domingo, 18 de janeiro de 2015

VINICIUS TORRES FREIRE

Brasil, entre apagão e recessão

Risco crescente de falta de água e luz torna mais sombrios cenários econômicos para 2015

UMA RECESSÃO neste 2015 vai livrar o país de algum tipo de racionamento de eletricidade ou o risco de falta de luz e água vai tornar mais provável o encolhimento da economia?

As notícias da seca foram agourentas na sexta (16). A previsão de entrada de água no sistema de geração de energia elétrica do Sudeste caiu para o equivalente a 44% da média histórica de 82 anos, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico, uma espécie de diretor-geral de trânsito da eletricidade no país. No fim de 2014, a previsão era de uma vazão próxima da média (em torno de 100%, pois). Institutos de previsão do tempo então também acreditavam em chuvas algo acima da média histórica. Não rolou.

Em suma, os reservatórios do principal centro de geração de energia hidrelétrica do país não estão se recompondo. Janeiro de 2015 está sendo tão frustrante quanto janeiro de 2014. A diferença é que o nível d'água está mais embaixo.

No entanto, nos primeiros 13 dias do ano, o consumo de energia elétrica caiu 7,1% em relação a janeiro de 2014, devido à lerdeza na produção industrial. A estimativa é da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica. Nessa toada, o risco de racionamento cai. Trata-se de um caso de estar entre a cruz do racionamento e a caldeirinha da recessão.

Os economistas do Banco Safra reduziram sua estimativa de crescimento do PIB neste ano de alta de 0,3% para baixa de 0,5%. Um dos motivos que baseiam a previsão de encolhimento da economia é o racionamento de água em São Paulo (um outro, mais importante, é a crise da Petrobras).

Diz o relatório semanal do banco: "Com o reconhecimento pelo governador Geraldo Alckmim de que o racionamento já é em parte realidade, dada a situação crítica do reservatório da Cantareira, julgamos necessário incorporar algum efeito negativo associado a esse evento".

O pessoal do Safra alerta para o fato de que "essa estimativa não embute um risco ainda mais importante para a atividade econômica", o de racionamento de energia elétrica.

Também na sexta, os economistas do Banco Itaú reduziram sua previsão de crescimento do PIB de 0,8% para 0,2%, mas não associaram esse rebaixamento ao ris- co de escassez de água e luz. Ainda assim, anotam no seu relatório que "...a perspectiva de pluviosida- de desfavorável em janeiro aumenta significativamente os riscos para a oferta de energia elétrica em 2015. Mesmo considerando um retorno à normalidade das chuvas a partir de fevereiro, em nosso cenário básico os reservatórios agregados de energia elétrica em 30 de abril estarão abaixo do mesmo período no ano passado".

Obviamente, assim também cresce o risco de racionamento brabo em São Paulo. É tão curioso quanto deprimente ler em relatórios de bancos comentários sobre o avanço da falta d'água nos bairros da cidade.

Sobre um eventual racionamento, o pessoal do Itaú escreve que a crise não seria tão ruim quanto a de 2001, pois: 1) Há mais linhas de transmissão e usinas termelétricas; 2) O consumo de energia em 2014 deve cair por causa de crescimento modesto e eletricidade mais cara.

Venha ou não um novo apagão, enfim, a conversa de crise de água e luz voltou a subir muito de tom na praça do mercado.


vinit@uol.com.br

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