04 de Setembro de 2026
OPINIÃO RBS
Safra entre a crise e a esperança
A próxima safra de verão do Rio Grande do Sul tem a marca da crise no campo, mas também se inicia com perspectivas que podem ser consideradas animadoras, embora a incerteza seja eterna companheira de jornada de uma atividade a céu aberto como a agricultura. O quadro de dificuldades, sequela das várias estiagens e do alto endividamento, se reflete no recuo da área cultivada com soja, a locomotiva do agronegócio gaúcho.
Conforme a Emater, que divulgou as projeções para o ciclo 2026/2027 nesta semana, na Expointer, a cultura terá uma extensão cultivada de 6,65 milhões de hectares, queda de 0,9% em relação à safra anterior. Parece uma redução insignificante, mas é o segundo ano consecutivo de retração, na contramão do histórico de avanços constantes das lavouras de soja no Estado. É consequência da descapitalização, dos obstáculos para acessar crédito, do juro extorsivo e das cotações recentes pouco alentadoras.
Mas há fatores que trazem alguma esperança. O prognóstico climático é um deles. A ocorrência do El Niño indica que a falta de chuva não será problema. Assim, espera-se elevação da produtividade. A Emater estima que a colheita de soja pode superar 21 milhões de toneladas, ante os 18,3 milhões de toneladas retiradas das lavouras neste ano. Seria a maior marca já registrada pelo Estado.
O fenômeno também traz transtornos, como atraso na semeadura e maior risco de doenças. Em 2024, causou prejuízos pontuais em lavouras prontas para a colheita. Áreas de várzea têm mais risco. Mas as precipitações acima da média costumam elevar o rendimento por hectare.
O mercado está em alta nos últimos meses. O indicador Cepea/Esalq mostra que, neste início de setembro, a saca de 60 quilos no Porto de Paranaguá (PR) chegou à casa dos R$ 160, patamar que não era praticado desde o começo de 2023. As cotações são alavancadas pela demanda internacional firme e pelas incertezas climáticas relacionadas ao El Niño em outras áreas produtoras, onde os efeitos não são os mesmos observados no Estado.
Uma colheita farta e a preços mais remuneradores, além de dar tração ao PIB do RS, significaria a possibilidade de os produtores começarem a sair do sufoco financeiro. Mas muito desse horizonte otimista depende do avanço da renegociação das dívidas dos produtores, que transcorre com lentidão e sem as condições ideais.
As projeções do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) também indicam um recuo na área da orizicultura. Seria da ordem de 3,4%, caindo para 861,7 mil hectares. O preço, por outro lado, tem mostrado reação. O milho produzido para grão destoa das demais culturas. A estimativa é de que a extensão plantada suba 7,4%, para 896,4 mil hectares. É outra lavoura beneficiada pelo aumento da precipitação.
Somadas, as principais culturas de verão - soja, arroz, milho e feijão - devem ocupar 8,42 milhões de hectares, uma leve retração de 0,37% ante o ciclo 2025/2026. Mas as projeções de rendimento maior indicam uma produção total de grãos de 35,6 milhões de toneladas, crescimento de 8,64% sobre o volume obtido neste ano. Seria uma supersafra, puxada pela soja, capaz de melhorar o ânimo no campo.

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