sábado, 27 de novembro de 2010



27 de novembro de 2010 | N° 16532
NILSON SOUZA


Cortina de fumaça

Saí do hospital e fui ao supermercado.

Próximo à entrada do templo de compras, encontrei quatro adolescentes, dois meninos e duas meninas, todos lindos, sorridentes, felizes com a própria perfeição – peles lisas, cabelos bem cuidados, olhos brilhantes de vida e futuro.

Sentaram-se descontraidamente na calçada e, um a um, começaram a acender seus cigarros. Quando olhei para trás, aqueles belos rostos estavam encobertos por uma espessa cortina de fumaça que logo se dissiparia no ar seco do sábado ensolarado.

Pensei em voltar. Se não estivesse tão amargurado, acho que teria voltado. Então, pararia diante daqueles garotos desconhecidos até que fixassem em mim seus quatro olhares desconfiados. Aí eu abriria o meu próprio sorriso, já um tanto usado e meio sem graça, mas ainda autêntico, e diria com a voz mais natural possível:

Posso me sentar entre vocês e contar-lhes uma história?

Caso assentissem, e não me julgassem maluco, começaria por perguntar o nome de cada um deles, para conquistar alguma simpatia. Então, me apresentaria, diria que contar histórias faz parte deste ofício que exerço com paixão há mais de quatro décadas.

Diria mais, sempre cuidando para não assustá-los com explicações excessivas, que tenho o costume de anotar fatos, paisagens e movimentos humanos para recriá-los em outros formatos no mundo das palavras. Por fim, explicaria que naquele exato momento eles, os quatro jovens, já então possivelmente interessados na minha conversa, estavam se transformando em personagens para esta crônica.

Ah, e a história? Na UTI do hospital que eu recém visitara, estava um homem lutando bravamente em busca de ar para seus pulmões doentes. Conheço bem aquele homem. Posso descrever com detalhes quase todos os passos de sua existência.

Foi um menino esperto e ativo, um adolescente inquieto, um jovem bonito e namorador, um chefe de família responsável. Em algum momento de sua juventude, porém, deixou-se iludir pelo feitiço da fumaça prazerosa, pelo qual paga agora com a moeda do sofrimento. É muito doloroso vê-lo na situação em que se encontra.

Aquele homem é meu irmão.

Todos os homens e todas as mulheres são meus irmãos. Talvez eu devesse ter voltado para conversar com os meninos desconhecidos, mas estava com o coração pesado e tudo que eu dissesse poderia parecer um sermão inútil.

Calei, mas meu espírito de cronista me obrigou a fazer este registro. Quem sabe – tênue esperança de um escriba sufocado pela amargura – algum deles venha a ler este texto e conclua que a vida é preciosa demais para ser desperdiçada numa ilusão feita de fumaça.

Nenhum comentário: