segunda-feira, 7 de setembro de 2026

07 de Setembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

As contradições da extrema direita

A Saxonia-Anhalt, terra de Martinho Lutero, centro do Bauhaus e das bruxas de Hartz, tornou-se, ontem, um Estado conhecido, mundialmente, pela possibilidade de vitória de um candidato de extrema direita, quase um século depois da ascensão do nazismo. Ulrich Siegmund, da Alternativa para Alemanha (AfD), partido que já é a segunda maior força política do país, pode chegar ao poder, embora a maioria no parlamento local ainda seja incerta. 

Sem comícios gigantescos, apenas a bordo de uma motocicleta Samsun, o candidato defende a deportação em massa de imigrantes ilegais, serviço de saúde livre de estrangeiros e a descrição de família como apenas formada por "homens e mulheres".

Saxônia-Anhalt explica muito sobre memória seletiva. Do fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, à reunificação alemã (1990), Saxônia-Anhalt pertencia à antiga Alemanha Oriental (sob governo da URSS). Siegmund fez campanha resgatando essa identidade, por meio de símbolos, memórias afetivas e características associadas à antiga RDA.

Mas ora... esse país de volta seria a Alemanha Oriental? O comunismo? Como isso pode estar associado a uma ideologia de extrema direta?

Daí a contradição. A AfD não está defendendo o marxismo, a economia planificada ou a propriedade estatal dos meios de produção. Ela é fortemente anticomunista. Mas o que interessa é a imagem idealizada de ordem, segurança, comunidade, identidade local e proteção em relação ao mundo exterior. 

O regime comunista que desapareceu com a unificação alemã abriu espaço para a desindustrialização e transformações econômicas e demográficas nas regiões da antiga Alemanha Oriental. O sentimento, em parte, é de que as decisões passaram a ser tomadas pelas elites. No país, por Berlim. Na União Europeia, por Bruxelas.

Daí, a ideologia de prateleira. A AfD retira da memória aquilo que lhe interessa e pega aquilo que é compatível com seu interesse: o Estado forte, fronteiras controladas e até relação histórica com a Rússia. Estou falando da Alemanha, mas poderia ser de qualquer região do Ocidente, entre Washington e Brasília. _

Entrevista

Irmão Peter Carroll

Superior-geral dos Irmãos Maristas

"Educação não é um luxo em que se possa investir após todos os problemas"

A educação não é um luxo em que as sociedades possam investir depois de resolvidos todos os demais problemas. Ela é uma das formas mais importantes de enfrentar esses mesmos problemas. Educação de qualidade contribui para o desenvolvimento humano, a coesão social, a saúde pública, as oportunidades econômicas e a cidadania ativa. Ao mesmo tempo, precisamos reconhecer as realidades difíceis enfrentadas por muitos países e comunidades. 

Governos, famílias e instituições com frequência precisam tomar decisões muito difíceis a respeito de recursos limitados. Como rede educacional internacional, nós, maristas, temos constatado que, mesmo em contextos de pobreza e desigualdade, o investimento em educação pode ter um efeito transformador, sobretudo quando dirigido aos mais vulneráveis.

A IA apresenta oportunidades notáveis e desafios significativos. Como qualquer tecnologia, seu valor depende do modo como é usada e das finalidades humanas a que serve. Da perspectiva marista, a IA deve apoiar a educação, e não substituir as relações humanas essenciais que estão em seu centro. Educar é mais do que transmitir informação. 

Envolve acompanhamento, pensamento crítico, formação ética, desenvolvimento emocional e cultivo de virtudes e valores. Essas continuam sendo tarefas humanas. Por isso, estamos incentivando nossas comunidades educativas a se relacionarem de forma cautelosa com a IA, ajudando os estudantes a aprender a usar essas ferramentas com responsabilidade, ética e senso crítico.

Os desafios impostos pela distração digital estão sendo vividos por escolas do mundo inteiro. Sei que o governo brasileiro aprovou leis restringindo o uso de celulares pelos estudantes nas escolas. Contudo, outras questões sobre políticas de uso de celular são mais bem decididas por quem está mais próximo da realidade educacional, ou seja, os gestores escolares locais, as autoridades educacionais, os professores e as famílias. 

Eu não pretenderia julgar o que é mais apropriado para cada contexto. De todo modo, em meu próprio país, a Austrália, alguns governos estaduais também proibiram o uso de celulares pelos estudantes nas escolas. Nosso governo nacional foi também o primeiro, creio eu, a impor restrições de acesso às redes sociais para menores de 16 anos. Ao que tudo indica, os pais apoiam essas medidas. O que parece claro, no entanto, é que os estudantes precisam de ambientes que favoreçam a concentração, a reflexão, o diálogo e uma aprendizagem significativa. Se determinadas medidas ajudam a criar essas condições, elas merecem consideração cuidadosa. 

Ao mesmo tempo, a educação também deve ajudar os jovens a aprender a usar a tecnologia com responsabilidade, já que as ferramentas digitais continuarão sendo parte importante de suas vidas. O objetivo final não é simplesmente restringir a tecnologia, mas ajudar os jovens a desenvolver a maturidade e a autodisciplina para usá-la com sabedoria.

Estou nessa função há menos de um ano, de modo que meu principal objetivo era encontrar pessoas, escutar e aprender. É também expressar minha gratidão às lideranças do instituto, pelo trabalho notável que a missão marista vem realizando. Visitas como essa me permitem encontrar irmãos, leigos maristas, educadores, estudantes, dirigentes universitários e tantos outros que contribuem para a vida e a missão do instituto. 

Fiquei especialmente animado com o compromisso com a qualidade educacional, a responsabilidade social e a inovação que observei em diversas instituições maristas. Também me impressionou a forte integração dos valores maristas às iniciativas educacionais e sociais. Como líder internacional, hesito em colocar uma região acima de outra. Cada região do Brasil contribui de modo importante para a vida e o desenvolvimento do país. 

Não há dúvida, porém, de que o RS tem uma história distinta, instituições educacionais fortes e uma contribuição cultural e econômica significativa para o país. Dentro do mundo marista, a região também desempenhou papel importante no desenvolvimento de iniciativas educacionais, sociais e universitárias cuja influência ultrapassou largamente suas fronteiras. _

TJRS e artistas contra o feminicídio

INFORME ESPECIAL

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