segunda-feira, 11 de agosto de 2008



11 de agosto de 2008
N° 15691 - DAVID COIMBRA


Todos de félias

ARBS contratou quatro tradutores para nos acompanhar aqui no Império do Meio. Chamam-se Lan, Li, Wen e Boai.

São estudantes chineses que passaram algum tempo no Brasil e aprenderam o português. Mas são tantas as diferenças entre as línguas que às vezes eles se atrapalham.

Dia desses, a Duda Streb, da RBS TV, pediu para que a Wen descobrisse onde ficava o ginásio em que iria treinar o João Derly.

A Wen tomou do celular e começou a falar. E falava e falava e falava naquele chinês dela, ding-ling, ming-xing, chang-tang, bang-lang. E desligou e ligou de novo, e de novo deitou falação em chinês, e mais uma vez desligou e ligou novamente, e falou e discutiu e argumentou, tudo em sonoro mandarim.

Mas que tanto fala a Wen?, estranhou a Dudinha. Era só para pegar o endereço do ginásio, não pode ser tão complicado...

Finalmente, a Wen desligou e olhou desolada para a Dudinha.

– Nau pode – disse. A Dudinha arregalou os olhos.

– Não pode? O que é que não pode? – Ginásio. Nau pode. – Como assim, não pode? – Nau pode. Estão de félias.

– Férias??? Como, estão de férias? Na Olimpíada??? Quem está de férias?

– Os plofessoles. Estão de félias. Ginásio está fechado. Alunos, plofessoles, todos de félias. Nau pode.
Na muralha
Outra tradutora, a Lan, cheguei para ela e disse:

– Ei, Lan, vamos na Muralha no sábado?

A Lan ficou vermelha como a bandeira da China, levou as duas mãos ao rosto e apitou:

– Oooooooooooh...

Ela havia entendido “namorar” em vez de “na Muralha”.

O Dragão de Fogo

Esta é uma fruta típica da China. Dizem que a mais típica, a mais apreciada por 1 bilhão de chineses. Chama-se Dragão de Fogo. Como já disse, chinês adora um dragão, tudo para eles tem dragão no meio.

Coloquei meu Dragão de Fogo num copo de uísque e ele ficou aqui, de pé sobre a mesa, como um troféu. Admirei-o por dois dias.

Entrava em casa e olhava para o Dragão de Fogo. Não sabia bem como comê-lo. Enfim, municiei-me de instruções e o fiz. Descasquei o Dragão de Fogo como uma banana. Abaixo da primeira camada surgiu uma pele roxa e, sob esta pele roxa, a polpa esbranquiçada, com pontinhos pretos.

Meio parecida com kiwi. No gosto também, algo de kiwi. Mas estou me sentindo um pouco estranho depois de comer o Dragão de Fogo. Não sei, certas experiências chinesas, só mesmo para os chineses.

O nosso hotel

Eu merecia estar hospedado no Pangu Hotel. Sim, senhor, merecia. O Pangu Hotel é o conjunto de prédios que fica em frente ao Cubo D’Água e ao Ninho de Pássaro.

Aquele que tem telões gigantes decorando-lhe a fachada e uma torre de 36 andares com o topo em forma de tocha, para mim, e em forma de dragão, para os chineses.

Trata-se de um hotel sete estrelas. Sete, meeen! A diária mais barata, de um apartamento muquirana de 84 metros quadrados, está em R$ 11 mil. A mais cara, a da suíte presidencial, que, aí sim!, tem 480 metros quadrados, eleva-se a R$ 100 mil.

Quem tem dinheiro para pagar R$ 100 mil por dia por hospedagem? Na China, muita gente. Há cada vez mais bilionários na China, desde que Deng Xiaoping decretou:

– Enriquecer é glorioso.

Claro, ele também ressalvou que alguns iriam enriquecer mais depressa do que os outros, mas o Pangu Hotel não tem nada a ver com isso.

Se você fez reservas no Pangu Hotel, a imigração chinesa facilitará a sua entrada no país e, ao sair do aeroporto, um Rolls Royce estará a sua espera, para que você não entre em fila de táxi, que é coisa de chinelo.

Ao chegar a sua suíte, você provavelmente pensará em assistir às competições de luta greco-romana. Relaxe. Deite na sua cama king size revestida com seda chinesa, ou abolete-se num dos sofás italianos da sala, e ligue um de seus dois telões de 80 polegadas para não perder nenhum detalhe deste esporte emocionante.

Se preferir ver como está o movimento lá fora, no complexo olímpico, basta levantar e dar uma olhada pelo janelão. O Pangu oferece a melhor vista que se pode ter dos superestádios pequineses.

Realmente, eu e você merecíamos estar hospedados no Pangu Hotel.

A mais famosa

Na abertura das competições de ginástica, a organização da Olimpíada passa nos telões do ginásio um clipe com cenas dos maiores ginastas do mundo. Entre eles, um único brasileiro. Na verdade, brasileira: Daiane dos Santos. Que eles chamam, tão-somente, Santos.

Ótima semana especialmente a você que vem aqui todos os dias.

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