sexta-feira, 21 de março de 2008



21 de março de 2008
N° 15547 - David Coimbra


Oi, negrinho

Contraí a mania de chamar os outros de negrinho, tempos atrás. Uma pequena amabilidade:

- Tudo bem, negrinho?

Certo. Uma tarde, espetei o cotovelo no balcão do bar da Redação e perguntei à atendente:

- Salta um expresso bem quente aí, negrinha?

Ela me olhou de viés.

- Aqui ainda não é a senzala - ralhou.

Fiquei boquiaberto, constrangido e surpreso, tudo ao mesmo tempo.

- Falo assim com todo mundo - tentei explicar. E acrescentei: - Nem tinha percebido que tu és negra...

Depois pus-me a pensar: aquela palavra, "negrinho", seria indício de que havia traço de racismo em mim? Pensei, pensei e concluí que não. Sempre desprezei racistas, fascistas, nazistas et caterva. Mas, por segurança, passei a usar o velhinho, que nem o Pernalonga:

- Tudo bem, velhinho?

O incidente me fez refletir sobre isso de formas de tratamento. A moça do bar se ofendeu quando a chamei de negrinha. Mesmo que não tivesse a mínima intenção discriminatória, não podia censurá-la - sabe-se lá o que já enfrentou por ser negra e pobre.

Mas o ocorrido me deixou inseguro: um negro pode se magoar se o chamo de negro, outro se o chamo de preto, um terceiro se o chamo de crioulo e chamar alguém de afrodescendente, por favor!, seria como chamar o Alemão do Girasole de germanodescendente, não tem cabimento.

Só que tem o seguinte: esse desconforto não é ruim. É sinal de que existe baixa tolerância ao racismo. Que os negros, afinal, estão reagindo.

O sistema de quotas nas universidades pode ser enquadrado nessa categoria. Trata-se de uma reação, de certa forma. Uma compensação por todo o sofrimento infligido aos negros no país por pelo menos três séculos.

O problema é que não parece a compensação mais inteligente. A evasão escolar no segundo grau atinge 46% dos alunos. Assim, o sistema de quotas atinge pouquíssima gente que já está entre uma minoria - a dos candidatos a vagas universitárias.

E pode originar um universitário de segunda classe, visto com preconceito pelo empregador. Pode, também, despertar os piores sentimentos em algumas pessoas, e até já anda despertando.

Existe, porém, um jeito de resolver a questão. É o colégio. O ensino básico e fundamental. Os investimentos e os esforços dos governos tinham de ser canalizados para a escola.

Escolas onde a criança permanecesse o dia inteiro, sendo alimentada, praticando esportes, aprendendo artes, recebendo assistência e, sobretudo, recebendo ensino de qualidade, que rivalizasse com a rede privada. Alguém dirá que é impossível.

Ora, isso já existiu. Há não muito tempo, as escolas públicas eram melhores do que as privadas. Eu mesmo só estudei na rede pública, em ótimos colégios, com excelentes professores dos quais ainda sinto saudade.

O negro, o pobre, o branco, o japonês, qualquer um que freqüente uma boa escola pública, chegará à margem da universidade em condições de disputar vaga com o filho do abastado, a despeito de cursinhos preparatórios e professores particulares.

É com as crianças que o Brasil tem de se preocupar. É pelas crianças que haverá de se salvar.

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