quinta-feira, 17 de setembro de 2026

17 de Setembro de 2026
ROGER LERINA

A batalha da memória

Um dos mais belos títulos do cinema contemporâneo, Nostalgia da Luz (2010) olha para o céu e a terra, perscruta o futuro e mira o passado a fim de especular sobre os caminhos possíveis de um país e seu povo. Patricio Guzmán, realizador desse poético filme-ensaio que entrelaça a memória e o legado da história recente do Chile com questionamentos mais amplos sobre a passagem da humanidade pela Terra, morreu na terça-feira em Paris, aos 85 anos. 

Ganhador de mais de 40 prêmios em festivais internacionais como Cannes e Berlim, o cineasta chileno registrou a ascensão do governo socialista de Salvador Allende no longa O Primeiro Ano (1972) e o golpe de estado militar liderado pelo general Augusto Pinochet na monumental trilogia A Batalha do Chile (1975 - 1979), considerado um dos melhores e mais completos documentários da história. (As três partes podem ser assistidas na plataforma de streaming Mubi.)

Ao lado de O Botão de Pérola (2015) e A Cordilheira dos Sonhos (2019), Nostalgia da Luz forma um tríptico de filmes que revisitam recorrentes temáticas sociais e políticas características da obra do diretor com uma inventiva abordagem formal - um tipo híbrido de cinema que mistura investigação, autobiografia, poesia, documentário, divagação e até drama. 

Nostalgia da Luz começa como se fosse um documentário científico, mostrando telescópios, observatórios astronômicos e estrelas. Já de partida, no entanto, a narração de Guzmán propõe caminhos paralelos ao acrescentar lembranças pessoais e comentários sobre o golpe que mergulhou o Chile nas trevas. 

As conexões vão se esclarecendo: graças à baixíssima umidade do ar, o deserto do Atacama é um dos melhores lugares do planeta para o acompanhamento dos astros no céu; já o isolamento da região também serviu para os militares criarem um campo de prisioneiros durante a ditadura, aproveitando as instalações de uma mina de salitre abandonada.

O filme mostra que, ao lado de sofisticadas instalações que buscam desvendar mistérios sobre a origem do universo, mulheres esquadrinham pacientemente a imensidão desértica atrás de pistas e fragmentos de ossos capazes de indicar o paradeiro de maridos e parentes desaparecidos políticos, que podem estar enterrados em valas comuns. 

"O que mais me interessa é a memória. Me interessa lutar contra a amnésia do Chile, o desejo de aparentar ser um grande país, o que também é, mas onde as diferenças sociais são enormes", dizia Guzmán. Uma lição que serve também ao Brasil, que insiste em esquecer a própria história. 

roger.lerina@gmail.com

ROGER LERINA

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