quarta-feira, 24 de novembro de 2010



24 de novembro de 2010 | N° 16529
DAVID COIMBRA


O poema dos tempos horríveis

Tempo de dor e tentação,

Época de pranto, inveja e tormento,

Tempo de langor e danação,

Época que se aproxima do fim,

Tempo cheio de horror, que tudo faz errado,

Época de mentiras, cheia de orgulho e inveja,

Tempo sem honra e sem julgamento verdadeiro,

Época de tristeza, que abrevia a vida.

Oque você diria do poema acima?

Que tempo e época são referidos pelo poeta?

Quem é ele, que escreve com tamanha amargura?

Sei o que você pensou. Que se trata de um contemporâneo discorrendo sobre as mazelas do século 21: sequestros-relâmpago, engarrafamentos de trânsito, o espaço entre as poltronas dos aviões, pessoas que ficam no MSN em mesa de bar, a grosseria que grassa, mulheres usando calças sem fundilhos, crianças abandonadas, rap, funk, axé music, literatura depressiva e, claro, a fórmula do Campeonato Brasileiro.

É mesmo um tempo de horrores.

Mas não é o do poeta. O autor dos versos é um francês chamado Eustache Deschamps. Ou era, porque ele versejou no século 14 e morreu no começo do 15, quando o Brasil nem era Brasil, não passava de uma extensão de terra sem fronteiras ou cercas, habitada por índios de tanga vivendo no Neolítico. O que prova que cada idade do mundo tem as suas mazelas, bem como cada idade do homem.

Não sou um pessimista como era Deschamps e seus amigos do fim do Medievo, mas, levando-se em conta tão-somente as amenidades do futebol, há que se reconhecer a tragédia que é o Campeonato Brasileiro.

Porque o Campeonato Brasileiro acabou.

É uma porcaria.

Um bela droga de oito meses de comprimento.

Por causa dessa fórmula burra, injusta, insossa e espúria dos pontos corridos. Uma fórmula que não apenas não premia o melhor, como, mais grave, é propícia a falcatruas e arranjos.

A fórmula é tão obtusa, tão artificialmente europeia e conservadora, que fez com que ninguém mais tenha interesse em ser campeão nacional. O Mundial de Clubes, a Libertadores, a Copa do Brasil e a Sul-americana são mais importantes do que o Brasileiro. Prova disso é que, para disputar esses certames, os clubes escalam reservas ao longo do campeonato.

Ninguém mais se importa com o Campeonato Brasileiro, proclamado pelos seus organizadores “o maior campeonato do mundo”. Puá! Repito: o Campeonato Brasileiro é uma porcaria. No sentido estrito da palavra, vá ao dicionário.

Neste ano, o Fluminense será um campeão envergonhado, como foi o Flamengo no ano passado, ambos beneficiados pelo desinteresse de outros clubes. Uma segunda fase, com semifinal e final, elimina a fraude de times reservas em jogos decisivos? Não, claro que não. Mas diminui o prejuízo.

O campeão sairá de quatro, ou seis, ou oito times completamente interessados nos louros de campeão.

Que saudade de uma final de verdade. E do tempo em que as pessoas conversavam nas mesas dos bares, em que passeavam pela rua de madrugada, em que a Varig servia refeições com talheres de inox, do velho rock and roll, das mulheres com calças jeans apertadinhas, de livros escritos por quem nunca fez sessão análise, da doce cordialidade.

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