quarta-feira, 9 de setembro de 2026

09 de Setembro de 2026
MARIO CORSO

Natalidade baixa

A questão não é encolher a população, é encolher o número de pessoas em idade produtiva. Nos sistemas de previdência e saúde, são os jovens que movem a engrenagem que sustenta os velhos. Em um país com a maioria da população envelhecida, a economia quebra.

Não se trata de um problema local, a queda da natalidade baixou no mundo todo. O motivo dessa queda ninguém sabe responder com certeza. Provavelmente uma combinação de fatores.

A vida está muito cara, os jovens de hoje têm um poder aquisitivo menor que o das gerações precedentes. Existe muita instabilidade no mercado de trabalho, profissões surgem enquanto outras desaparecem velozmente.

Como nunca antes, as mulheres podem optar por não ter filhos, já não sofrem uma pressão social ou religiosa tão forte. Ainda, os filhos atrapalhem o trabalho da mulher, elas recebem quase nenhum suporte. Praticamente não há mais famílias em que um só consegue sustentar a casa.

Há uma mudança social nos cuidados com os filhos, os pais começam a ajudar na criação deles, mas ainda são raros, e as crianças ainda sobrecarregam só às mulheres. A vida urbana dificulta redes de apoio familiar, que seriam de grande ajuda.

Ter filhos antes era um dever social inquestionável, parte do destino coletivo. Hoje, tornou-se uma decisão subjetiva tomada internamente, antes de ser negociada socialmente. Posso ser uma boa mãe, ou pai? É isso que quero ser? Viverei melhor sem isso?

A decisão de não ter filhos (ou adiar) reflete uma avaliação, consciente ou não, sobre a capacidade de oferecer um ambiente suficientemente bom, numa época percebida como hostil. O clima político se radicalizou, a crise climática bate na porta, a economia não inspira confiança e o negacionismo científico aumenta. Mas não é só medo objetivo do futuro, é uma configuração subjetiva de insegurança quanto à própria capacidade de sustentar outra vida. A desesperança campeia, os jovens duvidam do futuro, o seu e o do planeta.

Talvez a pergunta não seja: como fazer os jovens quererem filhos, mas como fazer o futuro parecer, de novo, um lugar habitável. Ainda, como fazer para que uma mulher se sinta socialmente segura para uma aventura que envolve seu corpo. 

Mário Corso

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