terça-feira, 3 de setembro de 2013


03 de setembro de 2013 | N° 17542
DAVID COIMBRA

Há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que darei na tua boca

Stálin usava bigode. Kamenev também usava bigode. Quase todos aqueles revolucionários bolcheviques usavam bigode. Eram homens duros, curtidos pela vodca e pelo frio de 40 graus abaixo de zero da tundra russa. E, no entanto, encontrei a seguinte passagem de uma carta de Lev Kamenev para Josef Stálin, escrita antes da Revolução de 17. Kamenev estando em Genebra, Stálin na Cracóvia:

“Beijo-te no nariz à moda esquimó. Aborreço-me diabolicamente sem ti. Aborreço-me de morte, juro-te. Não tenho ninguém, não tenho ninguém com quem tagarelar de coração aberto”.

Fiquei pensando em Kamenev e Stálin roçando os narizes batatudos. Não é uma imagem bonita. Em todo caso, suaviza muito o péssimo conceito que tenho de Stálin, um monstro responsável por pelo menos 20 milhões de mortes. Prefiro realmente um Stálin que dá beijo de esquimó num amigo a um Stálin que manda executar o amigo, como ele fez com o próprio Kamenev, nos anos 30.

Também prefiro um jogador que pespega um selinho num amigo, como Emerson, do Corinthians, a tantos outros violentos que há por aí.

O beijo é um carinho cultural. Não existia a palavra “beijo” em nenhuma língua celta, o que significa que eles não se beijavam. Ou seja: Obelix nunca beijou a loirinha Falbalá. Triste.

Os índios brasileiros também não se beijavam. Quando os portugueses aqui chegaram, fizeram o maior sucesso entre as índias exatamente porque as beijavam na boca. Um ponto para os portugueses.

Não sei se os esquimós se beijam roçando os narizes, como Stálin e Kamenev, mas sei que, na língua deles, beijo é o mesmo que cheiro, o que faz muito sentido.

Judas beijou Jesus para traí-lo. Ou seja: os hebreus se beijavam, dois mil anos atrás. E agora mesmo, na Copa de 2010, depois de um jogo bem-sucedido da Argentina, Maradona recebeu cada um de seus jogadores com um beijo, na entrada do vestiário.

Logo, o beijo é um carinho muito comum. Por isso, é estranho que esse beijo do Emerson continue rendendo polêmica, dez dias depois de ter sido desferido, que esse beijo foi desferido, não dado. Ontem, Richarlyson, do Atlético Mineiro, voltou a falar do assunto. Richarlyson, todo mundo sabe, tem fama de gay, mas diz que não é. Se é ou não é, isso não me interessa, o interessante foi o comentário dele a respeito do beijo: Richarlyson disse que admira a coragem do beijoqueiro, embora ele mesmo não fosse capaz de fazer igual. E acrescentou:

– Ele vai se dar mal. O futebol é homofóbico.

Em resumo, Richarlyson considerou o beijo do colega um ato homossexual. Ou homoerótico, como se diz agora. Não seria a opinião de Richarlyson preconceituosa?

O selinho de Emerson não me pareceu um beijo de caráter sexual. No máximo, foi um carinho num amigo, mas acho que nem chegou a tanto. Emerson postou o beijo numa rede social. Queria, portanto, divulgá-lo. Queria a polêmica. Foi um beijo de marketing. Poderia ter sido um beijo romântico, como de um navegador português numa índia brasileira; poderia ter sido um afago amistoso, como o de Kamenev em Stálin.

Mas não. Foi um beijo premeditado. Um beijo como o de Madonna e Britney Spears, sem desejo, sem erotismo, sem nenhum significado, além da intenção de se fazer notar. E, sendo assim, será um beijo corajoso, como disse Richarlyson, um beijo-denúncia, um tapa na hipocrisia machista do futebol? Ou será um beijo meramente promocional?


Espero que seja o beijo ideológico, não o mercadológico. Mas ainda prefiro o autêntico, sexual ou amistoso, pouco importa, desde que haja vontade de beijar e de ser beijado.

03 de setembro de 2013 | N° 17542
 LUIZ PAULO VASCONCELLOS

Sobre o artista e o público

A perspectiva da realização artística exige autonomia, conhecimento e enfrentamento. Autonomia para criar a partir de uma percepção própria, conhecimento para transformar a intuição em linguagem, enfrentamento para transgredir os limites impostos pela mediocridade. Afinal de contas, a média é o mediano, e o mediano é o medíocre. Como disse o grande escritor Thomas Bernhardt, na arte, na verdadeira arte, não há perdão para os medíocres.

Se perguntarmos ao público o que ele quer ver amanhã, a resposta certamente será baseada na última experiência positiva que ele teve, ou seja, no que ele viu ontem. Desta forma, o espetáculo de amanhã será uma reprodução do que foi visto ontem, o que dará a esse mesmo público uma melancólica sensação de “déjà vu”.

Sustentar-se de uma profissão que é mais uma vocação do que uma profissão não é fácil. E não somente aqui, na província, mas em qualquer lugar do mundo. Meu querido amigo Tom Oliva, meu colega no mestrado em Artes Cênicas na State University of New York, é hoje um conceituado advogado na cidade de Nova York. É claro que em cidades com maior tradição cultural as coisas se tornam, se não mais fáceis, pelo menos mais definidas.

E as concessões, talvez, menos traumáticas, menos constrangedoras, menos dependentes dos mecanismos corporativistas e das pressões pela sobrevivência. Quando, porém, um produtor, para decidir sua próxima peça, e um artista, para criar seu próximo espetáculo, precisam adequar-se à média do gosto do público, aí a porca torce o rabo.

Porto Alegre é hoje o terceiro polo produtor de teatro do Brasil. Qualitativamente falando, nosso espetáculo está ao nível do que se faz de melhor no país. Basta assistir a espetáculos de Patrícia Fagundes, Inês Marocco, Daniel Colin, Camila Bauer, Jezebel de Carli, Camilo de Lélis, Dilmar Messias, Luciano Alabarse e tantos outros. Nossos atores tornam-se destaques nacionais tão logo lhes é dada uma oportunidade de mostrar a cara. Nossos diretores se impõem como pensadores e executores da linguagem cênica. E o Porto Alegre Em Cena – o melhor festival de teatro das Américas – está aí para provar tudo o que estou dizendo.


Para alcançar esta posição, foi necessário batalhar muito, aprender, errar, praticar, trabalhar, ensaiar, errar, ousar, errar de novo e reaprender tudo novamente. Mas, no final, podemos encher a boca e dizer: o ofício está aprendido. Saber transformar esse conhecimento em profissão – de preferência digna e rentável –, eis o desafio de agora e de sempre.

03 de setembro de 2013 | N° 17542
PAULO SANT’ANA

As árvores do parque

Incrível o episódio do eucalipto de sete toneladas que veio abaixo sábado passado à tarde no Parque Farroupilha.

O parque estava lotado. De repente se ouviu um grande estalo, era o eucalipto que tombava. Aquela imensa massa de tronco, galhos e folhas desabou sobre várias pessoas, tendo morrido na queda da árvore o juiz do Trabalho Lenir Heinen, com 64 anos, e se feriram duas outras pessoas, uma com gravidade.

O interessante no episódio é que o eucalipto não avisou que ia tombar, ele desabou de inopino e de soco, o juiz não teve tempo de salvar sua vida.

Tinha passado exatamente pelo local, 30 minutos antes, o colega Moisés Mendes em companhia de seu neto Joaquim, de dois anos e oito meses.

Centenas de outras pessoas passaram debaixo do eucalipto que iria tombar em minutos.

Que tragédia! Que destino.

É do grande Augusto dos Anjos o soneto abaixo transcrito:

– As árvores, meu filho, não têm alma.

E esta árvore me serve de empecilho,

É preciso cortá-la, pois, meu filho,

Para que eu tenha uma velhice calma.

– Meu pai, por que tua ira não se acalma?

Não vês que em tudo existe o mesmo brilho?

Deus pôs alma nos cedros, nos junquilhos,

E esta árvore, pai, possui minh’alma.

Disse e ajoelhou-se numa rogativa:

– Não mate a árvore, pai, para que eu viva!

E quando a árvore olhando a pátria serra

Caiu aos golpes do machado bronco

O moço triste se abraçou com o tronco

E nunca mais se levantou da terra.

Este soneto trago-o decorado há 40 anos, junto com centenas de outros. Lembrei-me dele quando tombou o eucalipto da Redenção, levando consigo a pobre (ou rica) alma do juiz do Trabalho.

Mas não me sai da cabeça que uma árvore de sete toneladas ruiu de repente, sem qualquer aviso aos frequentadores do parque.

Uma queda à traição, um estrondo do destino!

Autografa nesta terça-feira, às 19h, na Livraria Saraiva do Moinhos Shopping, o seu livro Histórias de Afeto o médico oncologista Gilberto Schwartsmann.

No livro, o autor aborda tocantes histórias baseadas em fatos reais que revelam a dor das despedidas.


É muito bom de lê-las.

3 de setembro de 2013 | N° 17542
ATAQUE EM UNIVERSIDADE

Alunos são assaltados em aula

Ladrão armado entrou em sala da faculdade de comunicação da PUCRS, roubou pertences e provocou pânico ontem à noite

Uma turma de alunos do curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) foi surpreendida, na noite de ontem, por um assaltante armado. Depois de ameaçar os universitários e roubar pertences e dinheiro de alunos e da professora, o ladrão saiu do prédio sem ser identificado.

De acordo com relatos de estudantes que estavam na sala, o homem entrou no local, no terceiro andar da Faculdade de Comunicação Social (Famecos), por volta das 22h15min.

O estudante Douglas Roehrs, 23 anos, afirmou que havia saído da sala poucos minutos antes e chegou a conversar com o criminoso no corredor.

– Ele me perguntou se faltava muito tempo para terminar a aula, pois estava esperando o irmão dele – contou Douglas.

Cerca de cinco minutos depois, o assaltante entrou na sala, onde 22 alunos assistiam a uma apresentação de PowerPoint da disciplina de Administração em Jornalismo, do sexto semestre do curso, e anunciado o assalto.

Criminoso chegou a ameaçar de morte universitário. Vestindo um casaco cinza e carregando uma mochila rosa, ele mostrou a arma e foi ao centro da sala, pedindo para que todos colocassem seus pertences na mochila.

Enquanto alguns depositavam celulares, carteiras o outros objetos, um estudante se recusou a entregar o notebook. Nesse momento, o assaltante teria ameaçado matá-lo e fingiu realizar uma ligação para comparsas que estariam aguardando no prédio. Ele se dirigiu à porta, carregando na mochila os objetos de mais de 15 alunos e disse para que ninguém saísse pelos próximos 30 minutos.

Durante um breve momento, alunos e professor discutiram como proceder. A professora Roberta Manica, que estava com celular, ligou e pediu ajuda. A segurança do prédio foi até a sala. O assaltante não foi capturado. Avisada do caso, a Brigada Militar foi ao local. Os alunos foram orientados a registrar a ocorrência individualmente. Pelo menos cinco ocorrências haviam sido registradas na 15ª Delegacia da Polícia Civil (bairro Partenon).

Zero Hora tentou contato com a universidade, mas não obteve retorno até a 0h30min de hoje.


eduardo.rosa@zerohora.com.br

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Programa que rouba dados bancários prospera no Facebook

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DO "NEW YORK TIMES"
Ouvir o texto
The New York TimesZeus, um programa que rouba informações bancárias descoberto há mais de seis anos, continua ativo e fazendo vítimas no Facebook.
O software malicioso já infectou milhões de computadores em todo o mundo --a maioria nos EUA. Uma vez que o Zeus se instala em uma máquina, ele permanece dormente até que a vítima visite um site de banco. O Zeus então grava todos os dados inseridos, como números de contas e senhas, e depois drena todo o dinheiro disponível.
Dado Ruvic/Reuters
Homem mexe em laptop em frente a logo do Facebook
Homem mexe em laptop em frente a logo do Facebook
Em alguns casos, o programa pode até mesmo substituir o site de um banco com uma página falsa, a fim de obter mais informações, tais como um número de segurança social, que podem ser vendidos no mercado negro.
De acordo com pesquisadores da empresa de segurança Trend Micro, ataques utilizando o Zeus têm aumentado de forma constante desde quando ele foi descoberto, em 2007.
Eric Feinberg, fundador do Fake (Fans Against Kounterfeit Enterprise), grupo que age pela conscientização contra ameaças virtuais, notou um aumento de links infectados com o Zeus em páginas populares sobre a NFL (liga de futebol americano dos EUA) no Facebook.
O malware estava sendo disparado por computadores controlados pela organização criminosa Russian Business Network, que tem sido associada a atividades como distribuição de programas maliciosos, roubo de identidade e até pornografia infantil.
Feinberg disse que tentou alertar o Facebook para o problema. Um porta-voz do site lembrou que a rede escaneia sempre por links com programas maliciosos e oferece aos usuários uma ferramenta de varredura de ameaças.
Segundo Feinberg, a abordagem após o fato não é suficiente. "Se você realmente quer hackear alguém, o melhor lugar para começar é um falso perfil no Facebook. Tão simples e tão estúpido", disse.
"Eles não estão ouvindo. Precisamos dar mais atenção para isso", completou Feinberg.

02 de setembro de 2013 | N° 17541
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA

Porto Alegre sem cafés

Vocês, pessoas de agora, como diria Lupicínio, não sabem de um desgracioso fenômeno que ocorreu em Porto Alegre ali pelos anos 1970. Não, não estou falando do calçadão da Rua da Praia, piscina olímpica que sepulta até hoje as pedras azul e rosa cantadas por Nilo Ruschel. Não me refiro também à moda boca de sino, paquidérmico estilo que punia os dois sexos. Trato do inglório sumiço dos cafés com mesas.

Logo na cidade de Quintana, a dos cafés fumados e conversados, proscreveram-se todos os estabelecimentos do gênero, para a entrada em campo de uns antros dotados de balcões de fórmica e de banquetas, por sinal as mais incômodas do universo. Chamavam-se lanchonetes e substituíam por acréscimo, nas fachadas, aquela delicada caligrafia do neon por modernosos letreiros de acrílico.

Hemingway lamentou em páginas antológicas o ingresso do bar américain em Paris. Mas lá, em todos, sobravam bem ao lado algumas mesas, ou seja, as pessoas civilizadas podiam servir-se quanto quisessem dessas úteis peças do mobiliário. Aqui, e isso décadas depois, elas foram total, completamente banidas.

A época a que me reporto, aliás, era costumeira em exilar objetos abstratos e concretos. Proscreveu a democracia, os direitos humanos, até mesmo a liberdade de compor uma simples crônica como esta. A Igreja padeceu da mesma inclinação, decretando a morte do latim na missa, exemplo seguido nas escolas por ordem dos usurpadores do poder que acampavam na Ilha da Fantasia.

Só muito lentamente os cafés de Porto Alegre voltaram a ter mesas. Se não erro, a pioneira foi Dona Eva Sopher, que mandou abrir aquele magnífico espaço do Theatro São Pedro, equipado até com vista cativa da Praça da Matriz. Seguiram-se a Casa de Cultura e o belo ambiente criado pela Cacaia na Rua Padre Chagas, um que avança sem cerimônia pelo passeio, onde costumam se abrigar deusas de finíssimo trato.

Mas você que, tomando seu cappuccino, está flertando neste instante com a linda dama da mesa à sua esquerda, não imagina a tragédia que era esse doce esporte na era das lanchonetes. O máximo que você pegava era um torcicolo. Pois, junto com os cafés com mesas, tinham expulsado da mui leal e valorosa algo que ora floresce em todo o esplendor com a aproximação da primavera.

Qualquer coisa chamada romantismo.



02 de setembro de 2013 | N° 17541
PAULO SANT’ANA

Teóricos da desordem

Devem agora estar satisfeitos os que criticavam que o Internacional levava gols demais. Não levou nenhum gol em Curitiba. Mas também não fez gol algum. Os teóricos da desordem desconhecem que há uma relação de alteridade entre fazer e tomar gols: muitas vezes sofrer gols é um bom sinal, se isso for acompanhado de gols feitos.

E está aí o Internacional afundando na tabela, porém satisfazendo os teóricos da desordem, que reclamavam contra a quantidade de gols sofridos.

Eu provo que um time acabará sendo rebaixado neste Brasileirão se não tomar nem marcar gols em todo o campeonato. Em suma, se obtiver em todos os jogos o resultado que o Inter alcançou ontem: zero a zero.

Mas lá se vão já sete jogos do Internacional sem vitória. Clube grande nenhum que tenha grande torcida resiste a tal exasperante série sem triunfos.

E, antes do início do Brasileirão, quase todos acreditavam que o Internacional fosse superar o Grêmio na tabela. Os figurões que o Inter ostenta em seu ataque e no banco de reservas davam aos analistas a quase certeza de que o Grêmio teria menores resultados que o Inter no certame.

Então, por que está acontecendo de o Grêmio estar lá na frente do Internacional na tabela? A explicação é simples: treinador. Renato vem mostrando mais talento do que Dunga para administrar seu time.

Não que o Grêmio seja lá essas coisas. Mas cinco vitórias consecutivas do Grêmio credenciam Renato como ótimo treinador. Três vitórias fora de casa, o que o Grêmio nunca, jamais, obteve antes de Renato.

O fato decisivo para isso é que Renato encaixou o método: três zagueiros centrais e mais três volantes.

Teve tanto êxito essa bolação do Renato, que o Grêmio, para alcançar a invejável posição que ostenta hoje na tabela, resistiu até mesmo às defecções de Zé Roberto, Elano e Vargas. Ninguém poderia adivinhar que, sem Zé Roberto, Elano e Vargas, o Grêmio conseguiria ingressar e se manter com firmeza no G-4.

Mas ingressou e vem se mantendo. Treinador é sempre elemento fulcral para o êxito ou o fracasso de um time em um certame. E assessor de imprensa também.

É comovente o que vem acontecendo com Luxemburgo no Fluminense, ameaçado de rebaixamento, e com Mano Menezes no Flamengo. Os dois treinadores afundam na direção de seus times, o Flamengo levou quatro ontem do Corinthians.

Por sinal, quando Fábio Koff necessitava de apoio político para demitir Luxemburgo, corri em seu auxílio. Eu havia notado a decadência profissional de Luxemburgo em pleno exercício de suas funções no Grêmio.


E funcionou o meu agrément, principalmente porque apoiei incondicionalmente a contratação de Portaluppi.

02 de setembro de 2013 | N° 17541
ARTIGOS - Paulo Brossard*

Apequenando o Itamaraty

Semana passada, pouco mais, ocorreu fato que, salvo erro, não tinha precedente. Senador boliviano, alegando fatos graves, solicitou ao Brasil asilo político, que lhe foi concedido na embaixada em La Paz, aliás, segundo antiga tradição nos países da América do Sul.

Passado algum tempo, o encarregado de negócios da embaixada brasileira, que vacante, ter-se-ia dirigido reiteradas vezes ao Itamaraty, no sentido de dar ao asilado o devido salvo-conduto, tanto mais que as condições de seu aposento eram manifestadamente deficientes, sem que houvesse consequências. Em data recente, o mesmo diplomata, alegando até razões de humanidade, promoveu o translado do asilado para o Brasil e no Brasil ele se encontra, ainda sem o devido e necessário salvo-conduto boliviano. Conhecido o fato, verificou-se uma espécie de terremoto burocrático que deu por terra o ministro das Relações Exteriores.

Até agora, os fatos só parcialmente são conhecidos, motivo pelo qual não se pode ter visão completa do caso, no entanto, ressalta ao primeiro exame que pouca gente sai ilesa da maçaroca diplomática. Parece mesmo que a notória simpatia do governo brasileiro pelos governos bolivarianos, dos Chávez e dos Evos, explica seu estranho procedimento; tendo concedido o asilo, deixou que 455 dias se passassem sem que nada fosse feito para que o caso tivesse o desfecho regular; com efeito o asilado permaneceu praticamente preso, em um cubículo, impróprio para abrigar um asilado, quando bastava a cobrança do salvo-conduto devido pela Bolívia.

Nunca fui asilado e espero não vir a experimentar essa situação, mas sempre entendi que quem recebe alguém como asilado deve dar-lhe tratamento decoroso e, saliente-se, não me lembro de alguém que sendo exilado no Brasil se haja queixado do trato aqui recebido.

Nesse longo período, 455 dias, é penoso reconhecer que o Itamaraty foi omisso e complacente, e segundo o Padre Vieira “a omissão é um pecado que se faz não fazendo”. O fato de o asilado aguardar durante esse longo tempo o necessário salvo-conduto concede certeza ao fato.

De resto, ainda que sem uma palavra, outro fato veio a ocorrer em ritmo de urgência, a súbita mudança de endereço do ministro das Relações Exteriores da Esplanada dos Ministérios para Nova York, sede da ONU, e concomitantemente, em sentido inverso, o mesmo caminho foi feito pelo chefe da Representação do Brasil na ONU, de Nova York para a Esplanada dos Ministérios a fim de ocupar a chefia da casa de Rio Branco, recém desocupada.

Muda o ministro oficial, mas ninguém ignora existir uma espécie de esquizofrenia administrativa envolvendo a pasta do Exterior, “um ministro inominado”, dito assessor da Presidência, exerce poder incontrastável em assuntos externos do Brasil, apequenando o Itamaraty, como se o ministro de Estado não fosse o conselheiro constitucional da Presidência.

Até onde sei, é o que posso relatar com a objetividade possível do sucesso que absorveu atenções durante uma semana, a que não faltaram capitulação e omissões e indignações.

Quem manifestou publicamente seu desagrado ou indignação foi a senhora presidente da República, fato que seria preferível não tivesse aparecido. Exacerbar-se em público não é próprio de chefe de Estado. O natural é que nenhuma palavra fosse dita pela presidente, que poderia exigir a verificação do fato e determinar à autoridade competente procedesse na forma da lei. E na forma da lei o caso fosse resolvido.

Enfim, o episódio não foi bom para ninguém. É o preço a ser pago pela atual política adotada em relação a países da América do Sul e outros rincões.


*JURISTA, MINISTRO APOSENTADO DO STF

02 de setembro de 2013 | N° 17541
KLEDIR RAMIL

Os mestres

Dizem que a poesia é a forma mais elevada de literatura, e a crônica, a mais primária. Por isso, de maneira prudente, meus primeiros passos na arte da palavra escrita têm sido por meio da crônica. Quando escuto alguém dizer que as letras de minhas músicas são verdadeiros poemas, não me iludo. É um exagero, coisa de fã.

A leitura dos grandes mestres sempre foi, para mim, uma fonte de inspiração e acaba influenciando o que escrevo. Alguns poetas me arrebatam mais do que outros: Manuel Bandeira, Pablo Neruda e, especialmente, Mario Quintana. Há pouco tempo, me dei conta de que “Vou ficar até o fim do dia, decorando tua geografia” nada mais é do que uma tentativa de imitar os versos de Quintana que li na adolescência: “Olho o mapa da cidade como quem analisa a anatomia de um corpo”.

Em geral, o processo criativo acontece de forma inconsciente, sem origem clara, mas, às vezes, é possível identificar vestígios da nascente, do olho-d’água. Outras vezes, de maneira curiosa, as ideias estão no ar e surgem coincidências em mais de um lugar ao mesmo tempo.

Em 2008, publiquei aqui na Zero Hora um texto sobre o uso de celular em avião e recebi uma mensagem do Moacyr Scliar: “Meu caro Kledir: bota transmissão de pensamento nisso – eu tinha escrito uma crônica exatamente sobre o tema dos celulares a bordo dos aviões (até a cabine mencionei). Claro que escrevi outra... Será uma homenagem a teu espírito de vanguarda! Abrs. Moacyr”.

Minha resposta: “Querido mestre. Certa vez, questionaram Silas de Oliveira sobre uma canção que ele apresentava como sendo de sua autoria. Silas respondeu: ‘Música é que nem passarinho, tá solta no ar, é de quem pegar primeiro’. Estar em sintonia com teus pensamentos tem para mim um valor inestimável, é sinal de que estou no caminho certo. Um abraço com carinho. Kledir”.


A vida me deu o privilégio de conviver um pouco com Moacyr Scliar e, em cada oportunidade, sempre aprendi alguma coisa importante. Sinto saudade das nossas conversas. Já com Mario Quintana, tive apenas um encontro fugaz nos anos 1970. Ele estava num café, me aproximei e pedi a Elena, sua sobrinha, para ser apresentado. Quintana olhou pra mim sorrindo e perguntou: “Por que tu queres me conhecer?”. Fiquei mudo, desconcertado. Eu não sabia o que responder. Segurei sua mão suave e, então, percebi que eu só queria aquilo mesmo, tocar no poeta. E, acredite se quiser, ele era de verdade.

02 de setembro de 2013 | N° 17541
L. F. VERISSIMO | L.F. VERISSIMO

Poetas

Ainda não sabemos tudo sobre Marte, mas sabemos o bastante para dizer que ele nos decepcionou. Marte foi um blefe. Os tais canais vistos pelas lunetas antigas, provas de que haveria alguma forma de vida inteligente no planeta, mesmo que fosse só de engenheiros, não eram canais.

Nenhum vestígio de qualquer tipo de vida apareceu em Marte, muito menos o de uma civilização de homenzinhos verdes, ou de qualquer outra cor, com a capacidade para invadir a Terra. Anos e anos de literatura premonitória e previsões terríveis foram desperdiçados. Nos apavoraram por nada. Como no Iraque, também não havia armas de destruição em massa em Marte.

Mas se Marte se revelou ser um imenso parque de estacionamento, que não ameaça a Terra, isso não quer dizer que não existam civilizações lá fora que cedo ou tarde entrarão em contato conosco, exigindo nossa submissão ou anunciando a invasão.

Nada nos assegura que, se ainda não fomos invadidos por exércitos extraterrenos, não tenha havido – ou esteja havendo neste momento – missões de prospecção e espionagem, feitas por destacamentos avançados ou por agentes isolados. Não quero assustar ninguém, mas vou contar. Já tive contato com um desses agentes extraterrestres. Desconfiei quando ele disse “Vocês são engraçados...” e eu perguntei “Vocês”, quem? “Vocês” brasileiros? “Vocês” carecas? “Vocês” míopes? Destros? Cardiopatas? E ele respondeu: “Vocês, gente”.

E me confessou (já tinha bebido um pouco) que não era deste mundo, era de outro, e estava prospectando o universo inteiro atrás de um planeta para ser colonizado pelo seu. Achava que tinha, finalmente, encontrado esse planeta.

Era a Terra. No seu relatório, recomendaria que a Terra fosse ocupada e sua principal riqueza natural explorada, pois era o que faltava no planeta do qual viera. Perguntei qual era a riqueza natural que nós tínhamos e eles não, e o extraterrestre respondeu “A poesia”. E perguntou: “Você sabe que a Terra é o único planeta do universo conhecido em que as pessoas dão nome aos ventos?”. Fiquei lisonjeado com aquilo, pensando “Taí, somos todos poetas e não sabíamos” e perguntei o que fariam com os poetas da Terra no planeta dele.

– Comê-los, claro – respondeu ele.

E explicou que não havia mais poetas no seu planeta porque já tinham comido todos. Ou como eu imaginava que eles tinham se tornado uma civilização tão avançada? 

domingo, 1 de setembro de 2013

Gastos com carro nos 3 primeiros anos de uso equivalem ao preço de outro novo

01/09/2013 - 02h01 
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RODRIGO LARA
DE SÃO PAULO
Ao comprar um carro, o brasileiro está mais preocupado com a atuação do vendedor, o prazo de entrega e a facilidade de pagamento. Os dados vêm de um estudo feito pelo instituto J.D. Power do Brasil, que mede a satisfação dos consumidores.
Entretanto, o custo de manutenção não foi citado como fator de compra, embora seja relevante. De acordo com um estudo realizado em parceria pela Folha com a ProTeste (Associação Brasileira de Defesa do Consumidor) manter um veículo considerado popular pode custar mais de R$ 800 ao mês.
A pesquisa considerou os gastos nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. Foram avaliados fatores como depreciação, seguro e impostosao longo de três anos. No fim desse período, o gasto equivale ao preço de um carro novo de categoria similar.
Os dez carros mais vendidos no primeiro semestre foram incluídos na lista. A conta considerou que os modelos rodam, em média, 15 mil quilômetros por ano.
Se o carro for financiado, o consumidor deverá acrescentar os gastos com o parcelamento. Assim será possível ter uma noção do impacto dessas despesas no orçamento.
Editoria de Arte/Folhapress
FATORES RACIONAIS
De acordo com o levantamento, o valor gasto em três anos para se manter um Hyundai HB20 1.0 é de R$ 32 mil. Hoje, um modelo zero-quilômetro do mesmo carro é vendido por R$ 34,8 mil. Os valores não assustaram o designer Lucas Astolfi Luz, 26.
"O custo foi extremamente importante na minha decisão. Considero-me um comprador passional, porém, na minha atual situação, os fatores racionais têm mais peso. O valor gasto mensalmente com o HB20 é alto, mas acredito que ele também varie de acordo com a quilometragem e o tipo de uso do carro", diz o designer.
Antes de comprar o carro, Lucas pesquisou diversos fatores. "Comparei vários modelos e, após diversas pesquisas sobre consumo e valor do seguro, por exemplo, considerei que o Hyundai me atenderia melhor em itens como conforto e estética", conclui.
RACIONAL
Zé Carlos Barretta/Folhapress
O designer Lucas Astolfi Luz, que se considera um comprador emocional, escolheu o HB20 1.0
O designer Lucas Astolfi Luz, que se considera um comprador emocional, escolheu o HB20 1.0
Para Jon Sederstrom, diretor da J.D. Power brasileira, o perfil passional do consumidor local está mudando.
"Quando vai para a concessionária, o brasileiro é prático. E muito se diz sobre a compra do carro ser emocional, mas o que vimos em nossa pesquisa é que o cliente está cada vez mais racional", diz o executivo.
Ele também afirma que, mesmo quando o consumidor não pondera o custo para se manter o carro, essa variável é fundamental após a compra. "Nosso estudo mostrou que 42% da satisfação do cliente está justamente ligada ao valor gasto durante seu período com o veículo".
Ex-dono de um Chevrolet Onix (o carro foi roubado recentemente), o analista de projetos Rodrigo Duarte, 30, diz que faz parte do grupo dos consumidores passionais: "Acho que é muito mais importante eu sentar no carro, gostar de dirigi-lo e me sentir feliz do que simplesmente pensar nos gastos".
Porém, Duarte afirma considerar alguns custos fixos. "Os valores de seguro podem atingir níveis estratosféricos, como os mais de R$ 4 mil pedidos para um Peugeot 307 que eu tinha. O valor das revisões também conta".
MUDANÇA
A consultora de projetos Daniela Cruz, 34, tem perfil racional. Ela usava seu Ford Fiesta 2011 para ir ao trabalho diariamente. Entretanto, a rotina com o carro foi alterada desde que se mudou da zona leste para a zona sul de São Paulo.
"Eu rodava cerca de 700 quilômetros por mês e, com isso, gastava quase R$ 500 mensais, descontando estacionamento", diz a consultora, que hoje pode dispensar o carro.
"Ando cerca de 20 minutos até o meu trabalho. Quando está chovendo ou muito frio, meu marido e eu pegamos um táxi e gastamos por volta de R$ 8,50", afirma Daniela.

♥ÓTIMO DOMINGO PRA VOCÊ♥


Olá Meu Anjo !!!
Deixo-te o melhor de mim... Meu
amor por Deus. Que ele
contagie sua vida... Assim..
. Como desejas agora

Beijos e um lindo Domingo

♥♥♥



Um lindo domingo...
Postado por Juremir em 28 de agosto de 2013 - Uncategorized
Ana Cláudia Rodrigues

Desabafo de uma médica gaúcha

Sou Médica. Fui criada em berço esquerdista e pobre…Hoje vejo que esse distinção não se aplica mais… Mantive meus ideais de igualdade para todos…não me afastei das minhas idéias e da minha humanidade, mas o sistema se afastou.. Vivencio o SUS diariamente….sei exatamente o que falo quando digo que existe um abismo entre o sistema de saúde público e o privado.

Me sinto ofendida pessoalmente quando apedrejam meus colegas, quando nos colocam a culpa de um sistema de saúde historicamente negligenciado, quando nos taxam de patricinhas sabendo que não é assim…pelo puro prazer de nos discriminar. Essa gente que tanto nos apedreja na sua maioria não depende do SUS, não conhece o SUS…talvez sejam os verdadeiros filhinhos de papai… Isso é triste, mas não é o pior.

O pior é ver uma multidão de brasileiros ser ludibriada, sem perceber (ou até percebendo mas fazendo vista grossa por imbecilização política), e avalizando medidas não apenas ineficientes mas desastrosas para a saúde pública, medidas que só ampliam o abismo entre os sistemas público e privado, medidas que decidem autoritariamente quem terá e quem não terá direito a uma saúde digna e de qualidade ( e não essa saúde remendada que estão nos impondo goela abaixo).

Não haveriam alternativas melhores para a saúde?? Existe um programa, não emergencial, mas planejado, (já que o caos do SUS é secular; a saúde está descoberta – a céu aberto – desde que o Brasil foi descoberto…), que consta no imaginário de quem quer construir um país verdadeiramente mais digno e igualitário. Esse programa intitula-se MAIS MORAL, e engloba um leque de medidas realmente eficazes para sanar o ABISMO que há entre as prestações de serviços públicos e privados, em termos gerais, sobretudo na saúde.

Tais medidas são: MAIS LEITOS HOSPITALARES, MAIS VAGAS DE UTI, HOSPITAIS COM CONDIÇÕES DIGNAS DE HIGIENE E DE ESTRUTURA PARA RECEBER OS PACIENTES, MAIS E MELHORES MEDICAMENTOS NA REDE PÚBLICA, PROFISSIONAIS MELHOR REMUNERADOS (ENFERMEIROS, PSICÓLOGOS, FISIOTERAPEUTAS, PROFESSORES, ETC, SÃO VERGONHOSAMENTE REMUNERADOS), CARREIRA DE ESTADO PARA MÉDICOS, E PRINCIPALMENTE EDUCAÇÃO, PILAR FUNDAMENTAL, QUE PERMITE AO PACIENTE SEU AUTO CUIDADO. TAIS MEDIDAS QUE DEVERIAM TER SIDO INSTITUÍDAS DESDE SEMPRE PERMANECEM PERDIDAS NO BURACO NEGRO DE BRASÍLIA…

EM SEU LUGAR, SURGIRAM SOLUÇÕES INSTANTÂNEAS, IGUAL SOPA DE PACOTE (QUE FINGE ESTAR ALIMENTANDO ENQUANTO TE INTOXICA), IGUAL UM COELHO SAÍDO DA CARTOLA, QUE NUM PASSE DE MÁGICA FAZ O POVO SORRIR, GARANTE UMA MELHORA PROVIDENCIAL NA POPULARIDADE DO desGOVERNO, MAS NÃO RESOLVEM, NEM DE LONGE, OS PROBLEMAS DA SAÚDE, POIS NÃO SÃO MEDIDAS REAIS, SÃO MEDIDAS ELEITOREIRAS. ENTÃO, PORQUE NÃO POR EM PRÁTICA O PLANO MAIS MORAL E TODO SEU CONJUNTO QUE RESULTARIA EM MAIS SAÚDE??

BOM….HOUVE MUITO TEMPO PRA ISSO…DESDE 1500… ENTÃO EU SÓ POSSO CHEGAR A UMA CONCLUSÃO: ESSA GENTE ESTÁ DEFECANDO E DEAMBULANDO PARA A POPULAÇÃO… E USANDO OS MÉDICOS COMO LATRINA…


ELIO GASPARI

Como a raiva reelegerá Dilma

A oposição prega para os convertidos, associando-se a causas perdidas; médicos cubanos merecem crédito

A recuperação da popularidade do governo da doutora Dilma foi audaciosamente prevista pelo marqueteiro João Santana durante o rescaldo das manifestações de junho, quando ele disse que tudo não passava de um desabafo temporário. A doutora, que tivera 57% de aprovação, tomara uma vaia de estádio e caíra para 30%. Acredita-se que já retornou à faixa dos 40%.

Santana tinha motivos para acreditar na força de Dilma. Não foi ela quem aumentou as tarifas de transporte (pelo contrário, torceu o braço dos prefeitos Eduardo Paes e Fernando Haddad para baixá-las).

Enquanto a doutora tocava o expediente, a oposição dedicou-se a fortalecê-la. É uma oposição que converte crentes.

Seu primeiro alvo foi o programa Mais Médicos, que trouxe profissionais estrangeiros. Em vez de discutir também a reserva de mercado que as associações médicas estimulam, as pegadinhas do programa Revalida ou a burocracia das universidades federais, partiram para baixarias e ameaças. Uma equipe de repórteres da Folha descobriu um rombo no programa: em 11 cidades de quatro Estados, prefeitos pretendem demitir médicos brasileiros que estão em suas folhas, trocando-os por estrangeiros que serão pagos pela Viúva federal. "Mais médicos" onde não os há é uma coisa. Menos médicos brasileiros, bem outra. Basta lançar o programa "trocou, dançou".

A desqualificação dos cubanos tem um ingrediente de ingenuidade. Raul Castro não está mandando para o Brasil médicos que flanavam por Havana. Ele já enviou 113 mil profissionais para 103 países e fez da iniciativa uma fonte de dólares. São quadros selecionados, com formação política. Em tempos passados, cubanos iam para guerras onde morreram pelo menos 3.000 deles. O governo trabalha com a certeza de que o programa trará benefícios. A oposição, com o desejo de que dê tudo errado.

No caso da solidariedade que deram ao diplomata que desovou o senador boliviano no Brasil, esqueceram-se de pedir uma avaliação da sua conduta aos notáveis que estão entre seus quadros. Disputam a bola atrás da linha de fundos, pois pode-se detestar o PT, mas no dia em que um encarregado de negócios fizer o que acha melhor, a diplomacia vira bagunça.

Dilma vai para a reeleição (isso se não for preciso tirar Lula do banco de reservas) porque o PSDB tem mais ressentimentos que planos e mais queixas que projetos. Em 2010 o PT teve 55,7 milhões de votos. Desse jeito, a oposição corre o risco de sair da eleição de 2014 com os mesmos 43,7 milhões de 2010, satisfeita por ter conseguido que esses eleitores ficassem com muito mais raiva dos comissários.

UM SÁBIO

Quando começou o julgamento do mensalão e nove em dez pessoas temiam que o STF fizesse uma pizza, um conhecedor da Casa avisou:

"Haverá uma farta distribuição de condenações. Muitas com penas superiores a dez anos."

Esse sábio acha que os recursos infringentes, capazes de aliviar a vida dos comissários e de seus tesoureiros, morrerão na preliminar:

"Meu palpite é uma maioria, de seis a cinco ou sete a quatro, mantendo as penas."

Alguns interessados já sentiram o cheiro da brilhantina e mudaram seus domicílios para Brasília, onde começou uma pequena reforma na penitenciária da Papuda.

Para os condenados a regime semiaberto, será um conforto. Irão da Papuda para a Câmara e dela para a cela. Já a turma do regime fechado safa-se das condições a que são submetidos os demais cidadãos no presídio do Tremembé.

NÃO APRENDEM

Um pedaço do comissariado petista namorou a ideia de salvar o comissário João Paulo Cunha do regime fechado por conta de sua condenação, pelo Supremo Tribunal Federal, a nove anos e quatro meses de reclusão.

RECORDAR É VIVER

O risco de um asilado vir a suicidar-se não é fantasia.

Depois da deposição de João Goulart, seu secretário particular, Eugenio Caillard, pediu asilo ao embaixador do México, Vicente Sanchez Gavito.

O diplomata negou-lhe o pedido e, na mesma hora, Caillard ameaçou matar-se, pulando a janela da sala em que conversavam. Gavito não quis arriscar e asilou-o.

Semanas depois, Caillard matou-se na embaixada, com barbitúricos.

GARIBALDI NO BRASIL

Está chegando às livrarias "Garibaldi na América do Sul: O mito do gaúcho", do jornalista Gianni Carta. É o resultado de oito anos de trabalho em oito países. Republicano, corsário e namorador, antes de ser o herói da unificação da Itália, Giuseppe Garibaldi foi um subversivo na América Latina, metido na Revolução Farroupilha. Carta estudou o mito que envolveu o personagem, construído, entre outros, pelo romancista francês Alexandre Dumas.

Para quem acompanha as atuais vicissitudes da diplomacia brasileira, vale relembrar o episódio em que o ministro brasileiro em Montevidéu o chamou de "pirata" e pediu que fosse expulso do Uruguai. Garibaldi foi à legação brasileira e desafiou-o para um duelo. O ministro (João Francisco Régis) não aceitou, sustentando que representava o governo de seu país e não duelaria com um delinquente. Depois a diplomacia brasileira amansou-se.

CADÊ O AMARILDO?

Sabe-se que o major Edson Santos poderá deixar o comando da UPP da Rocinha.

Só não se sabe:

1) Onde está o pedreiro Amarildo.

2) Com que frequência as câmeras da PM pifam. (As da UPP pifaram na hora de registrar a saída de Amarildo.)

3) Com que frequência as viaturas da PM rodam com os GPSs desligados. (Os da UPP não funcionavam naquele mesmo dia.)

As duas últimas perguntas o secretário José Mariano Beltrame pode responder. É só querer.

ÓCIO

Nos quatro próximos quatro domingos o signatário usufruirá o programa Mais Ócio, financiado pela Bolsa Nada.

A CÂMARA PODE CRIAR O ANEXO DOS CONDENADOS

A situação em que ficou o deputado Natan Donadon pode ser absurda, produto dos piores instintos do plenário da Câmara, mas é o jogo jogado. Seus pares acharam que ele não ofendeu o decoro do Parlamento. Por ser um criminoso, ficará na penitenciária da Papuda. Há precedentes de diversos países e nos Estados Unidos chegou-se a situações ainda mais esquisitas.

Dois deputados foram reeleitos enquanto estavam na cadeia. Um deles, depois de solto, assumiu a cadeira e deu o voto que garantiu a presidência a Thomas Jefferson. Um terceiro, Jay Kim, condenado a um ano de prisão domiciliar em 1988, ia ao Congresso com uma pulseira eletrônica, sabendo que sua rotina seria de lá para casa.


O que parece ser uma monstruosidade poderia ser uma solução. Se os parlamentares ladrões condenados pelo Supremo Tribunal Federal forem para a Papuda, fica estabelecido que todos os brasileiros são iguais perante a lei. Deputado em regime fechado não faz mal a ninguém. A Câmara pode até construir o anexo 5 para a carceragem.
VINICIUS TORRES FREIRE

Muito santo, pouco milagre

Mesmo depois de muita injeção de vitamina com efeitos colaterais, PIB cresce a 2% ao ano

AS PREVISÕES para o crescimento da economia no segundo trimestre eram tão furadas que a gente fica tentada a imaginar que o andar da carruagem do PIB possa ser mais veloz daqui em diante.

A tentação da esperança sempre é grande, se não humanamente vulgar, ainda mais quando a turma dita pessimista dá uma bola tão fora, quando a gente é obrigada a relembrar que estatísticas econômicas são um gênero tedioso de ficção científica, segundo a "boutade" de Paul Krugman, Nobel de Economia.

Se os economistas "do mercado", bastião do pessimismo, erraram tanto quanto ao segundo trimestre, erro de 50%, na média, o resto do ano pode até ser bom.

Só que não.

Nem deve ser bom, nem é bem esse o problema dos ditos pessimistas ponderados.

Para começo de conversa, convém considerar em que pé estamos.

Em 12 meses (até junho), o Brasil cresceu 1,9%. É ruim, mas era pior no ano passado. Em junho de 2012, crescêramos 0,9% (em 12 meses).

Mesmo que a economia fique estagnada até o final do ano, o Brasil terá crescido então 2,5% em 2013, graças a mumunhas da estatística do PIB. Está frio ou está quente?

O problema mais imediato é que foi preciso muito santo para pouco milagre, muito estímulo econômico para um resultado miudinho, de resto com efeitos colaterais.

A taxa de juros real caiu de 4,5% ao ano no início de 2012 para 1,8% ao ano na média de julho e para 1,5% em dezembro (agora, está em 3,8% e subindo. Acabou o refresco).

A poupança do governo (receita menos despesa, desconsiderados gastos com juros) caiu de 3,1% do PIB em dezembro de 2011 para 1,9% em julho deste ano, para usar a conta simplezinha. É contraproducente estropiar ainda mais as contas públicas (nem é plano do governo fazê-lo em 2014).

O governo fez dívida para colocar dezenas de bilhões de reais nos bancos públicos a fim de vitaminar o crédito, ritmo de crescimento que não vai se repetir. O BNDES empresta dinheiro a juro real zero.

Ainda assim, estamos crescendo a 2% para 2,5% ao ano, com inflação rondando os 6%. Não é mais possível usar tanto anabolizante.

De resto, temos problemas novos, como o risco de o dólar engordar a inflação e a alta de juros nos EUA.

Há quem imagine que o governo não usou anabolizantes, mas fortificantes. A economia teria padecido apenas de fraqueza momentânea; não sofreria de problemas crônicos como falta de produtividade, mão de obra escassa, infraestrutura precária, burocracia idiótica, falta de investimento público etc.

O pessimista ponderado acredita que a economia tem problemas ora crônicos: precisa de tratamentos complicados, embora viáveis, não de Biotônico Fontoura.

O pessimista ponderado não imagina que veremos recessões à moda dos anos 1980 ou 1990, nem quebras operísticas, daquelas de irmos ao FMI. Nem acredita que o país pudesse ter crescido muito mais do que o fez nestes anos Dilma Rousseff. A terapia, digamos, teria exigido repouso. Mas estaríamos prontos para andar um pouco mais rápido em 2014.


O pessimista ponderado se exaspera com a ideia de que, no ritmo atual, o Brasil vai levar uns 50 anos para chegar ao nível de renda de um país como Portugal.

sábado, 31 de agosto de 2013


01 de setembro de 2013 | N° 17540
MARTHA MEDEIROS

Meu coração em tuas mãos

Não é porque ele foi grosseiro comigo que eu tinha que ser grosseira com ele também, mas fiz, está feito, agora acabou, solidão pra sempre é o que me espera, assim como aquela dívida maldita que só aumenta, meus credores não têm nenhuma compaixão, vou ter que vender meu carro para pagá-la, e essa tosse insistente só pode significar que estou condenada, sem falar que minha filha ainda não voltou da festa, pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, como está quente nesse quarto, eu nunca mais vou conseguir dormir, nunca mais, vou acordar com olheiras até o queixo, sou uma miserável que... zzzzzz.

E então você acorda, abre as cortinas da janela, e recebe um telefonema do seu amor reconhecendo que andou abusando da sua paciência e que está morrendo de saudades, e entra um trabalho freelancer que ajudará a pagar a conta atrasada, e a tosse passa com Melagrião, e a filha está dormindo feito um anjo no quarto ao lado, e as suas olheiras estão aparentes mesmo, mas nada que um corretivo não disfarce. Olhe só, suas preocupações ficaram desse tamanhozinho, de quem foi a mágica?

Do primeiro raio de sol. Durante o dia, nossa cabeça pensa melhor e as soluções aparecem no decorrer das horas. A mente ajusta o foco e não dá trela a fantasmas. Já a madrugada não conhece a palavra sanidade.

A escuridão e o silêncio transformam pequenas chateações em dramas diabólicos, e a gente cai nessa cilada, achando mesmo que estamos lidando com o pior da vida. Mas que vida? Hipercansados, ansiosos, deprimidos, paranoicos, isso é vida? A insônia desperta em nós a morte, isso sim. Ficamos todos ferrados não pela falta de sono, mas pelo excesso de dilemas. Como disse Dostoievski, ser extremamente consciente é uma doença. A gente morre por pensar demais. E pensar é só o que nos resta durante uma insônia.

Mas é possível controlar esses pensamentos malditos.

Em vez de permitir que o cérebro maximize nossos problemas, o melhor seria transformar nossa miséria noturna em algo produtivo. Porém, nem todos conseguem levantar da cama – ainda mais no inverno – a fim de guerrear com seus demônios. Até porque sempre há a esperança de se conseguir dormir pelo menos por uma ou duas horas, o que não acontecerá no caso de acendermos as luzes para pintarmos quadros, escrevermos poemas, fritarmos omeletes, cortarmos o próprio cabelo – ai, não corte o cabelo às quatro da manhã, vá por mim.

Posso fazer uma sugestão? Sem precisar levantar, sem acender a luz, jogue “stop” mentalmente com você mesmo. Países: a, Alemanha; b, Bélgica; c, Canadá; d, Dinamarca... Há grande chance de, antes de chegar no p, Portugal, você já ter adormecido. Se não, siga com o jogo, fazendo seu a-b-c para títulos de livros, comidas, profissões, ruas da cidade. O truque é simples: trocar de preocupação. Ou você prefere continuar fazendo o a-b-c das doenças que poderá contrair ou das pessoas a quem já magoou?

Parece bobagem, e é, mas quase sempre funciona. Jogue “stop” noturno com você mesmo, e stop a insônia.