A finitude dos pais
Você luta contra a finitude dos pais. Mesmo sabendo que será derrotado. Quer somente ganhar mais um dia.
Passa a criar motivações para que eles continuem tendo gosto de viver. Para que se identifiquem ativos, compreendidos, admirados, não distanciados do auge de suas carreiras.
Eu busco atuar pelas frestas da saúde emocional, para que não se vejam resolvidos ou com a trajetória encerrada. Evoco constantemente a sua relevância social, a sabedoria que carregam, o que já aprendi com eles, o que os torna insubstituíveis.
Não me desvio da missão de influenciar os seus humores. É oferecer um telefonema longo, uma visita, um almoço, um jantar, um café da tarde, um presentinho inesperado.
Perguntar se estão precisando de algo, solucionar algum problema, lidar com um conserto de casa, solicitar uma receita antiga, simular que você não se lembra do nome de uma cidade, aceitar as manias da velhice, respeitar o quanto são difíceis as tarefas mais banais, o quanto é desafiadora cada pequena variação de hábitos.
Mostrar-se suficientemente perto para ouvir o gemido e o sussurro doce da confidência, e diferenciá-los.
Permitir que participem de suas decisões. Pedir um conselho sobre uma questão de seu cotidiano. Assim se apresentarão úteis e necessários. Não esquecerão que alguém depende do discernimento deles. É o maior incentivo à longevidade: encontrar uma razão para que sigam ocupando o lugar de sempre em nossa existência, com futuro dentro de nossos anseios.
Há quem se apague porque o filho não divide mais a luz de seus dilemas. Não compartilha mais o que anda fazendo. Descarta-se a função primordial da paternidade e da maternidade de orientar.
O filho não dá mais notícias de si. Como se os pais já estivessem mortos há muito tempo. E eles vão morrendo realmente de inanição de importância. Quem tem mais de 40 anos, com pais que ultrapassaram os 70, entenderá o que eu digo.
Recordo que, na minha infância, os meus pais contavam histórias e se dispunham a jogar memória ou damas no momento em que chovia. Era final de semana. Não podíamos sair. Eles me mantinham absorto com truques da imaginação, com o poder acolhedor das fantasias.
É dessa forma que eu me sinto. Só que sou eu que assumo agora a responsabilidade de entreter. Eles são as minhas crianças no quarto fechado, com uma tempestade varrendo as vidraças. Procuro distraí-los com brincadeiras para enganar o espaço apertado, a brevidade. Que não se alertem para a imensa fragilidade humana, sem hora para ser levados.
Faço piadas, cantorias, palhaçadas, roubo risos, com uma alegria exagerada que até contrabalança o meu enorme medo de perdê-los. Pareço forte, mas não sou. Eu finjo imunidade. Eu minto que não vem acontecendo nada de grave, que não há adeus próximo, que não devem temer os relâmpagos.
As mentiras são tudo o que eu tenho. As mentiras são a verdade de meu amor por eles. Enquanto acreditarem em mim, ainda estarão acreditando neles. Eles me mantinham absorto com truques da imaginação, com o poder acolhedor das fantasias

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