sábado, 29 de março de 2008



30 de março de 2008
N° 15556 - David Coimbra


A pintura da Última Ceia

Leonardo Da Vinci era um homem estranho. Tinha o hábito de escrever da direita para a esquerda. Seus escritos só podiam ser lidos se colocados diante de um espelho, um trabalhão. Fazia isso talvez por ser canhoto, talvez por ter medo de que suas idéias fossem consideradas heréticas.

E eram - entre seus textos foi encontrada a frase "o sol não se move", que, anos depois, rendeu a Galileu Galilei alguns contratempos, como a possibilidade de ser queimado vivo numa fogueira da inquisição.

Leonardo recebia inúmeras encomendas de trabalho de príncipes, governantes e nababos do século 16. Os príncipes e governantes pediam que desenvolvesse máquinas bélicas, no que ele era muito bom; os nababos apreciavam seus dotes musicais, suas pinturas e esculturas, no que era melhor ainda.

Geralmente, Leonardo empolgava-se com um novo projeto, começava-o, mas não o terminava. A maior parte da sua obra ficou inconclusa.

Felizmente, a célebre "Última Ceia" não foi um desses casos. A Última Ceia é o mural que sustenta toda a tese de Dan Brown em "O Código Da Vinci", mas nem isso depõe contra a obra.

Foi pintada na parede do refeitório de um mosteiro de Milão. Enquanto almoçavam, os monges fruíam a obra de Leonardo, o que me faz lembrar da foto de uma couve que havia no refeitório de um jornal no qual fui repórter.

Suponho que os administradores do jornal pretendiam nos estimular gastronomicamente com aquela couve, uma couve bem grande e verde, cheia de folhas. Eu olhava para aquela couve e pensava: uma couve...

Enfim.

Houve testemunhas oculares desse trabalho de Leonardo. Elas contaram que, muitas vezes, o artista subia no andaime e passava o dia inteiro muito ereto, de braços cruzados, examinando a pintura, pensativo. Às vezes, só depois de dias nessa contemplação, é que Leonardo estendia o braço e dava mais uma pincelada.

Leonardo refletia a respeito do que fazia, eis o importante. O gênio tem a vocação, tem a inspiração, tem o dom, mas não é o suficiente. É preciso reflexão, trabalho, prática, transpiração. Agora alguém aí me diga: como é que alguns pernas-de-pau querem jogar futebol sem se esforçar no treinamento???

O gol minhoca

Certa feita um gaiato apresentou-se a Foguinho, no Olímpico, pedindo para fazer um teste a fim de jogar no Grêmio.

- Em que posição o senhorrr joga? - quis saber Foguinho, com seus erres triplos.

- Brinco em todas - respondeu o outro, decerto mascando chiclete, imagino-o mascando chiclete.

- Em todas? Hmm... Então faz o seguinte: cabeceia essa bola - mandou o técnico, e rolou a bola rasteirinha.

O sujeito mergulhou no chão, raspou o nariz na grama e meteu a testa na bola.

Foguinho suspirou e apontou o portão da rua:

- Pode irrr embora, meu rapaz. Para jogadorrr o senhorrr não serve.

Isso porque Foguinho não tinha um Jonas no time. Jonas não apenas cabeceou a bola rente à grama, ágil como uma minhoca de chuteiras, na quarta-feira passada. Jonas fez mais do que isso: fez gol! Faz-se gol de tudo que é jeito nesse mundo do futebol, disso nem Foguinho sabia.

Pobre Porto Alegre

Nasci chorando, Cristo Redentor. Porto-alegrense, portanto, descendente de gerações de porto-alegrenses. Mas não me regozijei com essa semana de aniversário da minha cidade. Até, confesso, me entristeci um pouco ao pensar em Porto Alegre e constatar o estado em que se encontra.

Não porque os prédios e os monumentos sejam pichados diariamente. Não porque as ruas estejam sujas. Não porque o Arroio Dilúvio tenha de ser constantemente limpo pela prefeitura, que de seu curso pesca pneus, latas, garrafas e até sofás. Não porque os telefones públicos sejam depredados.

Nada disso.

Fiquei triste porque há pessoas que picham prédios, sujam as ruas, atiram até sofás no Arroio Dilúvio, depredam monumentos e telefones públicos.

Fiquei triste porque o Mal de Porto Alegre é muito menos a qualidade das suas autoridades e muito mais o comportamento da sua população, cada vez mais grosseira e ignorante, uma população de pedintes que ficam de campana nas sinaleiras para achacar motoristas, de motoristas que atiram lixo pelas janelas dos carros, de alunos que agridem professores nas escolas, de pais de alunos que não admitem que seus filhos sejam punidos, uma população que emporcalha a cidade e se xinga mutuamente nos balcões das lojas, nas repartições públicas, no trânsito.

Essa doença da alma porto-alegrense, o sintoma dela se manifesta com toda clareza quando a massa que se reúne semanalmente a fim de assistir ao futebol.

Há 10 anos, quando víamos cenas de violência patrocinadas por torcedores paulistas, nós aqui na redação do jornal nos congratulávamos: em Porto Alegre não havia daquilo. Hoje, a ignorância do torcedor, nem que seja ignorância verbal, virou tema recorrente entre os jornalistas.

O torcedor, ainda que seja um torcedor leitor, pretensamente de melhor nível cultural, quando se manifesta, em geral o faz com agressividade e intolerância.

As mesmas agressividade e intolerância que ele transporta para a arquibancada, que o leva a danificar os aparelhos públicos da cidade e a fazer das ruas em que transita uma imundície.

Por isso, saúdo a proibição de bebidas alcoólicas nos estádios. Quanto menos instrumentos se der para que aflorem os sentimentos animalescos da súcia, melhor.

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