domingo, 14 de novembro de 2010



DANUZA LEÃO

O preconceito (às avessas)

Me parece ultrapassado que a nova presidente queira um ministério com maior número de mulheres

HOMENS E MULHERES são pessoas; umas mais inteligentes, outras menos, algumas mais preparadas, outras nem tanto, mas está escrito na Declaração dos Direitos Humanos, de 1948, que somos todos iguais, independentemente de raça, credo etc. etc. -e sexo, claro.

Pensando nisso, me parece meio ultrapassado que nossa nova presidente queira fazer um ministério com maior número de mulheres, tanto quanto me soa estranho que exista uma Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres; para quê? Já se foi o tempo em que elas precisavam de alguém que lhes desse "uma força", quando eram fraquinhas e indefesas.

Hoje são fortes o suficiente para comandar uma delegacia, pilotar um Boeing ou dirigir uma nação, e não precisam de um homem que passe a mão em suas cabeças para poderem existir. Só precisam deles para serem mais felizes.

As feministas do século passado queimaram seus sutiãs, lutaram e conseguiram: hoje têm todos os direitos, igualzinho a eles, mas se é verdade que o ministério de Dilma terá 1/3 de mulheres, só por serem mulheres, a presidente estará cometendo um erro e se mostrando muito antiquada.

O tempo passou, presidente; ministros devem ser escolhidos por suas capacidades -além de pertencerem a um dos 12 partidos da coligação, é claro-, não por serem homens, mulheres, brancos, amarelos ou negros.
Escolher um homem porque ele é homem, ou uma mulher por ela ser mulher, é preconceituoso, e o preconceito, qualquer que seja ele, deve ser evitado -além de ser crime.

A lei estipula uma cota de 30% de mulheres entre os candidatos de cada partido; mas e se todos forem homens, porque naquele ano as mulheres resolveram não entrar na política, acontece o quê? E se alguém inventar fundar o Partido Feminino do Brasil, só com mulheres, pode?

E se for fundado um partido gay, pode? Nossa presidente não foi eleita por levantar a bandeira do feminismo, coisa dos anos 70.

A luta pela igualdade dos sexos foi grande e foi vitoriosa, por isso elas têm o dever de continuar lutando para não serem tratadas como "mulherzinhas" e, sendo assim, jamais assumir um cargo -às vezes com pouca competência- só para provar que chegaram lá.

Será prudente também que a nova presidente, antes de fazer os convites, conheça seus méritos -além do currículo e da folha corrida-, para que o quesito amizade não influencie na escolha (o passado recente aconselha).

Se Dilma for também politicamente correta, talvez queira fazer um ministério idem; nesse caso, terá que nomear mulheres, homens, gays, negros, asiáticos, transexuais, índios, e mais o que exista por aí, em matéria de raças e sexos.

Aliás, se eu for à delegacia e disser que fui assaltada por três crioulos, será que pela Lei Afonso Arinos vou presa? E será que alguém, numa hora dessas, diz que foi assaltada por três afro-brasileiros?

E vamos combinar também que tanto o feminismo como o politicamente correto estão mais do que ultrapassados, e que se as mulheres lutaram tanto para serem iguais aos homens -e provaram que podem ser-, deveriam lutar também para mudar a regra da aposentadoria: mulheres aos 55 anos, homens aos 60. Apenas uma questão de coerência, e também de orgulho e brio, para mostrar que não precisamos nem de privilégios nem de favores.

danuza.leao@uol.com.br

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