quarta-feira, 23 de setembro de 2026

22 de Setembro de 2026
OPINIÃO RBS

O campo e a nova realidade do clima

Entre 2020 e 2025, os agricultores gaúchos padeceram com quatro grandes estiagens, que causaram perdas severas nas lavouras de verão. Nenhuma empresa ou ramo de negócio conseguiria sair incólume de uma sequência semelhante de frustrações de receitas enquanto as contas seguem a bater na porta e os custos de produção sobem. A escalada do juro no país e o período de baixa dos preços dos grãos completaram a conjuntura desastrosa. O resultado é o altíssimo endividamento no campo, quadro que gera risco à continuidade de milhares de famílias na atividade em suas propriedades. Ao mesmo tempo, a economia gaúcha patina, crescendo abaixo do ritmo dos demais Estados.

As provações e as soluções para o agronegócio gaúcho são a pauta da quinta reportagem da série de oito que o Grupo RBS está publicando sobre os principais desafios do Estado para os próximos anos. São temas que reclamam um olhar especial do governo a ser eleito no próximo mês.

A lição do passado recente, somada à perspectiva de eventos climáticos extremos recorrentes e intensos, impõe que o Rio Grande do Sul encontre formas de dar um salto na área irrigada de lavouras como as de soja e milho. Conforme a Federação da Agricultura do Estado (Farsul), somente 5,3% da extensão cultivada com essas culturas não conta apenas com a água da chuva. É ilusão cogitar haver condições de irrigar a maior parte dessas lavouras, mas é factível um salto expressivo que diminua muito o impacto de períodos secos. Levar água às plantações, mais do que prevenir quebras de safra, significa elevação da produtividade e impulso econômico.

O programa Irriga+RS, do governo do Estado, oferece subvenção para reservação de águas e aquisição de sistemas de irrigação, mas teve um avanço considerado insuficiente nos últimos anos. A descapitalização dos agricultores é um obstáculo. Assim, é necessário insistir na melhoria das condições do programa federal de renegociação de dívidas rurais, para que mais produtores tenham novo fôlego para esse investimento estruturante nas propriedades. Mas caberá ao próximo governo gaúcho buscar outras alternativas. 

Uma delas pode ser o modelo do chamado Fundopem da Irrigação, com incentivos fiscais para facilitar projetos do gênero. Será necessário responder como a iniciativa se adaptará à reforma tributária, com o ICMS substituído pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). Convém ainda insistir com o governo federal na proposta de o Estado continuar a contar com a suspensão do pagamento das parcelas da dívida com a União a partir do próximo ano, utilizando esses recursos para um programa ousado de expansão da área irrigada.

Na primeira metade da década, o Estado perdeu 48,6 milhões de toneladas de grãos, o que significou R$ 126 bilhões a menos de receita no campo e R$ 319,2 bilhões que deixaram de ser injetados na economia e na arrecadação de impostos. São números que gritam o quanto é fundamental atacar esse gargalo que fez o RS ser o lanterna no crescimento do PIB no país. Caro é continuar como está. Sem enfrentar essa questão, a renegociação do endividamento rural tende a ser mero paliativo. É uma agenda inadiável para o próximo governo contribuir para o campo se adaptar à nova realidade climática. 

OPINIÃO RBS

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