03 de Setembro de 2026
EM FOCO
EM FOCO
Presidente do STF afirma que é preciso preservar instituição e que ações serão anunciadas "no tempo devido". Fala ocorre um dia após Mendonça ter retirado sigilo de inquérito que expõe mensagens de Vorcaro, ampliando cerco a Moraes
Fachin promete medidas e diz que cargo impõe limites
No dia seguinte à revelação de mensagens enviadas por Daniel Vorcaro a Alexandre de Moraes, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, disse que anunciará "medidas cabíveis e necessárias", sem especificar um prazo. Ao discursar na abertura de evento sobre direito constitucional, em Brasília, Fachin destacou que adotará ações "no tempo devido e sem precipitação".
- Em momentos de especial gravidade, é dever de todos preservar a integridade do Supremo Tribunal Federal, a autoridade de suas decisões, o respeito as suas normas e, acima de tudo, a confiança da sociedade na instituição - afirmou.
Em sua fala, o presidente do STF, sem citar Moraes, avaliou que "os indícios reclamam o devido encaminhamento institucional", citando que "circunstâncias relacionadas, de um lado, à atuação processual e, de outro, a sérios elementos de fatos que exigem desta Presidência serenidade, responsabilidade e firmeza".
- A elevada autoridade do cargo não confere privilégios, mas impõe deveres, limites e responsabilidades, que devem ser observados com absoluto respeito à Constituição, às leis e ao Supremo Tribunal Federal. Nos próximos dias, concluída a análise necessária dos fatos e observados os procedimentos institucionais pertinentes, esta Presidência anunciará, no tempo devido e sem precipitação, as medidas cabíveis e necessárias - acrescentou Fachin.
Investigações conduzidas pela Polícia Federal (PF) encontraram mensagens trocadas entre Vorcaro e Moraes. As citações ao nome de Moraes foram captadas a partir da quebra de sigilo do celular do banqueiro, alvo da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes no Banco Master. O sigilo do relatório foi retirado na terça-feira.
Conforme a PF, Vorcaro teria conversado diretamente com um contato salvo em nome do ministro. Parte das supostas conversas foi apagada porque o contato usava mensagens de visualização única e as escrevia no bloco de notas, mecanismo que impede a recuperação completa dos dados.
Nas mensagens recuperadas, Vorcaro, antes de ser preso, pediu ao ministro proteção e orientação sobre sair do país. Além disso, o magistrado avaliou o contrato de cerca de R$ 130 milhões entre o escritório de sua esposa, Viviane Barci, e o Master, ampliando as suspeitas de que o magistrado seria um conselheiro do banqueiro.
Na noite de terça-feira, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, defendeu a nulidade da investigação da PF. Na manifestação enviada à Corte, Gonet disse que o relator do caso, Mendonça, investigou Moraes ilegalmente ao determinar o aprofundamento sobre o Master para esmiuçar as conversas envolvendo o magistrado e o banqueiro.
No entendimento do procurador, isso só poderia ocorrer após autorização do plenário da Corte.Para Gonet, eventual investigação contra Moraes deveria ser direcionada ao presidente da Corte, que levaria o caso ao plenário, e não diretamente para execução da PF.
Gonet também aparece no relatório policial, com arranjo de viagens internacionais custeadas pelo banco. Em março de 2025, por exemplo, Ciro Soares, intermediário de Vorcaro, avisa o banqueiro do pedido do procurador-geral para incluir o filho em uma viagem para a Inglaterra.
Ontem, na primeira sessão plenária no STF após a exposição das mensagens de Vorcaro, nenhum dos envolvidos presentes se manifestou sobre o tema. _
Segundo a Polícia Federal, Vorcaro escrevia a Moraes textos no bloco de notas do celular, tirava prints e os enviava como mensagens de visualização única pelo WhatsApp.
"Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você."
Mensagem de Vorcaro no dia 14 de novembro, antes de estourar a operação contra o Master
"Acha que segunda já tenho que estar fora?"
Questão de Vorcaro a Moraes em 15 de novembro de 2025, antes da prisão, sobre deixar o país
"Não conseguimos reverter isso com Paulo (procurador- geral da República, Paulo Gonet) ou Andrei (Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF)?
No dia 15, Vorcaro indica que precisa de proteção do procurador-geral e do diretor-geral da PF. Na terça, Gonet pediu nulidade da apuração
"Podemos nos ver amanhã rapidamente, algum horário?"
Mensagem encaminhada por Vorcaro no dia 16 de novembro. Ele foi preso no dia 17 no aeroporto de Guarulhos, quando tentava deixar o país em uma aeronave particular
"Às 14h então. Passo na sua casa ou prefere na minha?"
No mesmo dia 16 de novembro, 20 minutos depois, indicando que o encontro havia sido marcado
Encontros com Vorcaro
Gabinete do ministro André Mendonça confirmou ontem duas reuniões com o banqueiro. Confira as circunstâncias
Semana passada
Vorcaro prestou depoimento em caráter de urgência ao gabinete de Mendonça na semana passada, a pedido da defesa do banqueiro, que relatou que estaria sofrendo "graves intimidações".
Segundo nota do gabinete, o depoimento, conduzido por um juiz auxiliar, ocorreu sem a presença de agentes da Polícia Federal (PF) e teve apenas a participação de representantes do Ministério Público. "Trata-se de ato processual regular", afirmou o comunicado.
O conteúdo do depoimento foi mantido em sigilo. Segundo o gabinete de Mendonça, a relação entre Vorcaro e Moraes não foi mencionada na oitiva.
Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, Vorcaro afirmou no depoimento que quer delatar integrantes do "atual governo" e citar na delação a realização de viagem com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
Vorcaro, no entanto, não forneceu detalhes nem indicou provas dessa relação.
Início de 2025
Antes de se tornar relator do caso Master, em fevereiro deste ano, Mendonça admitiu que recebeu Vorcaro em março de 2025.
O encontro durou entre 20 e 30 minutos e foi na sede do instituto educacional que o ministro mantém em São Paulo (SP).
O assunto tratado foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, que estava sob julgamento do STF. O caso discutia créditos de precatórios de interesse do Master, mas se encontrava, na data da reunião, sob pedido de vista.
"O ministro André Mendonça esclarece que recebeu o empresário Daniel Vorcaro uma única vez, em março de 2025, por iniciativa do próprio empresário, e que se limitou a ouvi-lo", diz a nota divulgada ontem pelo ministro.
"No mesmo mês, atendeu também o advogado do empresário, e ainda mantém, nos registros do gabinete, os memoriais escritos recebidos por ocasião do encontro", afirma o comunicado, acrescentando que a atuação do ministro "é pautada pela legalidade e pela impessoalidade".
Procuradoria assina acordo de delação com fundador da gestora Reag
A Procuradoria-Geral da República (PGR) assinou acordo de delação premiada com o fundador da gestora Reag, João Carlos Mansur. Nos depoimentos já prestados e nas informações entregues aos investigadores, Mansur deu novos detalhes sobre os crimes financeiros de Daniel Vorcaro e do Banco Master, além de ter delatado outros personagens envolvidos no esquema.
Trata-se da primeira delação firmada pela PGR dentro das investigações da Operação Compliance Zero. Procurada, a defesa de Mansur não se manifestou.
O acordo de delação já foi enviado pela PGR ao gabinete do ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça. Nos próximos dias, o magistrado deve marcar uma audiência para ouvir o colaborador sobre a espontaneidade de sua colaboração e analisar se o acordo atende aos critérios legais.
Depois disso, o ministro decide se homologa a delação, o que significa aval jurídico para que o acordo possa ser utilizado como meio de prova. Com isso, Mansur se tornaria efetivamente um colaborador. A proposta de delação apresentada por Mansur contemplava ao menos 17 temas diferentes e uma multa de R$ 40 milhões.
O acordo de Mansur torna ainda mais difícil a perspectiva de avançar uma terceira proposta de delação premiada do próprio Vorcaro. O banqueiro mudou sua equipe de defesa para tentar retomar as conversas, mas os investigadores não têm demonstrado interesse no assunto.
Os investigadores consideraram que Mansur entregou detalhes mais inéditos e mais relevantes sobre o caminho dos recursos desviados no esquema do Master. A gestora Reag operou diversos fundos de investimentos usados por Vorcaro para a retirada de recursos do sistema financeiro para seu patrimônio pessoal ou para pagamentos de propina. _
O que ocorre com inquéritos sob Moraes se houver afastamento
O possível afastamento do cargo do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, pode acarretar numa longa demora para análise dos casos dos quais hoje ele é o encarregado. A análise é de especialistas em direito consultados pela reportagem. É que o regimento interno do STF prevê, para caso de saída definitiva de ministro, que o acervo processual dele seja herdado pelo colega que vier a ser nomeado no seu lugar, explica o advogado criminalista gaúcho Andrei Schmidt.
O afastamento de Moraes é cogitado pelo envolvimento dele com o banqueiro Daniel Vorcaro, que está preso, suspeito de corrupção. O escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, foi contratado, por valores milionários, para atuar na defesa do Banco Master, pertencente a Vorcaro.
O afastamento do ministro do STF poderia ser decidido por seus colegas (em votação interna) ou pelo Senado, que votaria seu impeachment (a perda do cargo). Seja qual for o encaminhamento, a escolha de um novo ministro não é rápida.
Luís Roberto Barroso, por exemplo, se aposentou em outubro do ano passado e até agora não foi substituído. A indicação e a aprovação de um novo integrante do STF seguem pendentes no Senado, por onde passa o crivo dos nomes apontados pelo presidente da República.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha indicado Jorge Messias para a cadeira, mas os senadores recusaram a escolha, o que provocou um impasse.
Há possibilidade, porém, de redistribuir casos urgentes (ou importantes), prevista no artigo 68 do regimento do STF.
- O artigo 68 foi aplicado no caso do Barroso, que se aposentou e a vaga dele segue aberta. Os casos mais urgentes que estavam para análise desse ministro, como uma ação direta de inconstitucionalidade, foram repassados a colegas dele - ilustra Schmidt.
Outros casos aguardam parecer, enquanto o novo ministro não é escolhido.
- Quando o ministro Teori Zavascki morreu, os principais casos dele foram redistribuídos - ilustra outro criminalista, Alexandre Wünderlich.
Entre os casos polêmicos que tramitam hoje com Moraes como relator, está o da tentativa de golpe de Estado que culminou nos atos de 8 de janeiro de 2023 e o inquérito das fake news (que apura notícias falsas, ameaças e ataques contra a Corte, seus ministros e familiares). Os advogados consultados pela reportagem acham provável que esses casos sejam redistribuídos, sem aguardar nomeação de novo ministro para as vagas abertas.

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