sábado, 20 de março de 2010



A classe média e seus papéis

A elevação do padrão de vida nos países emergentes, como China, Brasil e Índia, engrossa a camada da população disposta a gastar com bens não essenciais e a defender valores democráticos

Duda Teixeira - Aijaz Rahi/AP


NOVAS AMBIÇÕES

Universitários em Mysore, na Índia: a educação é um dos investimentos preferidos da classe média. Outro é consumir.

O destino da classe média nos próximos anos é cumprir duas missões. A primeira, econômica, consiste em pôr o seu poder de compra a serviço da recuperação do crescimento do PIB mundial, prejudicado pela pior crise financeira desde a década de 30. A segunda missão é pressionar por transformações políticas em países onde a democracia e o respeito às leis ainda são valores exóticos.

O requisito demográfico para que esses dois papéis possam ser desempenhados está praticamente garantido: segundo estudo recente da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os países ricos, a população de classe média está aumentando rapidamente e pode mais do que dobrar nos próximos vinte anos, chegando a 4,9 bilhões de habitantes.

Todos os novos membros da camada social intermediária do mundo viverão em países emergentes - principalmente nos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China). Em termos proporcionais, a classe média em 2030 representará, pela primeira vez, mais da metade dos habitantes do mundo. No Brasil, isso já é verdade desde o ano passado.

Há diversas maneiras de definir quem faz parte desse estrato populacional. A OCDE considera uma renda familiar de 10 a 100 dólares por dia. Por esse critério, a classe média brasileira é mais rica do que a chinesa, por exemplo. Outra forma de classificação é a capacidade de gastar um terço da renda em qualquer coisa que não seja comida e moradia. Essa é, justamente, a característica que faz a classe média ser tão especial do ponto de vista político e econômico.

Ben Curtis/AP - ARMA DIGITAL


Manifestações no Irã, em 2009: celular e computador a serviço da democracia

Ao deixar para trás a pobreza - o que significa parar de se preocupar apenas com a sobrevivência diária -, o cidadão passa a pensar no futuro e a desejar melhorias constantes em seu padrão de vida. Isso o leva, quase sempre, a valorizar políticas que lhe permitam progredir, como aquelas que reforçam o direito de propriedade, a segurança jurídica e as liberdades individuais.

Eis aí a razão para a afinidade da classe média com os valores democráticos. "Como essa parcela da população tem uma renda razoável, é muito mais difícil para um político populista comprar o seu apoio com medidas assistencialistas", disse a VEJA o economista indiano Abhijit Banerjee, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos.

O fortalecimento da classe média, contudo, não é condição suficiente para derrubar ditaduras, como bem demonstra o caso da China, onde três em cada quatro integrantes do Partido Comunista pertencem a essa camada. "São raros os exemplos históricos como esse, em que a classe média apoia sistemas totalitários.

Conforme se torna mais numerosa, ela costuma ficar mais liberal e empreendedora, o que é bom para a democracia", diz o sociólogo Bolívar Lamounier, autor do livro A Classe Média Brasileira (Editora Campus/Elsevier).

Por trás de todo movimento popular que reivindica mudanças políticas de cunho democrático, quase sempre está a classe média. A mobilização de massa que, antes e depois das eleições presidenciais iranianas do ano passado, varreu as ruas de Teerã pedindo o fim do regime radical liderado pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad, por exemplo, era basicamente formada por ativistas de classe média.

Eles usavam seus celulares - o principal símbolo de consumo da nova classe C dos países emergentes - para organizar os protestos e difundir fotos da repressão policial. Um estudo do instituto americano Pew Research Center comparou a maneira de pensar das camadas baixas e médias em treze países. Conclusão: os membros da classe média são mais propensos a exi-gir eleições limpas e multipartidárias e a defender a liberdade de imprensa do que os pobres.

Marcio Fernandes/AE - CONSUMO EM ALTA


Loja em São Paulo: metade da população brasileira já é classe média

As mesmas características que dão relevância política à classe média também definem o seu papel econômico. A preocupação pessoal com o futuro e a ambição social refletem-se, por exemplo, no investimento na educação dos filhos e em gastos com academia de ginástica, turismo e ingressos de cinema. A entrada no mercado de consumo dos ex-pobres tem impacto direto no crescimento da economia.

Estima-se que, para cada aumento de 10 pontos porcentuais na parcela de classe média de um país, o PIB anual suba meio ponto. Isso explica, em parte, por que os economistas americanos e europeus apostam tanto nos mercados emergentes como motor do crescimento global nas próximas décadas. Aturdidos pela crise financeira, os países ricos ainda têm alguns fantasmas dessa fase ruim para exorcizar.

O PIB global, após desempenho negativo em 2009, deve crescer cerca de 3% neste ano, abaixo dos 5% registrados em 2006 e 2007. A estimativa para a Índia, a China e o Brasil, no entanto, é de crescimento médio de 6% em 2010. A participação da nova classe consumidora nessas cifras é evidente. Em dez anos, os gastos dos cidadãos de classe média dos países asiáticos (sem contar o Japão) serão superiores aos de seus equivalentes americanos e europeus.

O mercado doméstico da China já compra hoje mais carros e a Índia tem mais gente conectada à internet que os Estados Unidos. Um estudo publicado neste ano pela consultoria americana Accenture, que entrevistou 16.000 pessoas em oito países, concluiu que mais da metade dos cidadãos de classe média nos países emergentes pretende comprar um smartphone, contra 20% nos países ricos.

"A avidez no consumo de eletrônicos deve-se ao fato de que a maioria dos moradores dos países em desenvolvimento nunca teve acesso a esse tipo de produto. Na Europa e nos Estados Unidos, com uma classe média estável, as pessoas preferem adiar uma compra quando percebem que a situação econômica não é tão boa", diz Olavo Cunha, sócio do Boston Consulting Group, em São Paulo.

O mundo vive agora a terceira onda da classe média. A primeira ocorreu no século XIX, na Europa, quando uma camada social formada por pequenos comerciantes e funcionários públicos começou a preencher o abismo que separava ricos de pobres.

A segunda onda se deu após a II Guerra Mundial nos países que, grosso modo, hoje compõem o clube das nações ricas. O melhor exemplo é o dos baby boomers, que urbanizaram os subúrbios americanos com casas dotadas de carro na garagem, eletrodomésticos e, mais recentemente, computador.

A onda atual ocorre nos países emergentes, cujo desenvolvimento econômico inicialmente estava baseado na exportação de produtos baratos e, agora, passa a se beneficiar também do crescente mercado interno. É a classe média no cumprimento de sua missão.

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