Monotonia planetária
Se há algo que não podemos nos queixar deste momento é de monotonia. Quem disse que a história acabou não poderia estar mais errado. As revoluções tecnológicas, e as bizarrices políticas, desmentem essa tese todos os dias.
Porém sim existe uma monotonia, e ela é cósmica e planetária. Em 1910, o cometa Halley foi um arraso, sua cauda foi um espetáculo. Na nossa vez, em 1986 - passados 75 anos -, foi um fiasco, só menor do que a campanha do Internacional no Brasileirão. Depois dele anunciaram outros cometas, cada um mais decepcionante do que o outro. Nem sombra do que foi, por exemplo, o cometa Tycho em 1577.
Em 1006, uma estrela da constelação de Lupus explodiu. Produziu um novo brilho no céu semelhante a 1/4 do brilho da Lua. A última supernova foi Kepler, em 1604. Voltando aos nossos dias, acreditava-se que Betelgeuse estava no final do seu ciclo e explodiria. Recém descobriram que seu brilho anômalo se deve a uma estrela irmã. Não vai rolar um espetáculo cósmico desses por agora.
Em 1859, foi possível ver auroras polares (boreal e austral) nas regiões equatoriais e tropicais. O episódio ficou conhecido como efeito Carrington, a mais intensa tempestade eletromagnética documentada. Hoje seria uma catástrofe para todos os aparelhos elétricos e eletrônicos. Na época só existia telégrafo e os fios pegaram fogo.
Saindo do céu e voltando para a superfície terrena, o vulcanismo de hoje é amador. Em 1815, o vulcão Monte Tambora, na Indonésia, produziu o ano sem verão (1816), o efeito de sua nuvem de poeira derrubou em 3 graus a temperatura global. Krakatoa, 1883, lançou 20 milhões de toneladas de dióxido de enxofre na atmosfera, reduzindo a temperatura média global entre 0,5 e 1,2 durante 5 anos.
Meu ponto não é a ausência de grandes fenômenos, mas a ausência de uma consciência cósmica. Não desejo a catástrofe, desejo o espanto. Gostaria que um cometa, ou algo assim, nos devolvesse a medida do nosso tamanho. Se o universo voltasse a falar mais alto, talvez nos déssemos conta que somos viajantes presos a um mesmo planeta e a um mesmo destino comum. É a mesma esperança de quem aguarda os ETs, a aparição de um outro que faça os homens se sentirem iguais. _
O conteúdo desta coluna reflete a opinião do autor
MÁRIO CORSO

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