02 de Setembro de 2026
MÁRIO CORSO
"A Indústria do Sono"
A insônia, esse mal silencioso que corrói a saúde física e mental, tornou-se um dos grandes negócios do século 21. A "Indústria do Sono" cresce vendendo a promessa de noites tranquilas em forma de colchões tecnológicos, aplicativos de meditação e diversas pílulas. Mas, como aponta o psicanalista Darian Leader em Why Can?t We Sleep?, o problema talvez não esteja no seu travesseiro, mas no mundo que o mantém acordado.
Ao andar por qualquer avenida, é impossível ignorar a profusão de lojas de colchões. Elas se multiplicam como farmácias e, não por acaso, vendem uma ideia semelhante: a de que o seu sofrimento é solucionável por um produto. Você não dorme mal porque está ansioso, sobrecarregado ou vivendo numa sociedade que exige produtividade constante, você dorme mal porque ainda não comprou o colchão certo.
Leader nos lembra que o mau sono é pintado como um assassino silencioso. Está associado a doenças cardíacas, obesidade, depressão e demência. Essa medicalização do sono cumpre uma função precisa: transformar um sintoma social em um problema individual. Se você não dorme, a culpa é sua, da sua falta de disciplina, da sua higiene do sono falha. Nunca da jornada de trabalho extenuante, da luz azul dos dispositivos que nos mantêm conectados ao trabalho 24 horas por dia, ou da ansiedade generalizada de viver numa economia instável.
Antes da revolução industrial, o tempo era algo que passava, um rio no qual se navegava. Hoje, o tempo é algo que se gasta, um recurso que se esgota. Cada minuto acordado à noite é vivido como falha. Não sabemos mais o que fazer com a vigília noturna, exceto temê-la. O silêncio da madrugada antes era um convite à reflexão. Tornou-se um vazio a ser preenchido com telas, rolagens infinitas e a culpa de não estar dormindo.
O sono não é um problema individual, é um sintoma social. Enquanto vivermos numa sociedade que glorifica a produtividade até a exaustão, que apaga as fronteiras entre trabalho e descanso, que monetiza cada hora do dia e que mede o valor humano pela sua utilidade, a insônia continuará sendo a epidemia silenciosa que ninguém pode curar, porque curá-la exigiria questionar as estruturas que nos mantêm acordados.
MÁRIO CORSO

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