sábado, 2 de fevereiro de 2013



03 de fevereiro de 2013 | N° 17332
VERISSIMO

Igualzinha, igualzinha

Uma imitação perfeita só deixa de ter o mesmo valor do original quando é descoberta

Margô voltou de Paris com uma bolsa Vuitton. Contou para as amigas o que passara para comprar sua bolsa Vuitton. Entrara numa fila enorme em frente à loja Vuitton do Champs- Élysées. No frio! Chegara a brigar com uma japonesa (ou chinesa, sei lá) que tentara cortar a sua frente na entrada da loja. Lá dentro, custara a ser atendida. Uma multidão. Mas finalmente conseguira.

– E aqui está ela – disse Margô, mostrando a bolsa Vuitton como um troféu.

Foi quando aconteceu uma coisa que a Margô jamais esperaria. A Belinha mostrou a sua bolsa e disse:

– Igual à minha.

Houve um silêncio constrangido. Depois que se recuperou da surpresa, Margô sorriu e perguntou:

– Você também esteve em Paris, querida?

– Estive

– Que inferno a fila da Vuitton, né?

– Eu não comprei a bolsa na loja da Vuitton.

– Ah, não? Não foi no Champs-Élisées?

– Foi, mas na outra calçada.

– Como?

– Estavam vendendo na rua. Por 19 euros.

O sorriso da Margô desapareceu. Sua bolsa Vuitton custara exatamente 1.900 euros, na loja. – Ah. Imitação – disse. – Mas é igualzinha.

– Igualzinha, igualzinha, não – corrigiu Margô. – A minha é legitima. A sua é falsa.

Belinha então propôs que todos examinassem as duas bolsas, para descobrir se havia alguma diferença. Não encontraram nenhuma.

À noite, na cama com seu marido Oscar, Margô ainda estava furiosa.

– Cachorra!

– O quê, bem?

– A Belinha. Não precisava ter esfregado a bolsa de 19 euros na minha cara.

– Mas ela foi honesta. Poderia dizer que comprara a bolsa na loja, igual a você. Poderia ter mentido.

– Você não vê? Ela me chamou de otária. De nova-rica deslumbrada. De, de...

– Calma. Sabe que essa é uma questão filosófica? – disse Oscar. – Uma imitação perfeita só deixa de ter o mesmo valor do original quando é descoberta. Dizem que várias obras atribuídas ao Rembrandt não são dele, são de um falsificador. Mas continuam nos museus, encantando todo o mundo. Por que estragar o prazer de ver ou ter um Rembrandt, por um detalhe?

– Oscar, você não está me ajudando.

Hoje, quando alguém comenta a bolsa da Margô e pergunta se é Vuitton, ela responde.

– Parece, não é? Mas comprei numa calçada do Champs-Élysées. Por 19 euros!


03 de fevereiro de 2013 | N° 17332
PAULO SANT’ANA

Sistema lento

Fico esperando na fila do banco e, depois de muito tempo, serei finalmente atendido pelo caixa.

Passo às mãos dele os DOCs que tenho para pagar e o caixa começa a dedilhar seu computador.

Estranho mais essa demora e pergunto a razão. O caixa responde:

– O sistema está muito devagar.

Saio dali e vou à farmácia. Faço compras e entrego meu cartão de crédito para a balconista. Ela enfia o cartão na maquininha, e se verifica mais uma demora irritante.

Pergunto o que houve para a balconista e ela de pronto me responde:

– O sistema está andando devagar.

Percebo só agora como tudo vem dando errado para mim. Minhas expectativas se frustram, não me curo de minha doença principal, o Marcelo Grohe defende um pênalti que eu sonhava que fosse bater na trave, não acerto nem duas dezenas na Mega Sena, tudo errado.

Deve ser culpa do sistema:

– O sistema está muito devagar.

Olhem o que acontece com meu sistema de propriocepção: o contato de meus pés com o solo, do que são emanados para meu cerebelo sinais que devem ser interpretados em centrais instaladas dentro de minha calota craniana, resultando daí uma das três vertentes do meu equilíbrio.

Pois ando totalmente desequilibrado.

Não é que o sistema esteja avariado.

– O sistema está devagar.

Vejam o que acontece com o sistema político-econômico brasileiro.

De um lado, desceu o preço da conta da luz; por outro, subiu o preço dos combustíveis.

Lula ainda não deu sinais de que será novamente candidato à presidência da República, o que transtorna completamente Dilma, que já deu para fazer pronunciamentos na cadeia obrigatória de televisão, visando unicamente reeleger-se.

Ou seja, o sistema político-econômico do Brasil está confuso:

– O sistema está devagar.

Meu sistema cardíaco pela primeira vez, em 73 anos, mostrou pressão alta ao ser auscultado.

Meu sistema digestivo, sempre tão perfeito, resolveu na semana passada se mostrar com uma gastrite acentuada.

E meu sistema nervoso, bem, sobre esse eu daria a palavra às pessoas que me cercam todos os dias e devem, no mínimo, pelo modo como as tenho tratado, achar que ando estressado.

Ou seja, todos os meus sistemas estão andando muito devagar.


03 de fevereiro de 2013 | N° 17332
O CÓDIGO DAVID | DAVID COIMBRA

Ela me conquistou

Vivo aprendendo com meu filho. Porque uma criança está limpa para o mundo, está receptiva a tudo o que vier de fora. O mundo é que a molda. Então, olhando para ele, vejo como o mundo poderia ser diferente.

Por exemplo: o nosso mundo adulto tem o hábito de classificar coisas e pessoas. Isso é melhor do que aquilo, esse é o primeiro, aquele é o segundo, lá está o último. Bem. Tempos atrás, perguntei para o meu guri qual era o carrinho de brinquedo de que ele mais gostava. Ele respondeu, casualmente:

– Todos.

– Todos? Não pode ser. Tem que haver um especial. Qual é?

– Gosto de todos – repetiu. E seguiu brincando: – Vrrrrummmm...

Insisti:

– Mas tem que ter um. Tem que ter. É esse? Aquele?

E continuei amolando o menino, esse?, aquele outro?, até que ele, para me satisfazer e continuar brincando em paz, pegou um carrinho aleatoriamente e mostrou:

– Tá. É esse. Vrrrruuummmm...

Só aí decidi deixar de ser chato e entendi: por que não gostar de todos? Por que precisamos classificar e rotular tudo? Óbvio, assim acalmamos o cérebro e a alma. Já decidi que o meu prato preferido é bacalhau a Gomes de Sá, pronto, não preciso mais pensar nisso.

Fiel a esse mau hábito, volta e meia classifico minhas preferências. Melhor compositor? Chico. Melhor intérprete: o Rei. Melhor texto? Capote. Melhor bebida? Chope. Melhor cidade? Paris.

Até que Londres me conquistou.

E Londres foi devagar e insinuante neste processo. Tive algumas experiências com ela, mas, quando passamos mais tempo um com o outro, durante a Olimpíada, percebi como ela era especial, como combinávamos e como eu tinha de me entregar. Agora, que estou voltando para a Velha Álbion a fim de cobrir o jogo da Seleção, confesso: é você, garota. Na verdade, sempre foi você.

Pequeno, muito pequeno

Londres pode ser dos Beatles ou dos Stones, de Churchill ou da Rainha Vitoria, de Jack o Estripador ou de Agatha Christie. Escolha. Eu fico com o rei Henrique VIII e suas seis mulheres. Gosto muito da história desse rei, porque ele foi um homem que usufruiu plenamente do seu tempo sobre a superfície da Terra.

Quando jovem, Henrique VIII era considerado o príncipe mais belo da Europa. Um dia, porém, machucou a perna e nunca mais se recuperou. Não podia mais fazer exercícios físicos. Como naquele tempo não havia refrigerante light, adoçante ou pão integral, o rei começou a engordar. No fim da vida, era um gordo mórbido que, para arrematar, emanava um cheiro putrefato do ferimento na perna.

Seu primeiro casamento foi com a viúva do seu irmão, a espanhola santarrona Catarina de Aragão. Mas ele logo se cansou dela, apaixonou-se pela belíssima Ana Bolena e resolveu se divorciar. Como a igreja católica não permitia o divórcio, Henrique rompeu com o papa e fez uma igreja para ele próprio, a Anglicana. Só que Ana Bolena também o aborreceu, e ele solucionou a questão mandando decapitá-la. A terceira mulher de Henrique, a quem ele amava com devoção, morreu de doença.

A quarta traiu-o com ordem e método, pelo que Henrique também deu um jeito de separar-se dela e, em seguida, separá-la da própria cabeça. A quinta foi indicada a ele por um ministro, mas naquele tempo não havia Facebook e Henrique só descobriu que ela era muito feia no dia do casamento. Arrependido, divorciou-se dela e mandou executar o ministro com toques sutis de crueldade. A sexta era uma mulher mais sensata: não traiu o rei, nem o incomodou e parece que era bem bonitinha. Ele ficou com ela até morrer.

De todas essas rainhas, a que mais gosto é Ana Bolena. Quando soube que iria ser executada, ela exigiu que o carrasco viesse da França, porque o instrumento de trabalho dele era a espada, não o machado. Você pode achar que não existe diferença, certamente porque você não conhece muito de decapitações.

O problema é que, com o machado, o condenado tem de deitar a cabeça no cepo. Às vezes, o verdugo errava o golpe, batia nos ombros ou na cabeça do réu, que sofria miseravelmente. Mas, com a espada, o carrasco dava o golpe lateralmente, podia enquadrar melhor o corpo, e, além disso, a lâmina da espada é maior do que a do machado. Então, se você for condenado à morte por decapitação, lembre-se de escolher a espada, como Ana Bolena. Pois bem, quando o verdugo francês chegou, ela levantou o cabelo, mostrou o pescoço e perguntou:

– É pequeno, muito pequeno, não é verdade?

Até na morte Ana Bolena foi uma mulher perturbadora.

Soneto de separação

Um dos mais belos poemas de Vinicius é o Soneto de Separação. Ele o escreveu em 1938, dentro do navio que o levava para Londres, olhando as ondas escuras do Atlântico e pensando na mulher amada que ficava no lado de baixo do Equador.

Neste dia em que também vou para Londres, lembrei dessa bela obra de Vinicius, até porque em outubro completam-se 100 anos do nascimento do poetinha. Leia e se emocione, meu velho:

De repente, do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente, da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.


O diário de Vic: 21 de outubro de 2012

Hoje começou o horário de verão, pra minha infelicidade.

E, pra completar, o meu hamster morreu.

Morreu afogado.

A gente deixava ele fora da gaiola.

Tapamos tudo que é buraco pra ele não fugir pra rua.

Tinha um balde na cozinha e ele pulou ali pra dentro.

Era de noite quando ele fez isso. Nós não vimos nada, pois estávamos dormindo.

De manhã, quando a mãe se acordou, viu o hamster dentro do balde.

Tinha que ver o fiasco que ela fez. Ela deu um grito e começou a chorar.

Até achei que tinha acontecido coisa pior.

Não sei como ele conseguiu entrar no balde. As paredes do balde são lisas e ele tinha as unhas muito compridas.

Se ele tentasse subir, ia acabar resvalando.

Pra mim é alguma coisa que tem na casa.

Sinal de morte de bicho dentro de casa não é boa coisa.

Agora deixa. Vou comprar outro.

RUTH DE AQUINO

A estupidez humana

Estou longe, em Londres. A noite dos desesperados de Santa Maria provocou em mim um sufocamento típico das testemunhas impotentes de um massacre estúpido.

Não foi um avião que caiu, não foi um maluco que saiu atirando, não foi uma tormenta que destruiu casas, não foi uma bomba terrorista que explodiu. Foi um conjunto de omissões e incompetências primárias, de Quinto Mundo. Segundos ou minutos bastaram para asfixiar, queimar, envenenar e matar 200 e tantos jovens num espaço de lazer. Eles eram ou poderiam ser nossos filhos. Saíram para dançar, voltaram num caixão. Irmãos, namorados, amigos.

Há uma faixa preta no braço de cada brasileiro. Há uma torcida emocionada pelos pais e mães que se internaram em quartos de hospital para acompanhar o drama dos filhos em UTIs.

Nosso luto é pela estupidez humana que transformou uma boate numa câmara de gás sem chance de salvação para centenas de rapazes e moças. O assassinato coletivo na boate Kiss ficará na história como uma das tragédias que poderiam ser evitadas se houvesse uma coisa apenas: responsabilidade. Faltou responsabilidade. Do prefeito. Dos donos da boate. Do Corpo de Bombeiros. Dos músicos. Dos seguranças.

Santa Maria, rogai por nós, pecadores do Rio de Janeiro, de São Paulo e de todas as capitais e cidades do Brasil. Em qualquer canto deste país, há armadilhas engatilhadas contra a vida.

Boates e casas noturnas estão com alvará vencido, superlotam, não têm suficientes saídas de emergência nem sinalização, os extintores são poucos, velhos, falsos ou não funcionam, as janelas dos banheiros estão lacradas, os músicos usam substâncias proibidas e baratinhas, o isolamento acústico é inflamável, os seguranças são treinados para intimidar, e não para salvar, os bombeiros demoram e não têm equipamento adequado.

Se uma boate em chamas precisa ser esvaziada em quatro minutos, um minuto de fechamento da única porta de saída para evitar “calote” equivale a um crime escabroso. Como dizia Einstein: “Só duas coisas são infinitas, o Universo e a estupidez humana, mas não estou seguro sobre o primeiro”. O país assiste agora, envergonhado, a um jogo de empurra sem vencedores. Ninguém assume nem responsabilidade parcial.

As leis existem. Mas, por corrupção, ganância, descaso, ignorância e, principalmente, por falta de fiscalização e punição, crianças caem de rodas-gigantes defeituosas, grupos afundam em barcos superlotados, moradores de prédios antigos são soterrados, bujões, fogos de artifício e bueiros explodem. Ninguém vai preso, a culpa se dilui e a mídia esquece. Até a próxima “fatalidade anunciada”.

O assassinato coletivo na boate Kiss poderia ter sido evitado por uma única coisa: responsabilidade

Em alguns países, como a Inglaterra, onde vivi sete anos, o risco é muito mais controlado. Sim, houve o Grande Incêndio de 1666, parte do centro de Londres foi dizimada em quatro dias de fogo, as casas são antigas com muita madeira – a História explica a obsessão contra o fogo. Mas é bem mais que isso. No DNA dos ingleses, existe a cultura da prevenção. Transmitida de geração a geração.

Pubs pequenos têm diversas saídas de emergência e vários extintores, os letreiros de Fire Exit são enormes e luminosos, o staff é treinado. Há ensaios frequentes e sem aviso prévio em estabelecimentos públicos e prédios particulares, chamados fire drills. Alarmes soam. As simulações ensinam a salvar nossa vida e a dos outros, com risco calculado. O país não quer celebrar heróis anônimos mortos em incêndios.

O correspondente da Globo News em Londres, Sílio Boccanera, esteve na British American Tobacco Company para uma palestra internacional. Um dos diretores abriu assim o encontro: “Bem-vindos. Algumas regras. Se tocar o alarme de incêndio, levem a sério, porque não há ensaio programado para hoje. E é proibido fumar”.

Sílio quis instalar uma tomada em seu banheiro. O eletricista se negou: “A Inglaterra proíbe tomada em banheiros. É muito risco”. Todas as tomadas precisam ser aparentes, nenhuma abafada. Qualquer apartamento alugado tem de ser vistoriado anualmente por técnicos de gás e eletricidade. Por lei, o responsável é sempre o proprietário. As multas por violar as Fire Regulations variam de 5 mil libras (R$ 17 mil) a dois anos de prisão. Sem ferir ou matar.

A obsessão com segurança se revela em muitos aspectos da vida na Inglaterra. Ninguém senta em corredores de teatros. Em dia de chuva, o funcionário do metrô pede por alto-falante que todos andem com cautela na plataforma subterrânea. Motorista que se aproxima demais de um ciclista ou um pedestre é reprovado no exame de habilitação. Só se atravessa rua na faixa.

Essas histórias mostram nossa única saída. A responsabilidade, pública e individual, com o espaço comum e com a vida de todos.



02 de fevereiro de 2013 | N° 17331
EDITORIAIS ZH

ELEIÇÃO CONSTRANGEDORA

A política tem a virtude de corrigir injustiças e promover reabilitações, mas apresenta também sua outra face mais sombria quando a imagem recuperada é o que existe de pior em qualquer democracia. É o que se configura com a eleição do senador Renan Calheiros para a presidência do Senado.

Calheiros é uma figura que não deveria ter, pelo histórico como político, uma nova chance de comandar a mais alta casa legislativa do país. É absurda a situação em que o novo presidente da Casa poderá ser, ao mesmo tempo, seu gestor e réu em processo baseado em denúncias que o procurador-geral da República encaminhou ao Supremo, nas quais o senador alagoano é acusado dos crimes de falsidade ideológica, peculato e uso de documentos falsos.

Os senadores elegeram Calheiros, apesar do anunciado constrangimento que enfrentariam. Esperava-se, após o julgamento do mensalão, que o Congresso adotasse algumas providências no sentido de moralizar suas atividades. Não há como esperar mudança de atitude com a decisão tomada ontem, quando Calheiros obteve ampla maioria para assumir a presidência.

Lembremos que o senador já desempenhou o cargo, ao qual foi obrigado a renunciar em 2007, depois de denúncias feitas pela imprensa de que recebia mesadas de uma empreiteira para pagar a pensão alimentícia de uma filha. Calheiros ainda tentou se defender, alegando que ganhara muito dinheiro com lucros fantásticos na venda de gado, mas foi obrigado a desistir. As notas fiscais do tal negócio eram frias, como consta da denúncia do procurador-geral encaminhada ao STF.

Mesmo assim, o político conseguiu ser reeleito, em 2010, e agora foi consagrado pelos próprios colegas. Obteve 56 votos, derrotando com facilidade Pedro Taques (PDT-MT). A estratégia que o reconduziu à presidência é a repetição de práticas condenáveis da política.

Calheiros distribuiu cargos, para obter apoios, mas esse clientelismo não basta para explicar o que ocorreu ontem. O novo presidente tem a admiração e a solidariedade de quase todos os partidos – ou não teria obtido votação tão expressiva –, porque sempre assumiu posições corporativas em defesa de colegas sob investigação. Foi assim que contribuiu de forma decisiva para que a CPI do Cachoeira, que investigava o bicheiro, se transformasse numa sindicância tão confusa, que não resultou em nada.

Calheiros é a expressão de todas as mazelas da política. Foi eleito e, é claro, tem o direito de exercer seu mandato. Foi escolhido ontem para a liderança da Casa e será empossado. Mas não há como aceitar sem questionamentos o fato de que teve o apoio maciço dos colegas, apesar de todas as denúncias que pesam contra ele. Por esse ato, o Congresso poderá, ainda este ano, enfrentar uma situação ainda mais complexa do que a provocada pelas condenações do mensalão.

Calheiros, se condenado pelo Supremo, poderá ser julgado pelo próprio Legislativo que o transformou em líder. Estaremos, mais uma vez, diante da vergonha de ver o Senado, e não só seu presidente, sendo julgado por seus atos.


02 de fevereiro de 2013 | N° 17331
CLÁUDIA LAITANO

Mais sorte que juízo

Ao dizer que os frequentadores de casas noturnas no Brasil têm “mais sorte que juízo”, o subcomandante do 4º Comando Regional do Corpo de Bombeiros, major Gérson da Rosa Pereira, acabou cunhando a frase que sintetiza o tipo de comportamento que causou, direta ou indiretamente, o desastre do último domingo. Mais do que isso: major Gérson expressou, inadvertidamente, uma verdade íntima nacional – um sentimento que todo brasileiro, em maior ou menor intensidade, já terá sentido alguma vez na vida, ou irá sentir.

Trata-se de uma espécie de modus operandi da nação. “Mais sorte que juízo” poderia substituir o “Ordem e Progresso” na bandeira e em todos os símbolos nacionais. Podia estar estampado nas notas de real, na entrada de hospitais e escolas, nos tribunais, em outdoors nas estradas, na letra do hino: “Onde te falta o tento/ O lábaro ostentas estrelado”.

Sorte é o que não nos falta mesmo. Não precisamos nos preocupar com terremotos, o que nos livra da chateação de planejar prédios que resistem a tremores de terra. No auge do inverno, o frio jamais é acompanhado daquelas inconvenientes tempestades de neve que dão trabalho e exigem organização.

Temos sorte porque ondas terríveis não arrebentam as nossas praias e porque o sol brilha quase o ano todo. Países solares costumam ser povoados por gente que não se deprime por qualquer coisa e que se acredita abençoada por morar em um lugar onde tudo o que se planta cresce e floresce.

O problema com a sorte é que ela não é infalível. Ninguém se responsabiliza pelo seu fornecimento regular e não temos de quem cobrar quando ela nos falta. É por isso que muitos países não tão afortunados quanto o nosso aprenderam a contar menos com a sorte do que com o juízo – que nada mais é do que tudo aquilo que podemos providenciar para não dependermos unicamente dos humores do acaso. O juízo, porém, não vem apenas de cima para baixo, na forma de leis muito boas, mas que ninguém respeita. Se o juízo não é prezado por todos, acaba valendo tanto quanto um trevo de quatro folhas na mão de quem não tem sorte.

Talvez por isso não foi apenas comoção o que se viu no Brasil nos últimos dias: foi pânico. O incêndio em Santa Maria assustou o país porque todos sabem que a irresponsabilidade dos donos daquela boate e daquelas autoridades que deveriam fiscalizá-la não é uma exceção, mas a regra – e não apenas em casas noturnas.

Vivemos em um país em que não podemos confiar em edifícios aparentemente sólidos, em parques de diversão aparentemente seguros, em hospitais aparentemente bem equipados, em creches com piscina, em motoristas – e em quem deveria nos proteger. Somos como um personagem de videogame desviando de arapucas em série: pisos que desaparecem, pontes que pegam fogo, tetos que desabam. Às vezes, temos sorte, mas nem sempre.

E, enquanto apenas a sorte nos parecer o bastante, o som de celulares tocando sobre o corpo de meninos e meninas que podiam ser nossos filhos – que eram nossos filhos – vai continuar nos assombrando. Como um lamento dilacerante, mas também como um pedido de explicações.


02 de fevereiro de 2013 | N° 17331
NILSON SOUZA

TV Senado

Vou confessar a verdade na primeira linha: não gostei do filme Lincoln, multi-indicado para o Oscar. Tudo bem, concordo que Daniel Day-Lewis merece a estatueta de melhor ator, mesmo sem ter visto todos os seus concorrentes. Ele é a própria figura da nota de cinco dólares.

E encarna o ex-presidente de forma tão convincente, que até a dona Mary Todd, se estivesse viva, poderia confundi-lo com o marido original. Sua atuação é exuberante, tanto nos silêncios quanto nos discursos – especialmente quando dá um tapa na mesa para não deixar dúvida de sua determinação em aprovar a emenda da emancipação dos escravos.

No mais, é como assistir à TV Senado. O filme se arrasta numa interminável sucessão de diálogos protagonizados por figuras encapotadas e sombrias. Politicagem pura – e da pior espécie. O mito do presidente heroico, que foi assassinado no exercício do cargo depois de administrar o fim da Guerra da Secessão e de manter o país unido, fica arranhado pelas negociatas mostradas pelo filme.

Não conheço a fundo a história norte-americana, mas aquele Lincoln mostrado no filme, que autorizou a compra de votos de parlamentares e a concessão de empregos e favores para os cooptados, seria facilmente condenado pelo ministro Joaquim Barbosa. No mínimo, seria enquadrado na teoria do domínio do fato.

O que me desencantou no filme foi a falta de ação e de emoção. Mais de duas horas de debate político é um pouco demais para mim. A colega Rosane de Oliveira adorou, mas este é o ramo dela. Achou os diálogos inteligentes, os textos ótimos. Tudo bem, disso não discordo. Mas seu Spielberg podia ter dado um pouquinho mais de movimento naquele blá-blá-blá.

Antes que me crucifiquem, pois ultimamente as pessoas andam pouco tolerantes com quem manifesta sua opinião, quero reconhecer que o filme certamente mexe com o sentimento de patriotismo dos americanos. O presidente assassinado é um herói nacional, foi o grande responsável pelo fim da escravidão no país – e só isso já é suficiente para o lugar de honra que ostenta na história da América.

Porém, uma coisa é a história, outra é o filme que busca recontá-la para um público de outro século. E nem da história gostei muito: fica a impressão de que subornar parlamentares e oferecer cargos em troca de votos é uma prática indissociável da democracia. Tudo por uma boa causa, é verdade. Mas não é isso o que dizem todos os governantes que incorrem em irregularidades para alcançar seus propósitos?

Preferiria não ter visto.


02 de fevereiro de 2013 | N° 17331
DIOGO OLIVIER

Um caso de amor

Ao aceitar a reserva de Dida com abnegação mesmo depois de um 2012 bom, o goleiro Marcelo Grohe cresceu no conceito dos torcedores, que o consideram uma extensão sua no campo

Há um aspecto intrigante nesta paixão gremista por Marcelo Grohe, o personagem da semana no futebol brasileiro. Se ele não é um supergoleiro, um gênio da camisa 1, se não é assim um novo Danrlei, embora seja bom e tenha todas as ferramentas para cumprir uma carreira de sucesso, de onde vem tanto amor?

Todos viram e sentiram o pulsar feliz da Arena lotada ao vê-lo como seu primeiro herói. Mesmo antes, quando o Grêmio anunciou Dida, um nome consagrado, manifestações em sua defesa escorreram pelas redes sociais. De onde vem, insisto, tanto carinho da torcida pelo homem que colocou o Grêmio na Libertadores ao defender aquele pênalti, reeditando Galatto na Batalha dos Aflitos?

É que Marcelo Grohe é muito gremista. O torcedor se enxerga, através dele, fardado e correndo pela grama rala e falhada da Arena. Trata-se de alguém que coloca o Grêmio em um pedestal, acima de tudo. Acima, inclusive, de si mesmo.

Quando todos imaginavam que ele pediria para sair após a humilhação de voltar à reserva mesmo tendo terminado 2012 entre os cinco melhores da posição, qual foi sua atitude? A de aceitar em silêncio o flagelo público. Não se ouviu uma resposta, uma ironia, um gesto de tristeza. Até sorriu. Se o Grêmio entendia que aquela era a melhor maneira dele ajudar, que assim fosse.

Outros goleiros, igualmente gaúchos e gremistas, não aceitaram situações similares à que Grohe foi submetido. O exemplo mais recente e famoso é o de Cássio. Protagonista na Libertadores vencida pelo Corinthians em 2012, se rebelou contra o não-aproveitamento, em 2007. Por cinco anos, até Tite confiar nele, penou entre PSV e Sparta, da Holanda, com um único objetivo: ser titular e alcançar o estrelato. Cássio colocou a carreira em primeiro lugar em vez de esperar por uma chance no Olímpico – o que não tem nada de errado, vale dizer.

Marcelo Grohe, não. Grohe acatou a reserva com obediência servil por que o seu Senhor é o mesmo do torcedor: o seu clube do coração.

O Grêmio, para Grohe, está acima das vaidades pessoais.

Daí, tanto amor.

SANTA MARIA, 27/01/2013

Existe uma arma de precisão contra este jogo de empurra entre os agentes direta ou indiretamente envolvidos na tragédia de Santa Maria. Uma arma que não dispara nem tiro de festim e que está ao meu e ao seu alcance, você que se arriscou a ler esta coluna, num gesto de bondade, prazer ou sacrifício: a cidadania exercida com radicalismo.

O Rio de Janeiro, por exemplo. Lá, os traficantes não desapareceram, mas não são mais eles que determinam quem sobe no morro. O Complexo do Alemão agora tem até bondinho. Os turistas, inclusive, andam preferindo um passeio sobre a favela pop à versão mais famosa, no Pão de Açúcar. As Unidades de Polícia Pacificadoras, consagradas como UPPs (a de número 30 foi inaugurada na semana passada, no Jacarezinho), estão no centro desta revolução.

Mas o que as UPPs têm a ver com Santa Maria? É que a derrota do tráfico no Rio, ainda que parcial, só tomou corpo quando as comunidades assumiram papel ativo nesta luta. Os moradores ligam para a polícia e, com denúncias anônimas, entregam a localização dos traficantes nos labirintos dos morros.

Assim, fez-se a luz. O que parecia impossível aconteceu: cenas de criminosos presos inundaram o Jornal Nacional. Sem o exercício da cidadania, a polícia ainda estaria atrás dos bandidos.

Agora que sabemos tudo sobre espuma tóxica, lotação máxima, uso correto e incorreto de fogos, capacitação de funcionários, portas de emergência ou sinalização de saída, temos o dever de denunciar. Pode ser um telefonema para o Corpo de Bombeiros ou Prefeitura, um toque no dono do estabelecimento, quem sabe até uma queixa na delegacia. Vai de cada um o instrumento, o tom e a intensidade da crítica.

Se produzirmos uma onda cidadã, as casas noturnas entrarão nos eixos na marra e o poder público será obrigado a correr em vez de fiscalizar a passo de tartaruga. Só depende de nós.

O fato é que não podemos esquecer este 27 de janeiro de 2013. E a melhor homenagem às 236 vítimas que celebravam a vida quando encontraram a morte é fazendo a nossa parte para que isso nunca mais se repita.

Cruzeiro tem novo técnico

O técnico Benhur Pereira está de volta ao Cruzeiro.

Ele substitui Beto Campos, demitido na manhã de ontem após o início irregular no Gauchão. A estreia oficial será amanhã, às 18h, quando o time busca a primeira vitória no Gauchão contra o Canoas,na Ulbra.

Benhur Pereira foi técnico do time em 2011, quando chegou às semifinais nos dois turnos – e foi eliminado pelo Grêmio em ambos. As vantagens no acerto são, segundo ele, o conhecimento do grupo e a proximidade da família – o técnico mora em Novo Hamburgo.

– Para mim é bom em vários sentidos. Nós conhecemos o grupo, a maioria dos jogadores é do meu tempo. Deve ter três, quatro novos, então facilita. A casa eu conheço bem. O Cruzeiro não está em um bom momento,mas nós vamos tentar ajeitar – disse.

Em três jogos, o Cruzeiro tem apenas dois pontos e não marcou gols no Gauchão. Mesmo com o começo conturbado, Benhur confia na recuperação ainda no turno.

A saída do Estrelão, mesmo sem o novo estádio em Cachoeirinha pronto, é um dos problemas do clube, na visão de Benhur. Para ele, seria interessante até mesmo mandar os jogos em Canoas.

– O Cruzeiro não tem casa. Teve essa dificuldade que é o campo sintético. Se eu tiver esse poder de mudar os jogos para Canoas, eu solicitarei. Já tinha conversado com a direção no dia do encerramento do Estrelão. Eu disse que o fator local seria prejudicial.


02 de fevereiro de 2013 | N° 17331
PAULO SANT’ANA

Paim surpreendeu

É de relativa surpresa que o senador Paulo Paim (PT-RS) tenha votado ontem em Renan Calheiros para presidente do Senado Federal.

Paim declarou que votaria com seu partido, o PT.

Não é surpresa que o PT tenha eleito Renan Calheiros ontem. O PT há muito tempo já foi desvirginado.

Surpresa é o Paim, que tinha ainda o hímen quase íntegro e ontem foi tudo para as cucuias.

O que terá levado o Paim a votar em Calheiros, o assecla de Sarney?

Fidelidade partidária não foi. Tantas vezes o Paulo Paim já tinha sido infiel ao PT, uma vez mais não teria feito diferença.

Foi por interesse pessoal que o Paim deu esse infeliz voto?

Será que o Paim não percebeu que o eleitorado que prega a moralidade esperava que ele não fosse ceder à tentação do poder?

O fato é que Paim era um dos últimos baluartes da ética. E, com esse seu infausto voto, não há mais em quem o eleitorado possa confiar.

Mudando de assunto, quanto à mulher, encaro-a como encaro o camarão: quanto maior for o crustáceo, menos delicioso será.

Por isso sempre gostei de mulher pequena, baixa.

Uma coisa é grande mulher, outra é mulher grande.

Tenho informações de que Gioconda (o modelo dela) e Madame Pompadour eram baixinhas.

E também resta um detalhe: quando a mulher é pequena, tem pés pequenos, portanto com maiores chances de serem bonitos.

Pés femininos grandes quase nunca são bonitos.

Quanto à tragédia de Santa Maria, quantas dezenas ou centenas de casas noturnas estavam portando as mesmas eventuais irregularidades naquela noite?

No entanto, a tragédia ocorreu só na Boate Kiss.

Por isso é que afirmo a importância da fatalidade.

Às outras todas que estavam e vão continuar estando irregulares, nada aconteceu.

Isso é a fatalidade.

Faleceu há dias Wilson Müller, que foi homem público e trabalhou longos anos conosco aqui na RBS.

Ele só deixou agradáveis lembranças, desde que foi implacável escudeiro de Maurício Sirotsky.

O Wilson Müller foi daqueles sujeitos perfeitos: nunca brigou com ninguém, sempre estava de bom humor e tinha uma virtude quase desaparecida: nunca falou mal de ninguém. Isso é raro.

Passou assim pela vida a distribuir sorrisos e a quebrar os galhos dos outros.

Um homem assim não deixa de ser memorável.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013


CÁSSIO STARLING CARLOS - CRÍTICO DA FOLHA

Filme convencional, "O Lado Bom da Vida" vibra graças aos atores

Indicado a oito Oscar, longa se entrega a um romantismo banal, mas explora ao máximo a capacidade de seu elenco

A ASTÚCIA CONSISTE EM BANALIZAR A PERTURBAÇÃO, TRAZER O DISTÚRBIO PARA O COTIDIANO

Para um filme de amor dar certo, antes bastava juntar um cara carente e uma garota bonita, às vezes solitária, ou vice-versa, temperar com um pouco de dificuldades e, pronto, funcionava a receita de abraços e beijos na medida para suprir nossa fome de afeto.

"O Lado Bom da Vida" mostra que aquela fórmula não foi superada, mas exige um pouco mais de amargor.

Agora o príncipe é maníaco-depressivo e a princesa, ninfomaníaca, depois de viverem perdas que justificam a descompensação. Nada muito grave, apenas o bastante para fazê-los parecidos com gente como a gente.

A astúcia da adaptação para o cinema do best-seller de Matthew Quick consiste em banalizar a perturbação, trazer o distúrbio para o cotidiano, afastando-o da experiência de exceção.

Afinal, hoje, quando qualquer melancoliazinha já vira depressão, não conseguimos definir os limites onde começa e acaba a tal normalidade.

Ou seja, o que Pat (Bradley Cooper) e Tiffany (Jennifer Lawrence) entregam de cara ao público é um espelho, uma afeição imediata garantida pelo sentimento de quem reconhece: "Pô, eu já vivi isso!".

O diretor David O. Russell, que se destacou no terreno do cinema indie nos anos 1990, aproveita esse tipo de projeção com ângulos sempre muito próximos, íntimos mesmo, dos corpos.

A imagem, em formato scope, absorve ainda mais o olhar, que fica imerso em constantes closes, sem ter para onde escapar, refém da desorientação de Pat e Tiffany.

A instabilidade da câmera na mão, mais que repetir o estereotipado efeito de realismo, serve para enfatizar o distúrbio, captar a turbulência de afetos.

Tais supostas liberdades de estilo, no entanto, não trazem nada de novo ou original nem oferecem respiro para o convencionalismo, que se impõe a partir do momento em que o filme se entrega a um banal romantismo.

A vantagem é que "O Lado Bom da Vida" de fato vibra graças aos atores, explora ao máximo a capacidade deles de alcançar veracidade ou exibir histrionismo.

Enfim, um filme que todo mundo quer ver na temporada de prêmios e torcer pelo triunfo de seus intérpretes na noite do Oscar.

O LADO BOM DA VIDA

DIREÇÃO David O. Russell
PRODUÇÃO EUA/2012
ONDE Espaço Itaú - Augusta, Tamboré Cinemark e circuito
CLASSIFICAÇÃO 14 anos
AVALIAÇÃO bom

RICARDO CALIL - CRÍTICO DA FOLHA

Com grandes interpretações e canções, filme é longo demais

Poucos gêneros cinematográficos esbarram tanto nas idiossincrasias de críticos e espectadores quanto o musical clássico -e, mais especificamente, as adaptações de blockbusters da Broadway para o cinema.

Tomemos o caso da vez: "Os Miseráveis". Para quem fica arrepiado só de pensar em personagens que soltam a voz sem motivo aparente, as quase três horas de cantoria ininterrupta e, em geral, lacrimosa do filme serão uma sessão de tortura.

Essa parcela do público sentirá uma estranha empatia com os sofrimentos de Jean Valjean (Hugh Jackman) - que já na primeira cena precisa carregar um enorme mastro sozinho- e Fantine (Anne Hathaway) -que tem os dentes arrancados sem anestesia.

Mas, para aqueles que têm Times Square como uma meca, "Os Miseráveis" é tudo que pediram ao Alá dos musicais: grandes interpretações, grandiosas canções, grandiloquentes cenários.

A esses, a ideia de que a máxima miséria deve ser retratada com a máxima opulência jamais parecerá contraditória, personagens que precisam solfejar cada nuance de seus sentimentos nunca serão excessivos.

Para quem gosta de um Fred Astaire aqui, um Gene Kelly acolá, mas tem alergia a qualquer tipo de pompa -como este crítico-, "Os Miseráveis" será simplesmente um filme longo, muito longo.

OS MISERÁVEIS

DIREÇÃO Tom Hooper
PRODUÇÃO Reino Unido, 2012
ONDE Pátio Paulista, Espaço Itaú Pompeia, Iguatemi e circuito
CLASSIFICAÇÃO 10 anos
AVALIAÇÃO regular

ELIANE CANTANHÊDE

Saudade do dr. Ulysses

BRASÍLIA - O PMDB mantém hoje o terceiro cargo na linha sucessória (presidência do Senado) e ganha o segundo (a da Câmara) na próxima segunda-feira, mas pode começar a perder o primeiro (a Vice-Presidência da República) a partir da terça.

Reportagem de Natuza Nery, ontem na Folha, dá contornos ao mapa que Lula desenha para as eleições de 2014 e aponta uma linha cruzada: Michel Temer sai da Vice-Presidência e Gabriel Chalita entra na cabeça de chapa para destronar os tucanos do governo de São Paulo. O PMDB trocaria a vice pelo Bandeirantes.

Tudo para pôr Eduardo Campos (PE) na vice e explodir sua pretensão de sair da base aliada para se lançar candidato contra Dilma. Ele é o eixo sobre o qual todos os demais atores de 2014 se movem.

A construção não parece nada fácil, com resistências de todos os lados, a começar dos principais interessados: PT, PMDB, Temer e Campos. Mas as histórias das candidaturas de Dilma Rousseff ao Planalto e de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo desautorizam o descrédito de analistas e o desdém dos que sonham com o Bandeirantes. Quando Lula quer, Lula pode.

Ele sabe que Campos, a favor, quebra o maior galho, mas, contra, vira um problemão. Tanto que é disputado a tapa por Dilma, a favorita, e por Aécio Neves, virtual nome do PSDB. Com uma diferença: os petistas têm muito mais cacife para segurar Campos do que os tucanos para atraí-lo.

Mas, ao admitir trocar Temer (e o PMDB) por Campos (e o PSB), Lula eleva o passe do pernambucano à estratosfera. Com chance de ser vice da chapa mais forte, por que ele aceitaria ser na mais fraca? A ideia de ser vice de Dilma pode até lhe dar a chance de tentar inverter a chapa de oposição para Campos-Aécio.

Dê o que dê a roleta de Lula, o PMDB é vencedor. Deve ter o Senado com Renan, a Câmara com Henrique Alves e -dúvida atroz- disputar a Vice-Presidência ou o governo de São Paulo. E seja o que Deus quiser.

Jaime Cimenti

Romance de formação sobre mundo globalizado

Gringo é o segundo romance de Airton Ortiz publicado pela Editora Record. Ortiz, gaúcho nascido em 1954, é jornalista, escritor e fotógrafo e se notabilizou nos últimos anos por seus 15 livros sobre viagens radicais. Criador do gênero jornalismo de aventura, Ortiz recebeu muitos prêmios e gosta de desbravar o planeta caçando aventuras em meio à natureza selvagem e outros cenários.

A narrativa de Gringo é dramática, divertida, psicologicamente verdadeira e emocionalmente realista. Romance de formação narrado em ritmo de videoclipe, surpreende pelo número de incidentes e reviravoltas. Gringo mostra as peripécias de um brasileiro comum, mas que, por uma série de circunstâncias, acaba fazendo uma longa viagem pela América do Sul.

À medida em que vai percorrendo o continente, a relação com outros mochileiros e o contato com paisagens e culturas diferentes fazem com que descubra um mundo extraordinário, que ele nem imaginava existir. Um mundo que o amedronta, mas que, ao mesmo tempo, o desafia.

Escalando montanhas congeladas, navegando por lagos em altitudes extremas, percorrendo planaltos salgados e atravessando cordilheiras por entradas sempre à beira de penhascos, o protagonista Victor conduz o leitor por caminhos improvisados, lugares mágicos, animais selvagens e humanos traiçoeiros.

Muitas vezes, isso tudo acontece no mesmo dia. As longas viagens de ônibus e o desconforto dos trens, a vida nos hostels com seus encontros e desencontros, as pessoas confiáveis e as decepções, enfim, a situação ideal para cada um se pôr à prova e descobrir que tipo de pessoa é, tanto de maneira física, emocional, psicológica quanto espiritual.

As pessoas sucumbem ou se adaptam ao mundo real e sobrevivem da maneira como conseguem. Com esse romance, Airton Ortiz traz para a literatura brasileira o mundo globalizado, com personagens percorrendo diversos países e sofrendo influências de fatos ocorridos em lugares distantes.

A obra também tem o mérito de trazer para o público leitor palavras utilizadas pelo “povo da estrada”, mas que ainda não fazem parte de nosso vocabulário. Enfim, o autor de Cartas do Everest e outros livros de sucesso, nesta narrativa, mostra que a vida é uma grande viagem dividida em pequenos roteiros, alguns insignificantes, outros de grande importância. A jornada narrada em Gringo faz o viajante ter uma percepção de si mesmo, do mundo e das pessoas mudada. Uma viagem essencial. Record, 352 páginas, mdireto@record.com.br. 


Jaime cimenti

Grande, saudoso, Jaçanã!

Em Pelotas, antes de apelidarem o Jorge Henrique de Oliveira Mascarenhas de Mendonça Falcão e Barros de Jaçanã, ele viveu com a mulher e os filhos, mais ou menos tranquilo, durante uns 40 e poucos anos, na última metade do século XX.

Os filhos cresceram, voaram do ninho. Jaçanã passou a voar um pouco mais que antes  para  outros ninhos, visitando umas pombinhas. Dona Mariazinha, a mãe dele, foi ficando velhinha, meio doentinha, e ele explicava, em casa, para a esposa e para as pombinhas, quando exigiam demais a sua presença, que não podia ficar nem mais um minuto com elas, que precisava pegar um trem das onze e não deixar a mãe adoentada, sozinha,  sem dormir, tipo assim na canção  do Adoniran Barbosa.

O apelido do Jorge, veio, claro, do nome do distrito de São Paulo, mencionado nos versos. Os daquela época contam que as coisas foram acontecendo sem problemas, que as mulheres até ficavam com pena de Jorginho, o Iquinho, coitado, filho único e dedicadíssimo.

Claro que elas se assustavam com a possibilidade de cuidar de uma sogra idosa e doente e iam levando a situação na manha do ganso. Mas fofoca daqui, conversa dali, a mulher do Iquinho e três pombinhas acabaram se comunicando e descobrindo o esquema. Pior: descobriram que a dona Maria não estava tão doente assim e que o Iquinho andava fazendo umas viagens misteriosas para Rio Grande.

Tanto foi que, um dia, Jaçanã chegou na casa de dona Maria e encontrou a esposa e as três pombinhas tomando chá e comendo bolachas Maria. Logo começou a discussão acalorada, logo foram desmascarando o pobrezinho do Jaçanã, chamando-o de um monte de coisas. Ele, elegante, impávido, fazendo jus ao pedigree familiar, não entrou no bate-boca. Disse que não gostava nada, nada daquela baixaria, que elas que se entendessem.

Saiu e disse que só voltaria quando o clima civilizado retornasse. Disseram, na época, no Café Aquarius, que ele se mandara para Rio Grande, para refletir em frente ao mar e só voltou quando a poeira e os ânimos tinham se acalmado.

Disseram que dona Maria tinha piorado, que o Jaçanã teve que passar a cuidar mais dela. Disseram que ele precisou acalmar a patroa de todos os modos e que teve de dar um tempo na ideia de refazer a coleção de pombinhas, que tinham esvoaçado para longe. Uns dizem que em Rio Grande, quando a coisa apertava, ele falava para as três namoradas de lá que precisava cuidar da mãe em Pelotas.

Grande, saudoso, Jaçanã! Jaça para os íntimos. Lembrança que fica. No seu túmulo quase sempre tem flores, recordações e lágrimas frescas. Dona Mariazinha jaz ao lado.
Jaime Cimenti


01 de fevereiro de 2013 | N° 17330
PAULO SANT’ANA

Férias dos jornalistas

Escrevi aqui que o gaiteiro do conjunto que atuava na boate em Santa Maria onde ocorreu a tragédia conseguiu escapar da fumaça e das chamas mas esqueceu sua gaita lá dentro do inferno. E que, retornando para recuperar seu instrumento, encontrou a morte.

O gaiteiro mais famoso e conhecido do Rio Grande, Renato Borghetti, mandou-me a seguinte mensagem a esse respeito: “Só hoje li tua coluna sobre o gaiteiro e sua gaita. Emocionante, parabéns”.

Jornalista não tem folga, é que nem policial: está sempre em serviço.

Agora mesmo, na tragédia de Santa Maria, inúmeros jornalistas correram para as redações de seus jornais, rádios e televisões e foram trabalhar nas informações para seus leitores, ouvintes e telespectadores. Alguns ainda se encontram trabalhando.

É o caso, por exemplo, da diretora de Redação de Zero Hora, Marta Gleich, que estava de férias em Santa Catarina quando eclodiu a tragédia e se mandou de lá para cá para reassumir suas funções.

Dois ou três dias depois, voltou a Santa Catarina para buscar seus filhos, que assim viram interrompido o veraneio. E está trabalhando até agora, férias só no ano que vem.

Só cito o exemplo da Marta porque é o mais próximo de nós. Mas tantos outros jornalistas interromperam suas férias e folgas para cobrir o infausto acontecimento.

Jornalista está sempre em serviço, até nas férias.

Ponham-se no meu lugar. Eu estava na Arena, e ia ser chutado um pênalti decisivo contra o Grêmio.

Sabia eu quanto era importante, financeira e institucionalmente, para o Grêmio classificar-se para a etapa de grupos da Libertadores. E tudo podia se decidir naquele pênalti.

Portanto, é inequívoco que eu torcia para que o jogador da LDU chutasse o pênalti nas nuvens ou nas traves ou, então, que o Marcelo Grohe, vejam bem a ironia do destino, defendesse o pênalti. Era tudo o que eu queria. Se o Grêmio perdesse nos pênaltis, eu voltaria da Arena arrasado.

Acabou o Marcelo Grohe defendendo e eu realizando o meu sonho gremista.

Eu e toda a torcida que estava na Arena torcendo nervosamente por nosso clube.

O ano do Grêmio foi salvo pelo gol de Elano e por aquela bola chutada que foi de encontro à perna de Marcelo Grohe, tanto que já foi anunciado pela diretoria gremista que jogaremos com nossos reservas o Gre-Nal do próximo domingo. E o Inter jogará com seus titulares.

No entanto, não foi nada boa ou satisfatória a atuação gremista contra a LDU. Disfarçada pelo impacto da decisão em nosso favor, restou-nos a impressão de uma pálida atuação do Grêmio.

Para irmos adiante nesta Libertadores, teremos de esperar por dois fatores: que o time melhore daqui para a frente e que a direção providencie reforços para aparelhar nosso grande treinador, Luxemburgo.

Mas pelo menos garantimos seis jogos na próxima fase. Embora sonhemos que nosso time dispute os 14 jogos que levam ao título.


01 de fevereiro de 2013 | N° 17330
DAVID COIMBRA

Eles eram filhos

Desta vez, me pegou. Já vi coisa feia nessa profissão. Já fui repórter de polícia, já fui repórter de todas as editorias, testemunhei acidentes com mutilações graves e tumultos sangrentos, violências e exumações, revolta e dor.

Vi a miséria humana. Mas, agora, essa tragédia de Santa Maria me abalou. Não por causa das cenas horrendas dos corpos no chão do ginásio, naquele momento em que caminhei pelas sombras do vale da morte. Não. Isso foi chocante, claro que sim, mas não foi o que me ficou no peito. O que me matou por dentro é que ali todos eram filhos.

Filhos.

Uma pessoa, quando ganha um filho, deixa um pouco de ser, ela mesma, filha. Sua condição muda. Agora ela não é mais apenas receptora, é também doadora de amor.

A realização do ser humano é tornar-se doador de amor, mais do que receptor. Claro, essa realização não se dá apenas com a paternidade e a maternidade. Padrinhos e madrinhas, tios e tias e até amores românticos podem suprir essa necessidade de amar.

Mas o objeto de amor, o filho, enquanto ele vive só na condição de filho, é como se ele estivesse no começo, como se estivesse na fase de estreias da existência. Há muito ainda pela frente e, por ele não saber o que há pela frente, há quem o vele e guarde – são os seus pais.

Um filho que já teve filho lega a seus próprios pais outro ser para guardar e velar: o neto. Quer dizer: o amor que os pais tinham por aquele filho, de certa forma, é um amor já realizado, como o de amantes que se casaram. O amor continua, mas, por ser realizado, é um amor aplacado da gana e da fúria, é um amor sem ansiedade, um amor de primavera, não de verão.

Já um filho que ainda não teve filho é objeto de um amor pulsante, um amor aflito, que acorda de madrugada para contar a ausência do ser amado no relógio.

Os jovens que estavam deitados sem vida no ginásio de Santa Maria encontravam-se nessa condição. Eles eram filhos. Raríssimos deviam ser pais. Talvez nenhum o fosse. Não por acaso, o celular de um deles tocava sem parar, 10, 20, 30 vezes. Os voluntários olhavam para o celular, depositado sobre o peito do jovem morto e liam no painel quem chamava: “Mãe”.

Foi isso que me pegou: pensar nas mães e nos pais daqueles meninos e meninas. Porque todos acham que os filhos são dependentes dos cuidados dos pais, quando é o contrário: os pais é que são dependentes do bem-estar dos filhos. Pois, afinal, o amor que se dá é muito mais valioso do que o amor que se recebe. Pois, afinal, amar acaba sendo mais importante do que ser amado.