quinta-feira, 30 de abril de 2009


PASQUALE CIPRO NETO

Endemia, epidemia, pandemia, pandemônio...

No caso da gripe suína, que já se alastra, não é difícil entender por que a OMS fala em nível pré-pandêmico

PARECE QUE A HUMANIDADE está longe de ter alguns momentos de sossego. Livramo-nos do "vírus" Bush (mas não de suas funestas consequências), mas já fomos assolados por outro, o da gripe suína. E a OMS (Organização Mundial da Saúde) vai mudando o "nível de pandemia".

Enquanto escrevo, o UOL informa que a OMS já fala em "nível 5 de pandemia". A manchete do site dizia isto: "Doença alcança nível pré-pandêmico, diz OMS".

E o leigo fica duplamente atordoado -com a coisa em si e com a nomenclatura técnica empregada por jornalistas e estudiosos do tema. O que distingue endemia da epidemia? E a epidemia da pandemia?

Vamos ao desmonte das palavras. Em todas elas, temos o elemento grego "-demos" ("povo", "região"). A "endemia" é definida pelo "Aurélio" como "doença que existe constantemente em determinado lugar e ataca número maior ou menor de indivíduos".

O "Houaiss" diz que a malária, por exemplo, é uma endemia em determinadas regiões do planeta. O mesmo dicionário "Houaiss" define "epidemia" como "doença geralmente infecciosa, de caráter transitório, que ataca simultaneamente grande número de indivíduos em uma determinada localidade". Da epidemia para a pandemia...

Pois bem. Em "pandemia" encontra-se o elemento grego "pan-", que significa "todos", "tudo", "cada um", "a totalidade". No caso da gripe suína, que já se alastra por algumas regiões, não é difícil entender por que a OMS já fala em "pandemia". A esta altura, alguém talvez já esteja pensando se há relação entre "pandemia" e "pandemônio". Será que há?

Não há, ou melhor, há, se pararmos no "pan-", que é o mesmo que se vê em "pan-americano", "panteão", "panfobia" etc. Em "pan-americano", por exemplo, temos a ideia de união das Américas (não é por acaso que os Jogos Pan-Americanos têm o nome que têm). Em "panfobia" (ou "pantofobia"), temos a ideia de "medo de tudo" (como se sabe, o elemento grego "-fobia" significa "medo", "horror").

E "pandemônio"? Temos aí mais um termo criado por um escritor inglês. Assim como fez Thomas Morus (1480-1535), que deu o nome "Utopia" a um país imaginário (que tinha um sistema sociopolítico ideal), o poeta inglês Milton criou a palavra "Pandemonium", resultante de "pan-" e "daimon" ("demônio").

Em sua obra "Paraíso Perdido", Milton deu ao Palácio de Satã o nome de "Pandemonium", também definido como capital imaginária do inferno.

Pois uma pandemia como a da gripe suína (caso se confirme) certamente não se afasta muito do próprio inferno, não? Que o panteão nos livre! Bem, o panteão (palavra grega em que se encontram os elementos "pan-" e "theos") é o templo que, na Roma e na Grécia antigas, eram dedicados a todos os deuses.

Por extensão, "panteão" é "o conjunto das divindades de uma religião politeísta" ("Aurélio"). O elemento grego "theos" ("Deus") é o mesmo que se encontra em "teologia".

Bem, e a utopia (de Thomas Morus)? Morus juntou dois elementos gregos: "ou-", advérbio de negação, e "topos" ("lugar"). Como se vê, ao pé da letra "utopia" significa "nenhum lugar".

O que Morus imaginou para a sua utopia era justamente algo que não havia em nenhum lugar. Será utópico pensar que não haverá pandemia da bendita gripe? É isso.

inculta@uol.com.br

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