quarta-feira, 18 de novembro de 2009



18 de novembro de 2009 | N° 16159
MARTHA MEDEIROS


Salve a família irreal

Excetuando uma viagem escolar aos 15 anos de idade, nunca saí em excursão, e olha que já rodei esse mundo um bocado. Excursão, pra mim, sempre me pareceu uma espécie de Alcatraz, uma maneira de viajar com uma bola de chumbo nos pés, protegendo-se contra o que o desconhecido pode trazer de melhor, que é a liberdade e as surpresas.

Então sempre preferi viajar a dois, que é sublime, ou sozinha, que não é nenhum castigo. No entanto, conspirações cósmicas têm me feito aceitar que às vezes é preciso flexibilizar nossas certezas, e acabo de excursionar pelo Marrocos semissolitária, porque solitários somos todos, e semiacompanhada por outras 25 pessoas. Contrariando todos os prognósticos, deu certo.

A fórmula do sucesso é simples: entrar num grupo culturalmente homogêneo e aceitar que você deve se adaptar aos outros, e não eles a você. É imprescindível deixar em casa o “eu não quero”, “eu não vou”, “eu não gosto”, e com bom humor encarar o que for decidido comunitariamente.

Mas, mesmo nesse meu inspirado momento “topo todas”, não me aventurei no escuro: escolhi uma turma liderada por uma amigona que é professora de história da arte e que tem milhagens para dar e vender, nasceu com uma mochila nas costas. Portanto, a chance de entrar numa fria era remotíssima.

Três dias depois de voltar, estava dentro do cinema assistindo a This is It, documentário sobre os ensaios que Michael Jackson fez para os nunca estreados shows em Londres, já que uma overdose de medicamentos o tirou de cena.

O filme não chega a ser uma surpresa em termos de performance – quem não sabe o quanto o homem dançava? –, mas é um tributo à delicadeza, e não porque o protagonista vivesse num parque de diversões.

O filme mostra que Michael Jackson era um profissional adulto, rígido em suas escolhas, obcecado por qualidade. Mas era também obcecado por bons modos: nunca precisou levantar a voz para comandar seus dançarinos, nunca economizou nos elogios e agradecimentos, nunca permitiu que os nervos se alterassem.

O mérito do filme, além de destacar o inimitável talento pop de Michael, é deixar clara a eficiência da gentileza para unificar pessoas antagônicas. Havia um grupo a ser liderado, conduzido, gente de toda procedência, de tudo quanto é idade, e que juntos, naqueles meses de ensaio, se transformaram numa nova família Jackson. Não mais os Jackson Five, mas os Jackson 183, os Jackson 254, ou um número aproximado, se levarmos em conta todos os envolvidos numa megaturnê.

Uma excursão turística também é uma família. Aliás, era assim que a gente se chamava pelas ruas de Marrakesh ou perdidos na muvuca de Fez. Quando o grupo começava a se dispersar demais, a sumir pelas labirínticas medinas, soava alguma voz de comando: “Família!”. E todos rapidamente se reuniam e reverenciavam nossa divertida família irreal.

Éramos adultos gentis tentando administrar diferenças. Éramos seres que nunca haviam se visto, e nem visto aquelas cidades exóticas no norte da África, mas que sabiam a importância da cortesia para fazer a coisa funcionar. Éramos o que somos todos: participantes de uma coletividade em busca de uma convivência sadia.

O grupo do Marrocos sobreviveu. O de Michael, por razões óbvias, não. Mas o filme está aí para, além de nos extasiar com sua música, mostrar o quanto a boa educação também pode dar espetáculo.

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