
11 de agosto de 2008
N° 15691 - LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL
Palavras (38)
A igreja de São Tomás, em Leipzig: nesse Lugar, J. S. Bach foi um funcionário aplicado; ali ele tocava órgão e viola. Sua voz também era bela. Regia um coral de meninos e uma pequena orquestra.
Nessa manhã, tentava escrever com olhos doentes. Bach suspendeu-se, entretanto: alguém ensaiava breves notas ao cravo doméstico. Lá embaixo, na calçada, eram os ruídos de uma cidade às primeiras horas. Uma criança batia um tambor de lata.
Ele tentava retomar sua escrita musical. Distraía-se ao perceber, pela janela, uma folha de carvalho, a primeira que caía na estação.
Ele estava enfermo de uma doença progressiva, a mesma que punia seus olhos. O médico já percebera como a urina de seu paciente atraía as formigas que apreciam açúcar.
Hora do culto em São Tomás: ele fechou seu caderno de música e dirigiu-se à igreja. A música estava incompleta e hoje era dia de festa. Todos os burgueses de Leipzig ali estavam.
Subiu ao órgão. Abriu a partitura. Fechou os olhos e pediu Inspiração. Ele ainda trazia a memória do tambor.
Deu-se a transfiguração: não havia mais a igreja de São Tomás, nem ruas estrepitosas. Ele não precisava olhar para a partitura. Tocava com seu coração. A música pairava pelas abóbadas góticas. Os burgueses viravam a cabeça para cima, para o coro alto, para Bach.
Esse foi o último dia em que tocou. Estaria morto em poucas semanas.
Hoje, a igreja de São Tomás funciona como um museu. Ninguém deve ir lá à tarde, quando se enche de turistas. Pela manhã é-se dono do templo, especialmente no inverno.
Entremos pela porta lateral. Esqueçamos que isso tudo foi reconstruído. Há uma sepultura no piso da capela-mor, à direita. Ali está Bach. O turista de ontem deixou uma flor de plástico.
Ergamos o olhar para o coro alto. Ergamos o olhar para o órgão.
Fechemos os olhos, agora. Silêncio.
Nós, os burgueses do mundo inteiro, ouçamos.
Cessemos nossos tambores de lata.
Há novíssimos parques na cidade. Eles surgem de um grande espaço vazio.
Surgem, também, do frenético bota-abaixo de velhas casas. Essas casas não transmitem suas labirínticas experiências ao parque. Um parque, para existir, necessita de um século inteiro.
O Museu Carnavalet, no Marais, reconstituiu o quarto de Marcel Proust. Um empregado espaneja o pó que provocava a bem-vinda alergia e a depressão de seu ocupante.
Proust abominaria essas falsidades.
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