sexta-feira, 4 de setembro de 2026

04 de Setembro de 2026
CARPINEJAR

O recreio voltou

Não sei você, mas percebo um retorno saudável às práticas do passado. Ninguém mais aguenta ser digital. Sequer as crianças nativas das redes sociais. Veja o crescimento dos clubes de leitura. Minha esposa já participa de dois e se debruça no dever de casa, lendo clássicos e revisitando as estantes.

O número desses grupos de reflexão no país saltou 35% nas últimas duas décadas, reunindo 2 milhões de pessoas em torno de algum título - dados da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e da Nielsen BookData apontam alta de 7,7% no faturamento e de 6,5% no volume de livros vendidos.

A solidão do hábito virou solidariedade. As rodas de análise de textos mexem no sobe-desce da lista dos best-sellers e se destacam pelos encontros presenciais, pelo confronto dos mais diferentes pontos de vista e pelo prazer de conversar sobre afinidades. Não são organizadas apenas por escritores, mas também por diletantes da literatura.

Um ano e meio após a Lei nº 15.100/2025, que restringe o uso de celulares em escolas de educação básica, 97% dos gestores escolares relatam que a norma aumentou o engajamento dos estudantes nas atividades pedagógicas.

Houve, inclusive, um movimento de ressocialização nos recreios. Agora estão na moda os lanchinhos entre as mesas de fórmica e os jogos como cartas, pingue-pongue, vôlei e futebol. Vários alunos até se esquecem da existência do aparelho nas caixas coletoras e precisam regressar à instituição para buscar.

Passamos, aos poucos, a recuperar o domínio das mãos, deixando- as livres para brincar e interagir, para escrever bilhetes, não mais destinando a atenção exclusivamente para as telas.

A ansiedade diminui, assim como a sensação de estar perdendo um acontecimento importante no mundo e a competição pelos melhores modelos de smartphone. A abstinência migra para a alegria, com a redescoberta de brincadeiras e de antigos suportes. A biblioteca é mais frequentada, e o barulho do falatório nos minutos sem aula eleva consideravelmente seus decibéis.

Além disso, adolescentes vêm resgatando câmeras velhas, iPods, Walkmen, fones com fio e vinis. Registrou-se uma demanda de quase 50% a mais na aquisição de iPods e Walkmen pelo eBay no Reino Unido em 2025. Tira-se uma foto sem poder conferir imediatamente se ficou boa, suportando a espera e o erro de foco.

Cansada da hiperconectividade, a Geração Z espanou o pó do MP3 player, procurando a ausência de notificações, algoritmos e feeds infinitos na hora de treinar ou de ouvir música em paz.

O site de vendas Enjoei revelou que o valor total de dispositivos comercializados na plataforma no primeiro trimestre deste ano (janeiro, fevereiro e março) foi 47% maior do que no mesmo período de 2025.

Na contramão da modernidade, os jovens querem novamente os fios, querem uma âncora, uma experiência particular, só sua, que não seja imposta por tendências do momento ou playlists do streaming. É menos tecnologia para mais pessoalidade e privacidade, tendo que lidar com o nó no bolso, com um lado que para de funcionar, com ajuste no plugue para normalizar o som.

O trabalho ou o esforço são insignificantes perto da reserva e da discrição. Ainda se abre a perspectiva gentil de dividir um fone com alguém e mostrar uma canção predileta. A vibe saudosista é uma forma de reaver o controle da vida, que só a simplicidade, cheia de ruídos, possibilita.

A igreja analógica tem cada vez mais adeptos. O recreio voltou com a bênção das sinetas. _

CARPINEJAR

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