Ainda
Precisam de Mim?
Durante muitos anos, seu
Antônio foi o homem a quem todos telefonavam. - Pai,
o carro está fazendo um barulho estranho.
-
Pai, você acha que vale a pena financiar
ou esperar mais um pouco?
-
Pai, como é mesmo que se escolhe uma
melancia boa? - Pai, o menino está com febre.
Você acha que devemos
levá-lo ao pronto atendimento?
Não
importava muito o assunto. Às vezes, ele nem sabia a resposta. Mas pensava,
perguntava alguma coisa, lembrava de uma situação parecida e dava sua opinião. Gostava disso.
Nunca contou a ninguém que
gostava. Pais
de sua geração não costumavam dizer que gostavam de ser necessários. Apenas
atendiam ao telefone e diziam:
-
Deixa eu pensar. Os anos passaram. Os filhos aprenderam a
resolver os próprios problemas.
Depois vieram os
aplicativos, a internet, os tutoriais, os especialistas para tudo. E seu Antônio envelheceu. Os filhos eram excelentes. Não lhe faltava nada.
Um deles pagava suas contas
pelo celular. Outro marcava as consultas. A filha comprava os remédios e
organizava os comprimidos numa caixinha com os dias da semana. O neto instalara
um aplicativo para que ele pudesse pedir comida sem sair de casa.
Quando a televisão deixou de
funcionar, ninguém perguntou o que poderia ser. Compraram outra. Quando surgiu uma
infiltração na parede do quarto, chamaram um profissional. Quando precisaram vender o
carro, pesquisaram o preço na internet.
Tudo funcionava perfeitamente. Talvez esse fosse o
problema. Seu
Antônio começou a perceber que havia se tornado destinatário de perguntas muito
parecidas: - Tomou o remédio? - Está
sentindo alguma coisa? - Quer que eu passe aí? - Está precisando de alguma coisa?
Respondia quase sempre: - Não.
E
estava dizendo a verdade.
Não
precisava de nada. Tinham
cuidado tão bem dele que haviam conseguido uma façanha: torná-lo absolutamente
desnecessário. Numa
tarde de domingo, o neto apareceu.
Tinha vinte e poucos anos e
uma dúvida enorme, dessas que aos vinte e poucos anos parecem decidir o resto
da existência. Recebera
uma proposta de emprego em outra cidade.
Sentou-se
diante do avô.
Conversaram durante algum
tempo até que o rapaz perguntou:
-
Vô, se fosse você, o que faria? Seu Antônio ficou em
silêncio. O
neto pensou que ele não tivesse ouvido.
-
Eu perguntei o que o senhor faria. Ele havia ouvido.
Só fazia muito tempo que
ninguém lhe perguntava aquilo.
Endireitou-se
na cadeira. Quis
saber quanto o rapaz ganharia, onde iria morar, se gostava do emprego atual, se
tinha alguém que deixaria para trás.
O neto respondeu a tudo. Conversaram por quase duas
horas. Seu
Antônio contou de quando, ainda jovem, recusara um emprego melhor porque não
quis deixar a cidade onde havia conhecido aquela que seria sua mulher. Disse
que nunca soubera se tomara a decisão certa. - E o
senhor se arrependeu?
Ele pensou um pouco. - Das decisões certas a gente também se
arrepende de vez em quando.
O
neto riu. Antes
de ir embora, abraçou-o e disse:
-
Obrigado, vô. Eu precisava conversar com
o senhor. Naquela
noite, a filha telefonou.
Como sempre, perguntou: - Pai, está tudo bem? Precisa de alguma coisa? Seu Antônio respondeu: - Não. Hoje não. E sorriu depois de desligar. Talvez a pergunta que
fazemos aos nossos velhos esteja errada.
Perguntamos constantemente
do que eles precisam. Poucas
vezes mostramos que ainda precisamos deles. Providenciamos médicos, remédios, comida,
transporte, companhia e segurança. Fazemos isso por amor.
Mas, algumas vezes, de tanto
protegê-los das dificuldades, também os protegemos da possibilidade de
continuar participando da nossa vida.
Há
uma diferença enorme entre ser cuidado e ser necessário.
Talvez, de vez em quando, em
vez de perguntar: - Pai, precisa de alguma coisa? devêssemos sentar ao seu
lado e dizer: - Pai, preciso de você. O que você acha que eu
devo fazer? Pode
ser que ele não tenha a resposta.
Não
importa.
Naquela tarde, alguém voltou
a ocupar um lugar que nunca deveria ter perdido. Porque há pessoas que não têm medo de morrer. Têm medo de descobrir que
deixaram de fazer falta enquanto ainda estavam vivas.

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