terça-feira, 30 de novembro de 2010



30 de novembro de 2010 | N° 16535AlertaVoltar para a edição de hoje
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA

De homens e livros

Mario Quintana escreveu que “o livro traz vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado”. E já que mencionei um de meus autores preferidos, peço licença para citar mais dois. Somerset

Maugham confessou que “quando leio um livro, tenho a impressão de lê-lo somente com os olhos, mas de vez em quando topo com uma frase que tem uma significação especial para mim, e ela se torna parte de mim”. Já Ernest Hemingway dizia que “todos os bons livros se parecem, por serem mais verdadeiros do que se tivessem acontecido realmente”.

Mergulhei nesses pensamentos o outro dia, ao fazer uma investida sobre minha própria biblioteca. De novo, era preciso separar um punhado de volumes para doação, já que o espaço de meu gabinete estava outra vez tomado por mais lombadas do que poderia suportar.

Me dediquei a esse exercício com um certo temor íntimo na alma. Explico: a literatura é ocupante bem-vinda de duas peças de minha casa. Mas e se eu estivesse descartando obras cujo valor não havia sabido reconhecer? E se eu estivesse me separando da criação de um gênio ainda desconhecido? E se eu estivesse expulsando um poeta de altíssimos méritos, ou um romancista de rútila imaginação?

O que mais receava era estar me desfazendo de um livro completo. Não um com duas capas e o recheio competente. Me refiro a um outro, que procuro desde sempre, e que traz a anatomia completa da condição humana. Não falo de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Ana Karenina ou de qualquer das tragédias de Shakespeare. Esses são o zênite, até hoje conhecido, da trajetória do homem sobre a Terra.

Me reporto a uma obra que não foi até aqui descoberta, que sintetiza toda a amargura e o esplendor da raça humana. Algo de absolutamente único e inimitável, que se componha de amor e de ódio, de fé e descrença, de esperança e de mistério, de certeza e incertitude.

Enquanto separava os livros que iam ser doados, me perguntava se esse título realmente existe. E me assaltava a convicção de que está entre nós, talvez em minha biblioteca, talvez na fantasia da adolescente que lê sua novela inaugural.

Uma excelente terça-feira. Aproveite o dia

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