sexta-feira, 28 de outubro de 2016


28 de outubro de 2016 | N° 18672 
ARTIGO - LÉO VOIGT*

NULO?


Nesta conjuntura surpreendente, em que a política e a sociedade estão mudando, vejo até alguns dos melhores professores argumentarem favoravelmente ao voto nulo nestas eleições. Muito embora sejam reconhecidos intelectuais, penso que emitem apenas mais uma opinião no lusco-fusco da disputa apaixonada.

O voto nulo em eleições formais é manifestação do ressentimento, da falta de objetividade na avaliação que leva ao rebaixamento do momento da vida democrática. Não é um ato de protesto. O próprio nome já diz: nulo, inútil. A lei eleitoral e a tradição das disputas não o computam como válido. Uma massa de nulidade não gera uma nova circunstância política, administrativa ou histórica. Ao contrário, pode fortalecer tendências opostas ao desejo dos incautos anuladores.

Abster-se de influir numa eleição significa virar-se de costas para as conquistas acumuladas nas lutas liberais, socialistas e de solidariedade dos séculos 18, 19 e 20. Votar nulo desqualifica o esforço histórico, ignora os atores da arena democrática e despreza o trabalho das autoridades públicas e do próprio Estado, que investem para viabilizar as eleições. 

É isso que separa o senso crítico e público dos cidadãos responsáveis do ressentimento inútil daqueles que não se dão conta de que estar à altura de uma conjuntura adversa não é ausentar-se dela. Além disso, o voto nulo torna iguais candidaturas e alianças que a caminhada democrática diferenciou.

Por fim, creio que votar nulo e propagar a abstenção é uma atitude de imaturidade na hora de decisão adulta. Se o meu preferido não está presente na nova rodada eleitoral, então não brinco mais. Isso, infelizmente, tem-se tornado frequente nestes conturbados tempos, quando mais gente se relaciona com a política pelo fígado e não pelo cérebro.

Em vista de que citam Bobbio para tentar legitimar o voto nulo, lembro aqui o seu compatriota, Dante Alighieri, que na Divina Comédia reservou o último dos infernos, o sétimo, para lá depositar os que, em circunstância de crise aguda, se omitem e se refugiam no nada da negação indeterminada.

*Cientista político

Nenhum comentário: