sábado, 25 de abril de 2009



26 de abril de 2009
N° 15951 - DAVID COIMBRA


Como matar uma galinha

Lembro da minha avó matando galinha. Dona Dina, chamava-se. Era miúda e aparentemente frágil. Aparentemente.

Na verdade, podia ser impiedosa. Eu ali, sentado no chão do pátio da casa dela, no Navegantes, brincando de Forte Apache com meu irmão, e a vó escolhia a galinha que seria servida com arroz no domingo.

Aproximava-se da penosa com cautela, as costas curvadas, a mão em concha como se estivesse pronta para distribuir ração, fazendo com a boca um barulho que, por algum motivo, atrai galinhas:

– Tzi, tzitzitzitzi...

A galinha mais inocente chegava perto. Num movimento rápido como uma chicotada, minha avó a capturava sem hesitação, erguia-a à altura do colo, levava as duas mãos pequenas ao seu pescoço e, num único, vigoroso e surpreendente golpe, CREC, desnucava-a e a matava sem que ela fizesse um só có.

Dona Dina. Não conhecia o medo.

Uma vez, tentamos matar galinha num acampamento lá em Cachoeira do Sul. Estávamos na estância do Meia. Meia é uma contração do apelido dele, Zé Colmeia. Instalamo-nos no fundo do campo e, em dois dias, ficamos sem víveres. Ainda se passariam outros dois para um carro chegar a fim de nos levar de volta à cidade. Que fazer? Decidimos roubar uma galinha da fazenda contígua.

Foi o que fizemos. Protegidos sob o tal manto escuro da noite, nos esgueiramos pelas coxilhas feito guerrilheiros e sequestramos uma galinha que ciscava nas cercanias. Ela não reagiu. Cacarejou um pouco, mas deixou-se levar sem maiores protestos. Esfregamos as mãos.

Teríamos janta, enfim. Aí chegou a hora de executá-la. Quem o faria? Ninguém tinha coragem. Eu mesmo, que tantas vezes vira o fim de vidas de galinhas nas mãos da minha vó, não me animava a imitá-la. Até porque a galinha nos olhava com uns olhos muito doces, muito puros e, confesso, me afeiçoei por ela.

Pior: enquanto ponderávamos acerca da melhor maneira de assassinar a galinha, bebíamos cerveja para relaxar. Foram tantos debates e tanta cerveja que alguns de nós ficamos incapacitados para a execução. Eu um deles. Não por falta de condições físicas, e sim psicológicas. A cerveja me deixou ainda mais sensível e, ao fitar aqueles olhos sem malícia da galinha, eu suspirava:

– É uma boa galinha... Gosto dela... Finalmente, o Dadinho tomou coragem. Pegou a galinha pela cabeça e anunciou:

– Uma galinha a gente mata quebrando o pescoço dela! É isso que vou fazer!

E começou a rodar a galinha no ar como se estivesse numa daquelas provas de lançamento de martelo. Rodou-a, VUUUP, rodou-a, VUUUUUUUP, rodou-a várias vezes, até soltá-la no chão da estância. A galinha saiu correndo com o pescoço todo molenga, parecendo uma cobra viva, fazendo cuóóóóór...

Se minha avó estivesse naquele acampamento, não ficaríamos sem jantar.

Dona Dina não vacilava. Uma executora. Seria centroavante, se jogasse bola. Seria um Alcindo Martha de Freitas, o centroavante mais impiedoso que vi jogar. Alcindo mutilava zagas. Era completo: forte, veloz e habilidoso. Os goleiros o odiavam. Agora, acossado pelo diabetes, sei que não fraquejará. Enfrentará a doença com a mesma valentia com que expunha as canelas às travas de navalha dos zagueiros.

Alcindo, o Bugre Xucro, e Dona Dina. Carrascos gelados. Vi Dona Dina armada com uma lâmina de 15 centímetros de comprimento para com ela seccionar a jugular da porca Chica a fim de transformá-la, a Chica, em toucinho, linguiça, costelinha e presunto gordo.

Vi o Bugre desmontando a defesa do Inter como se fosse armada de Lego, ele e Volmir ingressando na área a drible e ombraço e botando zagueiros e goleiro para dentro do gol quatro vezes, que o jogo terminou em 4 a 0. Que centroavante!

Alcindo e Dona Dina. Chegavam a dar medo.

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