07 de Setembro de 2026
CLAUDIA LAITANO
História sem fim
Em setembro de 1997, a Veja publicou uma reportagem que escancarava o óbvio: todo mundo conhece alguém que já fez - ou ainda vai fazer - um aborto. Talvez você ainda lembre da manchete, "Eu fiz aborto", e das imagens de mulheres famosas (Hebe Camargo, Marília Gabriela e Cássia Kiss, entre outras) admitindo terem interrompido gestações não desejadas. Atrizes, cantoras e intelectuais, mas também operárias, domésticas, donas de casa e mães de família narravam à revista suas experiências pessoais, cada uma com sua dose particular de sofrimento, vergonha e alívio.
A reportagem que inspirou a histórica capa da Veja havia sido publicada 25 anos antes, em 1972, na revista Ms., criada e dirigida pela escritora e ativista norte-americana Gloria Steinem. Menos de um ano depois da publicação, a Suprema Corte dos EUA decidiu, por 7 votos a 2, que a Constituição protegia o direito à privacidade, o que incluía a decisão de abortar. Gloria Steinem morreu na semana passada, aos 92 anos, tendo vivido o suficiente para assistir à insólita volta da pasta de dentes para dentro do tubo: em 2022, a mesma Suprema Corte revogou a decisão de 1973.
A causa da liberdade reprodutiva era especialmente cara para Gloria Steinem, uma das figuras mais reconhecidas - e ativas - do feminismo mundial. Em 1969, cobrindo um evento sobre aborto, Steinem experimentou o que ela mesma chamou de "grande estalo" feminista. Ali estavam mulheres que se sentiam envergonhadas por não quererem, ou não poderem, levar uma gravidez adiante. Alguma coisa estava muito errada.
Ela mesma havia feito um aborto, em 1957, aos 22 anos. O médico que a atendeu pediu duas coisas: que ela não revelasse seu nome e que fizesse o que bem entendesse com sua vida a partir daquele dia. Anos depois, Steinem dedicaria seu livro de memórias, Minha Vida na Estrada (2016), a esse médico sensível e corajoso, acrescentando: "Fiz o melhor que pude".
Não deixa de ser tristemente irônico que Gloria Steinem tenha morrido na semana em que estourou a maior crise da história do STF, a instância que tem atuado como o principal canal de garantia dos direitos reprodutivos assegurados pela Constituição brasileira. Enquanto o Congresso paralisa o debate ou propõe o endurecimento da legislação, o STF tem fundamentado suas decisões em preceitos constitucionais como dignidade humana, laicidade do Estado e direito à saúde.
No Brasil, como nos Estados Unidos, essa história ainda está sendo escrita - por homens e mulheres. Mas sem uma Suprema Corte forte e independente para zelar pela Constituição fica tudo muito mais difícil.

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