quinta-feira, 30 de abril de 2009



30 de abril de 2009
N° 15955 - LUIS FERNANDO VERISSIMO


Ah é, é?

Você eu não sei, mas, quando há um bate-boca como aquele entre os ministros Mendes e Barbosa, eu sempre lamento a falta de um texto melhor. Claro, no calor da briga ninguém pode escolher as palavras ou cuidar do valor literário dos seus insultos, mas é impossível deixar de imaginar o que um bom roteirista teria feito com a cena, escrevendo para os dois lados.

Certa vez, criei um personagem para um antigo programa do Jô, na Globo. Era o cara que só pensava numa boa resposta quando não adiantava mais. Ele estava caminhando na rua, dentro de um ônibus ou numa reunião com amigos e de repente soltava uma frase, como “Só se a sua mãe for junto!”.

Depois explicava que dias antes alguém lhe dissera para ir tomar banho (no tempo em que mandar alguém se lavar era insulto pesado) e só agora lhe ocorria uma boa resposta. Na hora, ficara só dizendo “Ah é, é? Ah é, é?”, enquanto pensava numa frase devastadora que nunca vinha.

Há profissionais da resposta pronta, repentistas que retrucam não só no ato, como rimado, mas a maioria só pensa no que poderia ter dito muito depois. Humoristas, e supostos humoristas, padecem mais do que os outros com a expectativa de que terão a boa resposta na ponta da língua. Como têm que zelar por uma reputação de tiradas espontâneas, são os que mais precisam pensar na frase, revisá-la e burilá-la para apresentá-la, de preferência uma ou duas semanas depois.

O sentimento de insuficiência na retaliação verbal é tão comum, que deveria existir uma expressão, talvez uma daquelas intermináveis palavras compostas com que os alemães transmitem o máximo de sensações possíveis sem o uso de vírgula, hífen ou violino ao fundo, que a descrevesse.

E a expressão existe. Mas não é alemã. Diderot, o mais enciclopédico dos enciclopedistas franceses, pois aparentemente dava palpite sobre tudo, chamava a frase que só vem depois de “esprit d’escalier”. Perfeito: o espírito que só nos socorre quando já estamos descendo a escada.

Nos bate-bocas brasileiros predomina o “sprit d’escalier”. O que vem na hora raramente passa do “Ah é, é? Ah é, é?” ou equivalente.

(Você eu não sei, mas eu torço pelo Barbosa.)

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