terça-feira, 8 de setembro de 2026

08 de Setembro de 2026
CARPINEJAR

O cheiro da mãe

Mãe é uma ligação atemporal, inexplicável.

Dos milhares de perfumes que um ser humano pode colecionar ao longo da sua trajetória, há um apenas que ele jamais erra em identificar: o cheiro da sua mãe. Quando abraçamos a nossa mãe, refazemos a mágica da fragrância fundadora. Pois entramos no mundo em contato com a sua pele.

Tanto que, após o parto, nas primeiras semanas depois do nascimento, costuma-se recomendar que a mãe evite o uso de perfume. Para não confundir o filho. Para facilitar que ele a reconheça.

O primeiro mapa das nossas vivências não é visual, e sim aromático. Antes de detectar um rosto, procuramos o abrigo do colo. O cheiro do corpo materno será um dos maiores elos para aceitar o mundo. Reduz o estresse, diminui o choro e ajuda a regular a frequência cardíaca. Inclusive, tem efeito analgésico, em especial durante procedimentos incômodos, como a picada no calcanhar.

Tanto que o bebê costuma se aquietar no peito da mãe, pois reconhecerá imediatamente a epiderme da proteção. Experimentará o conforto de voltar mentalmente ao ventre.

Entre dois e seis dias de vida, bebês já distinguem a camiseta usada pela genitora. A visão ainda é limitada (cerca de 20 a 30 cm e de forma desfocada), enquanto o sistema olfativo já se encontra desenvolvido.

Não compreendemos direito por que amamos alguém. A senha não está naquilo que os olhos enxergam. Definitivamente, é pela respiração que nos sentimos admirados, antes das palavras, antes dos gestos. Será que o beijo de quem você ama não é inesquecível pelo gosto respirado em torno da boca?

O recém-nascido sabe quem é quem pelo suor, pela química dos poros, numa conexão primitiva, de animal com a sua toca.

Quando ele inspira o cheiro da pele da mãe, estabelece um endereço de cuidado. Talvez represente o momento oficial de seu nascimento: ele liga o Wi-Fi da personalidade. Todo perigo se apresentará fora daquela presença, daqueles quadrantes, daquela bússola.

É o que vai impregnar o cueiro, a manta, a coberta, o travesseiro, espalhando resquícios do tempo em que atravessava o interior da gestação.

Suas memórias afetivas incipientes passam pelo faro, seu canal de comunicação com o universo de sua chegada. Apresentam conexões diretas com estruturas cerebrais ligadas à emoção e à memória, como a amígdala e o hipocampo.

Um aroma nos desperta para as saudades mais arrebatadoras. Ficamos desprotegidos e vulneráveis diante de sua absorção involuntária.

Numa visita em minha casa, a mãe esqueceu seu xale preto na poltrona da sala. Instintivamente, botei o pano em meu nariz, nebulizei com vontade, como se recuperasse meu nascimento. Chorei. Devo ter chorado outra vez da alegria do parto, da sorte de ter vindo dela. _

CARPINEJAR

Nenhum comentário: