segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Ainda Precisam de Mim?

Durante muitos anos, seu Antônio foi o homem a quem todos telefonavam. -  Pai, o carro está fazendo um barulho estranho. -  Pai, você acha que vale a pena financiar ou esperar mais um pouco? -  Pai, como é mesmo que se escolhe uma melancia boa? -  Pai, o menino está com febre.

Você acha que devemos levá-lo ao pronto atendimento? Não importava muito o assunto. Às vezes, ele nem sabia a resposta. Mas pensava, perguntava alguma coisa, lembrava de uma situação parecida e dava sua opinião. Gostava disso.

Nunca contou a ninguém que gostava. Pais de sua geração não costumavam dizer que gostavam de ser necessários. Apenas atendiam ao telefone e diziam: -  Deixa eu pensar. Os anos passaram. Os filhos aprenderam a resolver os próprios problemas.

Depois vieram os aplicativos, a internet, os tutoriais, os especialistas para tudo. E seu Antônio envelheceu. Os filhos eram excelentes. Não lhe faltava nada.

Um deles pagava suas contas pelo celular. Outro marcava as consultas. A filha comprava os remédios e organizava os comprimidos numa caixinha com os dias da semana. O neto instalara um aplicativo para que ele pudesse pedir comida sem sair de casa.

Quando a televisão deixou de funcionar, ninguém perguntou o que poderia ser. Compraram outra. Quando surgiu uma infiltração na parede do quarto, chamaram um profissional. Quando precisaram vender o carro, pesquisaram o preço na internet.

Tudo funcionava perfeitamente. Talvez esse fosse o problema. Seu Antônio começou a perceber que havia se tornado destinatário de perguntas muito parecidas: -  Tomou o remédio? -  Está sentindo alguma coisa? -  Quer que eu passe aí? -  Está precisando de alguma coisa?

Respondia quase sempre: -  Não. E estava dizendo a verdade. Não precisava de nada. Tinham cuidado tão bem dele que haviam conseguido uma façanha: torná-lo absolutamente desnecessário. Numa tarde de domingo, o neto apareceu.

Tinha vinte e poucos anos e uma dúvida enorme, dessas que aos vinte e poucos anos parecem decidir o resto da existência. Recebera uma proposta de emprego em outra cidade. Sentou-se diante do avô.

Conversaram durante algum tempo até que o rapaz perguntou: -  Vô, se fosse você, o que faria? Seu Antônio ficou em silêncio. O neto pensou que ele não tivesse ouvido. -  Eu perguntei o que o senhor faria. Ele havia ouvido.

Só fazia muito tempo que ninguém lhe perguntava aquilo. Endireitou-se na cadeira. Quis saber quanto o rapaz ganharia, onde iria morar, se gostava do emprego atual, se tinha alguém que deixaria para trás.

O neto respondeu a tudo. Conversaram por quase duas horas. Seu Antônio contou de quando, ainda jovem, recusara um emprego melhor porque não quis deixar a cidade onde havia conhecido aquela que seria sua mulher. Disse que nunca soubera se tomara a decisão certa. -  E o senhor se arrependeu?

Ele pensou um pouco. -  Das decisões certas a gente também se arrepende de vez em quando. O neto riu. Antes de ir embora, abraçou-o e disse: -  Obrigado, vô. Eu precisava conversar com o senhor. Naquela noite, a filha telefonou.

Como sempre, perguntou: -  Pai, está tudo bem? Precisa de alguma coisa? Seu Antônio respondeu: -  Não. Hoje não. E sorriu depois de desligar. Talvez a pergunta que fazemos aos nossos velhos esteja errada.

Perguntamos constantemente do que eles precisam. Poucas vezes mostramos que ainda precisamos deles. Providenciamos médicos, remédios, comida, transporte, companhia e segurança. Fazemos isso por amor.

Mas, algumas vezes, de tanto protegê-los das dificuldades, também os protegemos da possibilidade de continuar participando da nossa vida. Há uma diferença enorme entre ser cuidado e ser necessário.

Talvez, de vez em quando, em vez de perguntar: -  Pai, precisa de alguma coisa? devêssemos sentar ao seu lado e dizer: -  Pai, preciso de você. O que você acha que eu devo fazer? Pode ser que ele não tenha a resposta. Não importa.

Naquela tarde, alguém voltou a ocupar um lugar que nunca deveria ter perdido. Porque há pessoas que não têm medo de morrer. Têm medo de descobrir que deixaram de fazer falta enquanto ainda estavam vivas.  


 

Nenhum comentário: