você ultrapassa o portão entre duas pilastras e tem pela frente uma escadaria com três patamares entre quatro lanços de seis degraus. Patamar de escada é patim, a mesma denominação que se dá aos patamares das escadas de portaló das grandes embarcações. Reconheço que patamar também serve e é palavra mais bonita.
Meu mordomo o recebe, você pisa no limiar ou soleira (porque coiceira é feio) e cruza pela porta entre as duas peças verticais da armação, que sustentam no alto uma travessa. Esta se chama padieira, aquelas, ombreiras. Bah, errei. Como minha padieira sustenta um arco envidraçado, trata-se antes de uma imposta.
Na sala, você nota uma bela gravura na parede, entre os janelões que o pedante mordomo chama french window. Essa parede entre aberturas, onde para minha honra estão os magníficos cavalos de Nelson Jungbluth, atende por tremó.
Aliás, devo confessar que esse termo não entrou em meu léxico através dos clássicos e provém de minha cultura de grifogramas, adquirida na revista juiz-de-forana A Recreativa...
Enquanto você espera, e espera em vão, o gajo nutre o fogo na lareira, e esta tem tantas seções que seria fastidioso enumerá-las.
São apenas alguns nomes, entre mais de uma centena dos que identificam componentes de uma casa – só a porta tem uma dúzia! Você pode recobrar todos eles na ilustração do verbete “casa” em antigas edições do Lello Universal, conferindo no Dicionário Houaiss.
Quanto à visita que me fez, perdão se não pude recebê-lo pessoalmente, estava a me esmerar nesta coluna para que você não se esquecesse do que viu.
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