sábado, 12 de setembro de 2015



12 de setembro de 2015 | N° 18292 
DAVID COIMBRA

Picasso, quando nasceu

Picasso, quando nasceu, e o Picasso a que me refiro é o pintor, não o goleiro do Grêmio, se bem que, suponho, poucas pessoas irão se lembrar daquele Picasso goleiro, porque ele jogou no Grêmio numa época em que o Inter ganhava tudo, era o Inter de Falcão e Valdomiro, e o Grêmio tinha Picasso, Wilson Cavalo, Ancheta, Beto Fuscão ou Beto Bacamarte e Jorge Tabajara, essa era a defesa inteira.

Note como minha memória é boa para informações mais ou menos inúteis, posso citar de cor a escalação do América de 1974 e a fórmula de Bhaskara e vez em quando, por algum motivo, me pego cantando toda a letra do O Bom Rapaz, do Wanderley Cardoso, e nada disso me serve para nada, então, o que eu dizia é que Picasso, quando nasceu, aconteceu algo inusitado, se bem que, antes de contar essa história do Picasso pintor preciso observar que na época do Picasso goleiro, os anos 1970, alguém espalhou que ele, goleiro, era míope, uma maldade, 

Picasso era bom goleiro, foi uma evolução para o Grêmio, porque antes dele o goleiro era Jair, um baixinho, do tamanho do Romário, inclusive dizem que foi por causa do Jair que diminuíram a altura das goleiras do Olímpico, fato só descoberto pelo sucessor de Picasso, o argentino Cejas, que chegou ao clube em 1976, levantou o braço e viu que o travessão dava no seu punho, então as goleiras foram replantadas.

Mas o que eu dizia mesmo? Ah, sim, o pintor Picasso, quando nasceu, não respirou. Os pulmões não abriram, diriam os antigos. Simplesmente não respirou, ia morrer, aí sabe o que o médico fez? Soprou fumaça de charuto no rosto dele. O nenê, sentindo o cheiro acre da baforada, começou a respirar e a chorar, abriu-se para o mundo que conquistaria anos depois com suas mais de 45 mil obras de arte, um fenômeno de quantidade e qualidade.

O médico fumava na sala de parto. Quem poderia conceber algo assim, hoje em dia? Coisas que eram feitas antes com toda a naturalidade hoje causariam escândalo. O que me leva a pensar: quais serão os nossos atos de agora que assombrarão os pósteros por sua insalubridade?

Arrisco um: discutir com estranhos nas redes sociais. Aí está uma atividade que não tem lógica. Você não conhece o sujeito, mas sabe que ele escreveu uma besteira em algum escaninho da internet, e você se irrita. Por quê? Você acha que conseguirá derramar o bom senso nas cabeças de todos os idiotas do mundo? Você acha que faz diferença discutir com ele?

Não faz. E é definitivamente insalubre.

Neste fim de semana, tente este exercício: quando alguém irritá-lo, conte até 10, faça om, pense na escalação do América de 1974, mas não responda. O silêncio é quase sinônimo da paz.

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