sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Jaime cimenti

Colecionadores

Muita gente coleciona muita coisa. No fundo, acham que, guardando pessoas, dinheiro, carros antigos, diplomas, latas de cerveja, selos, rótulos, quadros, esculturas, sonhos, filhos, amantes, livros, medalhas, títulos, imóveis, navios, condecorações, pregos, antiguidades, dívidas, xícaras de café, galinhas de porcelana e CDs do Roberto Carlos ou dos Beatles, eles, colecionadores, não vão morrer. Doce ilusão. Depois desse jogo rápido de xadrez aqui no planeta, reis, rainhas, cavalos, bispos, torres e peões vão todos para a mesma caixa.

Nem os muito vivos são imortais. Esses dias, vi no jornal que o Jian Yang, 33 anos, que trabalha em Cingapura numa empresa de comunicação, coleciona bonecas Barbie desde os 5 anos de idade. Ele tem 9 mil Barbies e quer mais. Quando ele se apaixonou pela loira, vendo um comercial, não sabia que existiam normas sociais para brinquedos de meninos e meninas. Cada um, cada um, né?

Não posso falar muito, tenho uns 15 ou 20 mil livros e a coleção aumenta, aumenta, mesmo depois de fazer doações. Sei de outros bibliófilos que têm milhares de exemplares, aqui mesmo em Porto Alegre. Não sou o único. Sei de uma senhora aqui da Capital que tem um apartamento cheio de elefantes. Imagino que todos com os bumbuns voltados para a porta, para dar sorte. Há quem colecione jornais velhos e revistas, tudo bem, mas tem umas pessoas que colecionam lixo dentro de casa e aí o buraco é mais embaixo.

Tem um conto famoso sobre um cara que colecionava filhos: legítimos, adulterinos, adotados, gêmeos, doentes e, por último, quis um filho póstumo e morreu antes do filho nascer... ou se suicidou, não lembro bem. Coleções, colecionadores, a coisa vai longe. Tento colecionar amigos e leitores. Nunca fiz a conta de quantos são. Melhor não contar. Pode não dar sorte. Pode dar...

Não uso aquela palavra de quatro letras. Bom, mas o melhor é não colecionar medos. Medo de altura, de amar, de se entregar, de ter filhos, de sair pra rua, de multidão, medo de ter medo, medo de ficar doente e, o pior de todos, o medo de morrer. Colecione aí o que achar bom: chácaras, caixas de fósforos, fotografias, máquinas de escrever e telefones velhos, corujas feitas de gesso, pano, madeira, pedra sabão, mármore, latão, bronze ou ouro.


Enfim, colecione, se ache imortal. De preferência, não colecione medos e conselhos gratuitos e inúteis. Colecione esperanças, sonhos, amores, amizades, desejos e o que você gosta mais. Colecione auroras, crepúsculos, luares, vinhos, pessoas, paisagens, palavras e momentos eternos.

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