quinta-feira, 3 de setembro de 2026

03 de Setembro de 2026
ROGER LERINA

A música do mundo

No último dia 25 de agosto, completaram-se 40 anos de lançamento de Graceland. O disco de Paul Simon ganhou o Grammy de melhor álbum, vendeu 16 milhões de cópias mundo afora, atraiu a atenção para a música sul-africana, colocou o cantor e compositor estadunidense em uma turnê planetária de cinco anos e rendeu-lhe a pecha de apropriador cultural. 

A história desse fenômeno e das polêmicas que o acompanham desde 1986 é contada no recém-editado Days of Miracle and Wonder (algo como "Dias de Milagre e Maravilha"), livro escrito pelo jornalista e historiador musical Ashley Kahn, cujo título pega emprestado um verso de The Boy in the Bubble, faixa que abre o disco.

A gênese de Graceland remonta a 1984. Escutando enquanto dirigia uma fita cassete - irônica e premonitoriamente pirata - de Township Jive, a música de rua da África do Sul, o artista empolgou-se: o som remeteu-lhe aos primórdios do rock?n?roll, "muito pra cima, muito alegre, soando familiar e estrangeira ao mesmo tempo". Determinado a conhecer mais a respeito dessas tradições musicais, viajou para Joanesburgo, encontrou-se com dezenas de músicos locais e gravou com eles.

Paul Simon comprou briga já na largada: a colaboração com artistas da África do Sul foi criticada por organizações internacionais, autoridades e músicos por furar boicotes econômicos e culturais ao país, então sob o regime racista do apartheid. Graceland também foi colocado na berlinda artisticamente: muitas vozes condenaram uma suposta vampirização. Kahn lembra em seu livro que Simon foi confrontado por um estudante durante uma conferência em uma universidade: "Como você justifica adonar-se dessa música? Por tempo demais, artistas têm roubado a África. Aconteceu com o jazz".

Lembro do impacto que Graceland causou em mim e nos meus amigos quando saiu há quatro décadas. Na época, a música estrangeira que tocava nas rádios e tevês vinha apenas dos Estados Unidos e do Reino Unido. Para escutar qualquer sonoridade diferente, só comprando algum disco importado. Graceland ajudou a difundir a então chamada "world music" - um termo genérico e colonialista que inclui tudo e significa nada -, 

abrindo o mercado para gravadoras voltadas à diversidade sonora como a Luaka Bop, de David Byrne, e a Real World, de Peter Gabriel. Também propiciou iniciativas tipo o Buena Vista Social Club, projeto liderado pelo guitarrista Ry Cooder que tirou do ostracismo veteranos artistas cubanos.

Simon, Byrne, Gabriel, Cooder. Homens brancos do Norte global chancelando a música do mundo. Alguma coisa estava fora da ordem. 

ROGER LERINA

Nenhum comentário: