quinta-feira, 18 de março de 2010


CLÓVIS ROSSI

A menina, o soldado e o muro

RAMALLAH (Palestina) - Em frente ao hotel Jacir Intercontinental de Belém, no qual se hospedou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um muro exibe uma pintura que vale mais que dez livros sobre o sentimento dos palestinos.

Mostra um soldado israelense com as mãos na parede, sendo vistoriado por uma menina palestina, véu à cabeça. É a completa inversão do cotidiano dos palestinos, meninos e meninas inclusive: para sair de seus territórios, são permanente submetidos à apalpação de segurança, talvez o menor dos tormentos que afetam a vida deles.

O olhar da menina não carrega ódio. Parece distante, como se a rotina a entediasse, como certamente entendia uma menina de verdade submetida a controles que, não raro, são abusivos.

Dou um exemplo pessoal: para entrar na segunda-feira no palácio presidencial de Jerusalém, tive que, literalmente, abaixar as calças e exibir a cicatriz da operação para colocação de prótese no quadril (uma peça de titânio que apita sempre que passo nos escâneres de segurança).

É um abuso burro: a cicatriz existe, mas poderia ter sido provocada por um tiro, uma facada, outra operação. Não prova que eu tenho uma peça de metal no quadril.

É esse o drama dos palestinos: precisam provar, uma e mil vezes, que não são terroristas, embora alguns dentre eles o sejam. Mas sofrem todos a "punição coletiva" do jargão diplomático-jurídico internacional e que tanto horroriza os adeptos da legalidade.

Não deu tempo de fazer uma pesquisa ampla para saber se a maioria dos palestinos incorporou o tédio/ conformismo da menina pintada no muro.

Os incidentes dos últimos dias, no entanto, dão razão a Avi Issacharoff e Amos Harel, do "Haaretz", quando dizem que "parece que outro substancial choque israelo-palestino, com Jerusalém no meio, está se tornando crescentemente próximo".

crossi@uol.com.br

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